Se fôssemos guiados apenas pelos modelos teóricos que construímos para explicar como nascem os sistemas planetários, LHS 1903 não poderia estar organizado desta forma. Será isto suficiente para pôr em causa um princípio que julgávamos universal?
À medida que aprofundamos o conhecimento do Universo, torna-se cada vez mais evidente que as nossas “regras” são, muitas vezes, aproximações - Copérnico e Newton, se ainda cá estivessem, lembrá-lo-iam sem hesitar. O nosso enquadramento conceptual é limitado (e limitador); por isso, as grandes teorias são continuamente reavaliadas, e os últimos anos foram férteis em surpresas. A cronologia da Grande Explosão, o halo de raios gama detectado pelo Fermi e a sua possível ligação à matéria escura, o regresso da hipótese do Grande Colapso, o DESI com as suas observações sobre a energia escura, ou o James Webb, que continua a “desenterrar” anomalias várias vezes por ano.
São apenas alguns exemplos de uma lista que não pára de crescer - e que ganhou agora mais um caso com a recente identificação de LHS 1903, um sistema que entra em choque com o modelo padrão da cosmologia. Usamos esse modelo porque é através dele que organizamos aquilo que acreditamos ser verdade… até surgir a próxima evidência em sentido contrário. Ele diz-nos, por exemplo, que os planetas telúricos, densos e rochosos, tendem a formar-se perto da estrela, onde o calor é intenso. Mais longe, onde as temperaturas são baixas, as gigantes gasosas ocupam as regiões exteriores, afastadas da zona de radiação mais forte: é o padrão e é o que observamos por toda a Via Láctea.
Só que LHS 1903 não segue esse padrão. A 116 anos-luz da Terra, na constelação do Lince, este sistema alberga uma gigante gasosa “encostada” ao calor, demasiado próxima da sua estrela. Um sistema “de pernas para o ar” que mereceu um estudo publicado a 12 de Fevereiro de 2026 na revista Science, por ser o primeiro em que se observa tamanha desobediência às leis da termodinâmica espacial.
LHS 1903: uma organização teoricamente impossível
Também identificado pelo código TOI-1730, LHS 1903 é uma estrela anã do tipo M - a classe mais comum, que representa 75% das estrelas da nossa galáxia. É muito densa e, em comparação com o Sol, bastante mais pequena, mais fria e menos luminosa. Por extensão, o nome LHS 1903 designa igualmente o sistema completo, que inclui mais quatro planetas: o primeiro, mais próximo, é rochoso; os dois seguintes são gigantes gasosas ao estilo de Júpiter ou Saturno. Até aqui, nada de inesperado: esta disposição é muito comum e aparece repetidamente em todo o Universo.
A diferença revelou-se quando o satélite CHEOPS, da ESA (Satélite de Caracterização de Exoplanetas), apontou os seus instrumentos para o quarto planeta, situado mais longe. Por estar além das duas gigantes gasosas, a expectativa seria encontrar um enorme mundo gasoso e gelado, como Neptuno ou Úrano. Contudo, os dados do CHEOPS não deixam margem para dúvidas: trata-se de um pequeno planeta rochoso, extremamente denso, que manteve uma certa retenção de calor, mais parecido com Vénus.
Assim, a sequência que observamos é a seguinte: um rochoso, um gasoso, um segundo gasoso e… novamente um rochoso. Isto expõe de forma clara como a nossa grelha de leitura pode ser estreita, já que o previsto seria uma fila de planetas telúricos seguida, sem excepção, por mundos gasosos. É por isso que LHS 1903 pode ser descrito como um sistema “invertido”: a ordem dos planetas é o oposto da nossa e da maioria dos sistemas que conhecemos.
Como se terá formado o sistema LHS 1903?
Como pode uma pequena esfera de rocha desafiar as leis da física numa região onde, em princípio, só deveriam dominar as gigantes gasosas? No cenário convencional de formação, o gradiente térmico da estrela empurra os gases leves para o exterior. Junto ao “forno”, sobrevivem sobretudo silicatos e metais, demasiado densos para serem varridos. Mas ao ultrapassar a “linha do gelo”, o quadro muda por completo: esta fronteira termodinâmica assinala o limiar de condensação e, a partir daí, compostos voláteis como a água ou o metano solidificam.
Quando congelam, esses gases aumentam a quantidade de matéria sólida disponível no disco protoplanetário; os núcleos em crescimento atingem então massa suficiente para, por gravidade, acumularem enormes volumes de hidrogénio e hélio. É deste processo que nasce uma gigante gasosa, seja qual for a sua natureza.
Por isso, encontrar um planeta telúrico, sem uma grande envolvente atmosférica, a orbitar depois de dois colossos gasosos é algo completamente fora do esperado. É como se colocasse uma chávena de café a ferver no congelador durante uma noite e na manhã seguinte a encontrasse à mesma temperatura.
Para explicar a existência desta quarta planeta “rebelde”, os astrónomos consideraram várias hipóteses. Uma delas: apesar de hoje ser rochosa, poderá ter sido no passado uma gigante gasosa cuja espessa camada de hidrogénio teria sido arrancada por uma colisão catastrófica.
Outra possibilidade seria a de uma migração orbital - um rearranjo planetário à escala do sistema que a teria empurrado para fora, longe do seu local de formação.
O problema é que estes cenários não encaixam bem nos dados: se esta planeta tivesse passado por eventos tão violentos, a sua órbita mostraria marcas disso, como excentricidade elevada ou inclinação. Mas não é o que se observa; a sua trajectória é perfeitamente circular, como se nunca tivesse sido perturbada.
A terceira via proposta pelos investigadores aponta para uma formação “de dentro para fora”, isto é, um crescimento sequencial do interior para o exterior. Ao contrário da maioria dos sistemas, em que os corpos planetários surgem quase ao mesmo tempo, em LHS 1903 os planetas ter-se-iam agregado um após outro, num processo de transferência de massa. Cada planeta em formação teria atraído para si os materiais do disco protoplanetário (o disco que rodeia a estrela do sistema e funciona como berço dos planetas) localizados na sua órbita, alterando a composição química da zona seguinte antes de aparecer o embrião planetário seguinte.
Desta forma, os três primeiros planetas, formados mais perto da estrela, teriam capturado todo o gás disponível (hidrogénio e hélio) no disco. Quando começou a acreção da quarta planeta, o ambiente já estava esvaziado dos componentes leves. Ela só poderia formar-se a partir dos restos sólidos que persistiam, como silicatos e metais presentes na sua órbita. Se esta hipótese se confirmar, LHS 1903 tornar-se-á uma prova clara de que a cronologia da acreção planetária pode sobrepor-se às leis da termodinâmica: a natureza de um astro dependeria não apenas da temperatura, mas também de que materiais estavam disponíveis no momento do seu nascimento. É um cenário que as simulações numéricas nunca tinham antecipado, pois sempre colocaram a variável espacial acima da variável *temporal* - um erro de avaliação que, a partir de agora, terá de ser corrigido.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário