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Carminho no Coliseu dos Recreios apresenta “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”

Mulher canta no palco acompanhada por dois guitarristas, com público atento num auditório clássico.

Na terceira noite da sua sequência de concertos no Coliseu dos Recreios - série que a própria descreveu como uma residência na sala das Portas de Santo Antão - Carminho surge quase de lado, envolta em penumbra. O gesto inicial diz tudo sobre o que se seguirá: uma artista plena, no topo da carreira, a procurar a pulsação específica de cada plateia para ajustar a entrega (sempre arrebatada), falar com frontalidade e manter a alegria como fio condutor. É assim que arranca esta etapa da digressão de apresentação de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, o disco editado - e premiado - no ano passado.

Uma residência esgotada no Coliseu dos Recreios

Pela terceira noite seguida, não havia um lugar livre. A mesma sala onde se estreou aos 12 anos recebia agora, com lotação esgotada, a mulher que então teve de convencer o pai a deixá-la cantar numa festa privada no Coliseu. Nessa memória, regressa a imagem da mãe, a fadista Teresa Siqueira, a vesti-la “os únicos que condiziam” com a fatiota - e a calçar-lhe uns sapatos apertados, como recorda, entre risos.

Quase 30 anos depois, Carminho é mãe de um rapaz de cinco anos, a quem, mais tarde, dedicaria ‘Na Sombra do Teu Cabelo’, tema que escreveu para ele. Entra em palco com domínio total do espectáculo: sem folhos, com roupa espartana e andrógina e, queremos crer, sem sapatos que magoem.

Três noites esgotadas no Coliseu são, por si só, uma proeza. E o feito torna-se ainda mais expressivo por acontecer sem concessões artísticas e sem depender de um grande êxito radiofónico. O momento que mais se aproxima desse fenómeno pode ser, talvez, ‘Memória’, o dueto com Rosalía - que, neste domingo, Carminho cantaria a solo no bis, arrancando uma ovação de pé e em êxtase.

Cenário e voz: a estética da essência de Carminho

Acima de tudo, o concerto é construído em torno de uma ideia de essência. O cenário e a música obedecem a uma elegância sem enfeites nem acessórios supérfluos - tudo converge para o mesmo centro. E, nesse centro, está a voz: rigorosa, altiva, infalível, ao serviço de um disco onde a intérprete explora a ambiguidade e a dúvida.

Tal como nas noites anteriores, a viagem começou com ‘Balada do País que Dói’, poema mínimo e devastador da portuense Ana Hatherly. Coberta por um véu que, a certa altura, começa a soltar-se e a abrir, Carminho transforma-o numa travessia atribulada, como se a nau partisse do cais para águas agitadas.

À sua direita, ainda na sombra, alinham-se André Dias (guitarra portuguesa), Flávio Cardoso (viola de fado) e Pedro Geraldes (guitarra de colo e guitarra elétrica). Do outro lado, colocam-se Tiago Maia, no baixo acústico, e João Pimenta Gomes, no Mellotron, Martenot e Cristal Baschet.

Instrumentação e renovação do fado em “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”

Escreveu-se muito sobre a presença, em “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, de instrumentos pouco habituais na linguagem do fado. Ainda assim, os mais puristas podem respirar: a integração dessas ferramentas não quebra a linha do concerto; pelo contrário, segue a mesma regra de elegância e serve o todo sem desviar o foco da missão de Carminho - respeitar o fado e, ao mesmo tempo, fazê-lo avançar.

Ao longo da noite, a cantora insiste: “O fado é uma linguagem viva”. E confessa que não se farta de voltar às mesmas canções, porque o passar dos anos - e das vidas - muda o que nelas se encontra; novos sentidos vão-se revelando, sem que a matéria original se perca.

