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El País faz 50 anos e revisita o seu papel na democracia espanhola

Homem a analisar jornais antigos espalhados numa mesa num escritório moderno com computadores.

O dia 4 de maio de 1976 - faz 50 anos esta segunda-feira - ficou inscrito na história do jornalismo espanhol e também na memória internacional. A data assinala o aparecimento de um fenómeno sociológico, político e editorial com poucos paralelos: o nascimento do diário “El País”, que desde os primeiros números se colou a uma democracia ainda embrionária, à modernização de uma sociedade recém-saída de décadas de obscurantismo (o ditador Francisco Franco morrera menos de seis meses antes) e ao horizonte de otimismo que se abria para gerações que não se reviam na longa ditadura.

Meio século depois, o jornal - referência global e sinónimo de credibilidade e competência - transformou-se num grande grupo informativo com presença alargada. Hoje, chega a milhões de cidadãos em vários países, sobretudo no espaço de língua espanhola.

“Obrigado aos leitores” foi o título escolhido por “El País” para o editorial do dia do aniversário, encerrando a série de iniciativas com que marcou a efeméride, que juntou muitos leitores para quem o jornal tem um significado especial. No texto, lê-se: “Quando ‘El País’ saiu para as bancas, a 4 de maio de 1976, não havia qualquer certeza de que chegasse ao meio século de vida. Em Espanha, Franco acabava de morrer, e a democracia estava em gestação. Desde então, houve guerras e revoluções no mundo, crises económicas, transformações tecnológicas e avanços científicos inimagináveis. Mudaram os suportes em que se publica notícias e a via para transmiti-las. Já somos um diário global que se escreve e lê na Europa, América e muitos outros lugares. Tudo poderia ter sido diferente e, se hoje fazemos 50 anos, é, antes de mais, graças aos leitores.”

Com a edição em papel a atingir o número 17.806, “El País” consolidou-se como uma marca ajustada às exigências tecnológicas atuais. Publica sete edições digitais diárias e reúne mais de 450 mil assinantes digitais em todo o mundo. Assume o lema “O jornal global”, impresso sob o cabeçalho, e opera com redações em Madrid, Barcelona, Washington, Nova Iorque, Bogotá e Buenos Aires. No conjunto, trabalham mais de 500 pessoas, muitas delas jornalistas.

Por trás do título está o grupo Prisa (Promotora de Informações, S.A.), que tem atravessado dificuldades financeiras associadas à transformação tecnológica. Depois de decisões dolorosas para os trabalhadores, o cenário económico parece, por fim, mais desanuviado.

El País: um jornal pela democracia que nasceu em plena ditadura

À distância de 50 anos, o início de “El País” parece uma aventura profissional e empresarial rara - na qual participou, por declaração de interesses, o autor destas linhas. As origens são recordadas numa entrevista pelo primeiro diretor, Juan Luis Cebrián, que mais tarde seria administrador e presidente do grupo Prisa. “Foi por volta de 1972 e pela mão de dois jornalistas: Carlos Mendo, diretor da agencia Efe com Manuel Fraga [ministro da Informação da ditadura franquista] e redator-chefe do diário ‘ABC’, e Darío Valcárcel, que, mais do que jornalista, era secretário de Torcuato Luca de Tena [diretor daquele diário monárquico]”, conta.

Cebrián prossegue: “Tiveram a ideia de que era preciso fazer um jornal. Mendo vendeu-a a Fraga e Valcárcel a José María de Areilza. Este pô-los em contacto com Miguel Ortega Spottorno [filho mais velho do filósofo espanhol José Ortega y Gasset], que fazia parte do conselho de D. Juan de Borbón [avô do atual rei, Filipe VI], que lhes disse que se o assunto era um jornal, falassem com o seu irmão José”. E descreve o arranque do financiamento: “Envolveram-no e começaram a angariar dinheiro: 15 ou 18 milhões de pesetas [220 a 260 mil euros, câmbio adaptado ao tempo]. Criaram uma junta de fundadores, pediram autorização, mas disseram-lhes que com aquele montante não era possivel fazer um jornal. Lançaram a rede. José Ortega lembrou-se de contactar o mundo editorial. Entram todos: Salvat, Lara, Jesús Polanco, Grijalbo… e granjeiam 150 milhões [2,2 milhões de euros].”

O plano esbarrou, repetidamente, na recusa do Governo autoritário em conceder a autorização necessária. Só depois da morte de Franco, a 20 de novembro de 1975, se abriria o caminho para a concessão administrativa que tornava possível avançar e dar continuidade ao projeto.

Sem que ninguém detivesse uma maioria dominante, o grupo que alimentava a iniciativa idealizou um jornal pensado para elites com capacidade de influência, com uma ambição democrática e aberta, e com uma meta de vendas na ordem dos 60 mil exemplares. Logo na estreia, porém, as contas ficaram desatualizadas: imprimiram-se 150 mil cópias, ultrapassando até as previsões mais otimistas.

Com a Constituição e contra o golpe de 1981

A orientação do projeto editorial ficou sintetizada numa frase de José Ortega Spottorno, presidente durante 20 anos, ainda hoje afixada na sala de reuniões do jornal, em Madrid - o espaço onde se decidem conteúdos e opções estratégicas: “‘El País’ deve ser um jornal liberal, independente, socialmente solidário, nacional, europeu e atento às mutações que se operam na sociedade do Ocidente”. A partir dessa matriz, o jornal manteve-se como defensor da democracia, da monarquia parlamentar e da integração de Espanha nas instituições europeias.

