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Museu Britânico, Brexit e o Reino Unido em convulsão

Jovem observa uma estátua clássica dentro de museu com protesto visível do lado de fora.

Museu Britânico: entrada livre, doações e memória imperial

O Museu Britânico conta-se entre os grandes museus do mundo e funciona como uma celebração do engenho humano. A entrada mantém-se gratuita, embora as doações sejam incentivadas. Durante muito tempo, os jornalistas entravam como qualquer visitante e, para as exposições temporárias, conseguiam bilhetes sem custo mediante apresentação do cartão de imprensa.

Há muitos anos, vi ali uma das exposições mais impressionantes e mais extensas sobre o império português no Oriente, inserida numa narrativa mais ampla do que a do próprio império português. Pelo caminho, cruzei-me com muitos portugueses que, como eu, estavam a seguir esse fio histórico.

Os mármores do Partenon e o impasse com a Grécia

Muitos visitantes entram no Museu Britânico sobretudo para ver os célebres mármores do Partenon, tema permanente de discórdia entre a Grécia e o Reino Unido. Londres não abdica dos frisos; Atenas não abdica de os ver devolvidos.

Uma recente deslocação do atual primeiro-ministro grego ao país acabou por correr mal precisamente por causa desta disputa. Do lado grego, a preferência seria uma solução diplomática com empréstimos mútuos. A Grécia, aliás, ergueu em Atenas, junto à Acrópole, um novo museu, alimentando a esperança de que as conversações avançassem - mas o processo estagnou de forma desagradável, com acusações lançadas de ambos os lados.

‘Brexit’, declínio e o azedume nas relações europeias

Desde o ‘Brexit’ - e mesmo antes dele - o relacionamento entre os países europeus, a União Europeia e o Reino Unido tem sido turbulento, temperado por um certo tom de sobranceria inglesa que contraria o pragmatismo outrora associado à política externa britânica. O ‘Brexit’ não fez senão agravar ressentimentos e recriminações.

O declínio económico e social do Reino Unido, que fechou o seu império sem nunca se libertar da melancolia pós-imperial nem da mania das grandezas, trouxe à tona rancores e expiações que azedaram o espírito coletivo e a atitude pública. Agora mais isolados, muitos ingleses recusam reconhecer que o ‘Brexit’ foi um suicídio coletivo.

Humilhados e postos de lado pela América e por Trump, e sem parceiros comerciais capazes de substituir o mercado europeu, os britânicos responderam com fúria. Há quem continue a atribuir a Bruxelas culpas que nada têm que ver com Bruxelas e que, na verdade, resultam de dores autoinfligidas.

Nesse caldo, uma xenofobia militante, carregada de ódio e amargura, tornou-se quase moeda corrente - em especial no norte empobrecido do país. E a hostilidade não se dirige apenas, nem de forma branda, aos requerentes de asilo, que correspondem, na prática, à esmagadora maioria dos imigrantes ilegais que continuam a desembarcar na costa inglesa: os “pequenos barcos”. Afeganistão, Irão, Eritreia, Bangladesh e Paquistão fornecem a maior parte destas pessoas, que passam anos em alojamentos pagos pelo Estado britânico, com cama e comida, muitas vezes em antigos hotéis.

Motins, Southport e a fratura de um Reino Unido “desunido”

No norte, um hotel de cinco estrelas como o Royal, na cidade pós-industrial de Hull, chegou a acolher estes descamisados. Em 2024, ali se gerou um motim na sequência do ataque de Southport, no qual três crianças foram esfaqueadas e mortas por Axel Rudakubana; uma delas, Alice da Silva Aguiar, era descendente de portugueses. O terrorista levava consigo óleo de rícino para um outro ataque e um manual da Al-Qaeda.

Depois de Rudakubana ser condenado a 52 anos de prisão, os liberais e virtuosos do costume concluíram que não fora Rudakubana a falhar na humanidade, ao revelar predisposição para a violência; teriam sido o Estado e os seus sistemas sociais a falhar.

As tensões deste episódio refletem-se hoje num Reino Unido que tem tudo menos unidade. De um lado, está a ferocidade anti-imigração do Reform de Nigel Farage. Do outro, surge uma arrogância com tinta de wokeness e de esquerdismo ultramontano, herança do corbynismo, agora personificada por Zack Polanski, dos Greens.

Nas circunscrições com forte presença de imigrantes ou de descendentes de imigrantes já com cidadania britânica - na sua maioria muçulmanos - Polanski parte com vantagem evidente. Apesar de ser um judeu envergonhado que mudou de nome (chamava-se David Paulsen), Polanski exibe um antissemitismo militante, usando Gaza como pretexto e estandarte.

Uma parte relevante do ressentimento dos eleitores mais jovens do partido, incluindo muitos muçulmanos, não nasce da geopolítica: nasce da luta de classes, que nem sequer é mencionada.

Já nas circunscrições que se agarram à englishness contra a imigração descontrolada, que odeiam Bruxelas e a UE, que exigem deportações em massa e o fim de subsídios ao que chamam falsos requerentes de asilo sustentados pelos impostos britânicos - e que, em geral, recusam encarar os danos económicos do ‘Brexit’ -, o Reform e Farage dominam. Nem precisam de programa económico: basta-lhes a postura contra a imigração e contra a Europa.

