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Projeto Ler do Edulog mostra impacto da habilitação dos pais na leitura

Pais ajudam filho a ler livro à mesa, com livros e cadernos ao redor, numa cozinha iluminada.

Os estudos anteriores já apontavam para esta relação, mas surge mais uma evidência a reforçar que a habilitação dos pais é decisiva para explicar diferenças de desempenho entre alunos - e que essas desigualdades aparecem logo nos primeiros anos de escolaridade. O Projeto Ler, desenvolvido pelo Edulog, think tank da Fundação Belmiro de Azevedo, em parceria com o Departamento de Psicologia da Universidade de Évora, mediu competências de leitura nas etapas iniciais e concluiu que, mais do que o tipo de escola frequentada, o facto de pelo menos um dos progenitores ter habilitação superior ajuda a compreender a variação observada entre crianças.

Segundo os autores, os resultados apresentados esta segunda-feira na conferência anual do Edulog “evidenciam progressões consistentes no desenvolvimento das competências de leitura e escrita ao longo do tempo, mas desigualdades fortemente associadas ao contexto familiar, diferenças muito reduzidas entre escolas públicas e privadas quando se considera esse contexto, e elevada validade externa dos testes utilizados na avaliação das crianças e alunos”. O estudo foi coordenado por Isabel Leite, presidente do Conselho Consultivo da EDULOG.

Projeto Ler: amostra e avaliação das competências

Para concretizar o Projeto Ler, foi reunida uma amostra nacional, representativa de escolas públicas e privadas do continente. Numa primeira leitura dos dados, os investigadores identificaram diferenças relevantes na literacia da leitura entre alunos no final do pré-escolar e no 1.º e 2.º anos, associadas tanto ao estatuto do estabelecimento de ensino como às habilitações parentais.

Os números mostram também que a composição social das escolas pesa nesta comparação: 88% dos alunos de escolas privadas tinham pelo menos um pai com diploma de ensino superior, enquanto nas escolas públicas isso acontecia com 46%.

Habilitações dos pais e diferenças entre escolas

Quando as diferenças de qualificação entre pais são, por assim dizer, ‘anuladas’, as discrepâncias entre público e privado quase desaparecem e deixam de ser estatisticamente significativas. Ou seja, grande parte da diferença de resultados atribuída ao tipo de escola resulta, na verdade, das diferenças nas habilitações dos pais - e não do estabelecimento em si.

Leitura em queda

O Projeto Ler envolveu mais de 6500 alunos e decorreu num momento em que se observa deterioração dos resultados portugueses em provas internacionais. Os dados desses testes apontam para uma subida consistente e significativa da literacia de leitura entre 2000 e 2015, seguida de uma queda acentuada e por uma percentagem elevada de alunos que não ultrapassa níveis básicos de proficiência.

Isso foi visível no PIRLS (Estudo Internacional de Progresso em Literacia de Leitura) 2021: uma em cada quatro crianças do 4.º ano apresentou dificuldades e 6% não atingie o nível mínimo de desempenho. Também se verificou no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) 2022, em que 23% dos jovens de 15 anos não atingiu um nível básico de literacia em leitura.

Nos testes aplicados no âmbito deste projeto, observou-se que, no final do 1.º ano, metade das crianças lê abaixo das 37 palavras por minutos; e, no grupo dos 25% com pior desempenho, não se consegue ir além de 21 palavras por minuto.

Estes valores ficam muito aquém das metas definidas pelo Ministério da Educação para este ano de escolaridade no domínio da leitura e escrita. No documento das metas curriculares, lê-se que, no final do 1.º ano, o objetivo é “ler um texto com articulação e entoação razoavelmente corretas e uma velocidade de leitura de, no mínimo, 55 palavras por minuto.”

Na escrita, os resultados também revelam uma assimetria marcada. No final do 1.º ano, um quarto dos alunos não consegue escrever corretamente mais de 12 das 37 palavras ditadas, enquanto outro quarto supera as 27 palavras corretas.

Já nos primeiros testes de diagnóstico de fluência leitora realizados em junho do ano passado pelo Ministério da Educação, os 93 mil alunos avaliados conseguiram, em média, ler corretamente 75 palavras num minuto. Este valor situa-se dentro do intervalo de referência internacional para o final do 2.º ano (70 a 130 palavras), indicando que, no geral, as crianças não apresentam dificuldades relevantes nesta idade e conseguem ler e interpretar as palavras de um texto.

Ainda assim, o relatório do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) assinalou que 25% das crianças avaliadas obtiveram um “PLCM- Palavras Lidas Corretamente num minuto - abaixo de 51 palavras”, o que, escreve o IAVE, as coloca “em risco de dificuldades de compreensão leitora”.

Recomendações para promover leitura e escrita

Para assegurar maior progressão e equidade nas competências de leitura e de escrita, os autores defendem que, logo no pré-escolar, se recorra a jogos orais que despertem o interesse pelos sons da fala, promovam o reconhecimento de letras e a compreensão de diferentes fonemas, e que se criem mais oportunidades para as crianças lerem e escreverem.

No que diz respeito ao apoio familiar, recomendam que os pais sejam encorajados a ler com regularidade para os filhos e a incentivar conversas sobre livros e histórias. Já nos primeiros anos de escola, sugere-se que os professores acompanhem a evolução dos alunos e avancem com intervenções imediatas quando surgem sinais de dificuldades. Os autores sublinham que, quanto mais tarde se intervém, menos eficazes e mais onerosas serão as medidas adotadas.

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