A solidez desta visão não apareceu de um dia para o outro. É fruto de anos a percorrer palcos e de um trabalho continuado em estúdio. “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, nome retirado de um poema inédito de Carlos Barrela que encontrou numa caixa deixada por Beatriz da Conceição, é já o sétimo álbum da artista. Com essa segurança, conduziu a plateia por um percurso intenso, com paragens em temas mais luminosos e populares - ‘Marcha de Alcântara’, ‘Lá Vai Lisboa’ ou ‘Bia da Mouraria’ - que funcionaram como respirações no meio da densidade.

Mais do que hits ocasionais, o que esta noite celebra é o talento em estado puro e a coerência de uma intérprete que é também autora e compositora. Em tom de homenagem e memória, Carminho lembrou: “Não é assim tão líquido que as mulheres pudessem vir a cantar, compor, escrever”, sublinhando a coragem das que vieram antes, dentro e fora do fado.

É desse saber acumulado - de Amália Rodrigues, de Beatriz da Conceição e de Teresa Siqueira, a mãe a quem admite “roubar” muitos fados - que parte a vontade de transportar o ADN do fado para o futuro. Antes de apresentar ‘Saber’, tema do novo álbum também construído sobre versos de Ana Hatherly, onde dialoga com Laurie Anderson, explicou essa ambição. E, no momento em que a norte-americana surge em sussurro, ouvimos: “Being is knowing”, como se no Coliseu se formasse uma pequena ilha de ternura.

“E mesmo a solidão que foi cantada/ Tantas gerações antes de mim/ Pela minha voz atravessada/ Vou levá-la até ao fim” - este excerto de ‘Pela Minha Voz’, acompanhado pela descida de uma espécie de sol negro sobre o palco, cristaliza a ideia que Carminho parece querer fixar: o fado pode ser eterno, desde que existam vozes que o tratem com respeito e, simultaneamente, com audácia e inquietação.

Rosalía, Deus e outras surpresas

Num espectáculo que tanto poderia ser visto numa casa de fados como numa galeria de arte contemporânea, houve espaço para o ascetismo de ‘O Quarto’, cantado quase à capela, com ecos de sintetizadores ao fundo. E houve também tempo para a diversão: Carminho recuperou versos do poeta popular António Campos e trocou o género dos ‘recados’ às donzelas, limpando-os da misoginia anacrónica. “Não vás à fonte sozinho/ Que os rouxinóis do Mondego/ Ao ver-te tão coradinho/ Ficam em desassossego” é a versão de Carminho, gravada em ‘Pedra Solta’, no álbum “Portuguesa”.

Ainda antes do bis, a cantora deteve-se na necessidade de abrir espaço ao perdão nas relações, a bordo de ‘Dia Cinzento’, melancólica e contida. No regresso, à já celebrada ‘Memória’ - com as cordas da guitarra a ocuparem o lugar da voz de Rosalía - juntou-se ‘Estrela’. De guitarra elétrica em punho, Carminho apresentou-a como uma canção sobre quem gosta dela exactamente como ela é. “Uma dessas pessoas é Deus”, revelou, agradecida por ter essa dádiva na sua vida.

Quando o público, de barriga cheia, já rumava à saída, a anfitriã voltou a aparecer, uma vez mais, para se aproximar de quem a viu nesta terceira noite. Explicou que não seria justo deixar Lisboa sem repetir o que oferecera nas duas sessões anteriores: ‘As Penas’, fado popularizado por Amália Rodrigues e um dos poucos que, em criança, a deixavam interpretar.

E já depois de se despedir no bis, regressou novamente ao palco para dar um exemplo claro dessa renovação de sentidos. Cantou ‘As Penas’ e, a brincar com a memória dos sapatos de infância, atirou: “Na altura, as minhas penas deviam ser os sapatos apertados”, antes de acrescentar, sem perder a ternura: “mas eu já as sentia”.

Aos 41 anos, cantou-o agora sem microfone e recebeu uma ovação estrondosa de muitos admiradores já de pé - com toda a amplificação do mundo. Foi o remate perfeito para a noite sonhada de Carminho, uma artista para quem o fado é, como disse, “herança”, mas também um presente vibrante e um futuro sem limites.

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