Também não ajuda o facto de a habitação social no Reino Unido ser atribuída por um sistema de pontos onde a nacionalidade não entra na equação, contando apenas a necessidade. Resultado: muitas casas foram entregues a imigrantes em vez de ingleses, galeses, escoceses ou norte-irlandeses. A revolta atravessa todos os reinos.

Eleições de 7 de maio: Starmer, Farage e a política como ódio

As eleições de 7 de maio vão decidir o destino de Starmer e dos trabalhistas, que terão perdas. Confirmou-se o que se temia: uma polarização extrema entre duas forças que se detestam, que alimentam o ódio, e que fazem do confronto “nacionalistas versus imigrantes” o principal eixo político.

Os partidos tradicionais - também eles incapazes de olhar de frente para o declínio - estão arrumados e, muito provavelmente, fora do futuro. Tories e Labour vegetam numa incompreensão do que lhes aconteceu, embora não seja difícil admitir que as fragilidades de Starmer não se comparam aos 15 anos desastrosos de Governo conservador, à corrupção dos anos covid e à gestão do declínio pós-’Brexit’.

O ‘Brexit’ foi conduzido de forma selvagem, sem salvaguardas para uma saída ordenada da Europa, e Nigel Farage foi, ao lado de Boris Johnson, o seu mentor.

Que o país volte a gravitar em torno do político que ajudou a desenhar a decadência e o isolamento - e que Starmer nunca teve coragem de enfrentar - diz tudo. O sentimento anti-imigração engloba também os europeus, que Farage tem ameaçado com várias represálias. A ameaça inclui quem já tem residência e trabalho no Reino Unido, com a promessa de lhes negar acesso ao NHS, o Serviço Nacional de Saúde.

No campo oposto, a pulsão pró-islâmica de Polanski, a política de “porta aberta” e a anunciada destruição dos serviços financeiros e da City - a única grande fonte de rendimento e de cobrança fiscal num Reino Unido desindustrializado e sem agricultura, dependente dos Estados Unidos para a defesa e dependente da Europa e do resto do mundo para a alimentação - só trará mais destituição e ressentimento. E ainda um êxodo de capital.

Percebe-se, assim, porque a sorte do Reino Unido não pode ser ignorada na Europa e deve ser acompanhada com atenção. Tal como lá, também cá, os sistemas centrista e liberal preparam-se para atravessar o deserto - ou para a extinção. Um admirável mundo novo de raiva e rancor passará a dominar a política e a geopolítica.

Museu Britânico, bilhetes para estrangeiros e a lógica das “punições”

Starmer tem tentado baixar a febre xenófoba com medidas vagamente repressivas e até com traços xenófobos. E, enquanto negocia com a Europa não se sabe muito bem o quê, admite que, daqui em diante, o Museu Britânico - voltamos ao ponto de partida - deverá começar a cobrar bilhetes a todos os estrangeiros, incluindo europeus.

Há, porém, um obstáculo prático. No Reino Unido não existe cartão do cidadão, e a forma de os britânicos entrarem de borla seria exibirem o passaporte. Acontece que muitos não o têm. Para os estrangeiros, o critério seria a identificação da origem. Os gregos passariam, então, a pagar para ver os mármores gregos.

A controvérsia não ficou resolvida - com Starmer, nunca fica -, mas vitórias de Farage trarão seguramente mais “punições”.

Em Londres, pedi um bilhete para visitar duas exposições no Britânico. Identifiquei-me de forma clara no e-mail. Do museu, responderam a perguntar o que eu tencionava escrever sobre o Museu e as exposições, em que tom e com que cobertura específica. Exigiam uma sinopse e detalhes do texto.

Respondi que aquilo me soava a censura preventiva e que, por isso, tinha decidido comprar o bilhete. Era mais simples.

Pouco depois, chegou outro e-mail, carregado de hostilidade. A pessoa com quem eu comunicara tinha-me “reportado” a uma funcionária superior. O tom era tão agressivo que me surpreendeu; no entanto, foi a escalada de queixas hierárquicas que verdadeiramente me alarmou. Ficava cancelada.

Esta cultura de policiamento e de reprovação de atitudes, descendente do wokismo, continua a existir em certas instituições britânicas ligadas às artes. E ao Estado. Queixa-se de tudo. Vigia-se o modo, controla-se o gesto.

O caso Peter Higgs e o escândalo das peças desaparecidas

Num Museu onde rebentou o escândalo de o curador e diretor da Antiguidade Clássica grega e romana - um probo inglês, o Dr. Peter Higgs - ter sido acusado de roubar peças e pedras semipreciosas gregas para as vender no eBay, com cerca de 2000 peças a desaparecerem, esta ânsia de poupança nos bilhetes soa a frescura.

O Dr. Higgs, desmascarado por outro especialista em Antiguidade, o Dr. Ittai Gradel, foi despedido. Continua a negar os roubos. E nunca foi oficialmente acusado.

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