A par disso, consolidou-se como referência cultural. O filósofo espanhol José Luis López Aranguren, catedrático de Ética na Universidade Complutense de Madrid, descreveu-o como “um intelectual coletivo”.

Essa vocação seria testada a 23 de fevereiro de 1981, no golpe de Estado no Congresso dos Deputados liderado pelo tenente-coronel da Guarda Civil Antonio Tejero, incentivado por altos militares reacionários do Exército, nostálgicos do franquismo. Em horas particularmente tensas, “El País” decidiu publicar uma edição a condenar a tentativa golpista, enfrentando obstáculos relevantes, ao mesmo tempo que uma coluna de tropas se encaminhava para a sede do jornal para a ocupar. Com a manchete histórica “‘El País’, com a Constituição”, a cinco colunas, o diário espelhou o sentimento maioritário do país.

Cebrián lembra que, ao longo dessa noite, falou várias vezes com o amigo e compadre Francisco Pinto Balsemão, então primeiro-ministro de Portugal, para recolher informação. O fundador do Expresso contactou o rei Juan Carlos, seu companheiro de estudos quando o monarca viveu exilado no Estoril. Dessas conversas resultou a clarificação de que o rei era alheio aos planos de recuo democrático defendidos pelos golpistas.

Sempre próximo dos socialistas espanhóis

A discussão sobre os alinhamentos ideológicos de “El País”, recorrente em meios políticos e jornalísticos, é abordada pelo escritor Javier Cercas, que publicou recentemente um livro sobre a história do jornal (“‘El País’, o jornal de a democracia” (Penguin Random House, 2026). Ao reconhecer a proximidade entre o diário e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda, do primeiro-ministro Pedro Sánchez), escreve que “ambos personificaram, cada um à sua maneira, uma modernidade laica, liberal e europeísta e um progressismo com que se identifica grande parte da população espanhola”.

Cercas acrescenta: “É por isso que, de cada vez que o PSOE chega ao poder, ‘El País’ é acusado de ser um jornal governamental. Também por isso, os governos do PSOE (mas não só) fazem tudo quanto podem por controlar ‘El País’”.

Cebrián, por sua vez, recupera um episódio: “Recordo-me de termos falado disto num almoço com Francisco Pinto Balsemão, era ele primeiro-ministro, e Felipe González [chefe do Governo espanhol entre 1982 e 1996], Balsemão recusava a ideia feita de que ‘El País’ fosse do PSOE, contrapondo que o PSOE é que era de ‘El País’”.

A dimensão ideológica também serviu de combustível aos terroristas de extrema-direita responsáveis por um dos momentos mais trágicos da história do jornal, a 30 de outubro de 1978: o atentado à bomba que matou um porteiro de 19 anos, Andrés Fraguas, e provocou ferimentos gravíssimos em dois trabalhadores, Juan Antonio Sampedro e Carlos Barranco.

A trajetória do título mais influente das últimas cinco décadas em Espanha soma marcos profissionais sucessivos: a criação da figura do Provedor do Leitor, o Estatuto da Redação, a consolidação como referência na América Latina, o Livro de Estilo e a aposta na formação com o Mestrado em Jornalismo “El País”/Universidade Autónoma de Madrid, que já preparou centenas de jornalistas de todo o mundo, com aulas dadas por profissionais no ativo.

Da WikiLeaks aos abusos sexuais na Igreja

No plano informativo, “El País” acumulou realizações como a divulgação em espanhol dos “papéis da WikiLeaks”, a criação de uma base de dados sobre abusos sexuais de menores em instituições eclesiásticas em Espanha e na América Latina, e a sensibilização continuada para a violência machista. Também se destaca a abertura das páginas do jornal a escritores e intelectuais de diferentes correntes; um símbolo dessa pluralidade pode ser o Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa, autor durante 33 anos da conhecida coluna quinzenal “Pedra de Toque”.

No número comemorativo dos 50 anos, o atual presidente da Prisa, Joseph Oughorlian, escreve: “Nestes dias de recordação e celebração, ter-nos-ão lido e ouvido contar como ‘El País’ nasceu, em 1976, para acompanhar, impulsionar e fazer crescer a democracia espanhola. E é verdade: naquela Espanha que se debruçava sobre o futuro, o diário era mais do que jornalismo. Era um guia”.

O empresário continua: “Na altura, era muito frequente perguntar-se o que tinha dito ‘El País’. Lia-se este jornal não só para saber a verdade, mas também para saber o que pensar”, e acrescenta: “Como bem diz o diretor, Jan Martínez Ahrens, a nossa missão é viralizar a verdade. A verdad face aos abusos, à violência, à discriminação e à ameaça, e também face às ingerências”.

Oughorlian remata: “Mais de 450 mil subscritores em todo o mundo dão-nos a força moral e a independência económica para nos sentirmos livres para fazer o melhor jornalismo possível”, acrescenta Oughorlian. “O jornalismo que defende com valentia o rigor, a honestidade e a democracia.”

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