Por trás deste fenómeno há, na verdade, um mecanismo bastante lógico.
Muitos tutores já assistiram a esta cena: o gato doméstico fica agachado sobre o tapete, faz ruídos de engasgo e, pouco depois, aparece no chão um “rolo compacto” estranho, feito de pêlo e muco. Não é uma visão agradável, mas, na maioria das vezes, indica apenas que o sistema digestivo está a trabalhar no limite - sobretudo na primavera, quando começa a grande época da muda do pêlo.
Porque é que os gatos, na primavera, começam a regurgitar mais bolas de pêlo
Quando os dias ganham mais luz e as temperaturas sobem, o corpo do gato adapta-se. O pêlo de inverno, mais denso, vai deixando de fazer falta e o pêlo de verão, mais leve, começa a surgir. Esta transição desencadeia uma muda intensa - e é precisamente aí que podem aparecer dificuldades no aparelho gastrointestinal.
Muda do pêlo: mais pêlos soltos acabam inevitavelmente na boca
Os gatos dedicam muitas horas por dia à higiene. Com a língua áspera, lambem todo o corpo, libertam pêlos soltos e acabam por os engolir sem se aperceberem. Durante a muda, a quantidade de pêlos ingeridos aumenta de forma acentuada. Mesmo um gato que viva sempre dentro de casa ingere, nesta fase, muito mais pêlo do que no resto do ano.
Uma parte desses pêlos segue com a comida ao longo do intestino e sai naturalmente nas fezes. No entanto, quando o volume é demasiado elevado, o trato digestivo deixa de conseguir “dar vazão”. É então que acontece o que preocupa muitos tutores: no estômago, os pêlos começam a aglomerar-se e a formar massas compactas.
O que acontece realmente no sistema digestivo
No estômago, os pêlos misturam-se com saliva, muco e restos de alimento. Aos poucos, formam-se estruturas densas a que os profissionais chamam tricobezoares - no dia a dia: bolas de pêlo. Muitas vezes têm um formato alongado, porque vão sendo moldadas pelos movimentos do estômago e do intestino.
"Quando o intestino já não consegue transportar a quantidade de pêlos para a frente, o corpo devolve-os pelo caminho inverso - pela garganta, para o exterior."
Na maior parte dos casos, o gato acaba por regurgitar estas massas, acompanhado de sons de ânsia e de alguma secreção gástrica. A situação pode parecer mais grave do que é em muitos casos. Ainda assim, convém que o tutor observe com atenção com que frequência acontece e como o gato se sente durante o episódio.
Sinais de que as bolas de pêlo começam a ser um risco para os gatos
Deitar cá para fora uma bola de pêlo de vez em quando é algo relativamente comum em muitos gatos - especialmente na primavera. O problema surge quando a frequência aumenta ou quando o comportamento do animal muda de forma evidente.
Sinais de alarme que devem ser levados a sério
- O gato tem ânsias com mais frequência, mas não sai nada.
- Fica mais cansado, esconde-se mais ou permanece apático.
- Come menos ou recusa completamente a comida.
- Deixa de defecar, as fezes ficam muito duras ou aparecem com muito menos regularidade.
- Surgem episódios repetidos de vómito, mesmo sem bolas de pêlo visíveis.
Se estes sinais durarem mais de um dia, se se intensificarem ou se o estado geral piorar, o gato deve ser avaliado por um veterinário. Em situações raras, as bolas de pêlo podem causar obstrução intestinal. Nesses casos, há risco de dor intensa, perda de líquidos e uma emergência real.
Porque alguns gatos sofrem mais do que outros
Um pêlo longo e muito denso aumenta a probabilidade de o gato engolir grandes quantidades. Animais muito meticulosos, que se lambem excessivamente, também tendem a formar mais bolas de pêlo. Além disso, gatos mais velhos ou com pouca atividade física costumam ter um trânsito intestinal mais lento, o que agrava a sobrecarga. Doenças pré-existentes ou excesso de peso também podem intensificar o problema.
Escovar para reduzir bolas de pêlo nos gatos: como a higiene do pêlo ajuda de verdade
A medida mais simples - e frequentemente a mais eficaz - acontece fora do corpo: escovagem regular. Todo o pêlo que fica na escova é pêlo que não chega ao estômago nem ao intestino.
Com que frequência se deve escovar
Durante a muda, escovar “de vez em quando” costuma ser insuficiente. Muitos veterinários recomendam, nesta fase, um plano mais consistente:
- pelo menos três sessões de escovagem por semana
- em gatos de pêlo comprido, idealmente alguns minutos todos os dias
- é preferível fazer várias sessões curtas do que uma sessão longa e stressante
Mesmo os gatos de pêlo curto beneficiam desta rotina. Eles também largam muito pêlo - só que os tufos costumam ser menos visíveis.
Que escovas e técnicas fazem mais sentido
Escovas específicas para gatos tendem a ser bem mais suaves do que pentes rígidos destinados a humanos. Boas opções incluem:
- escovas macias com dentes flexíveis
- escovas de borracha ou luvas com picos
- escovas finas para subpêlo em raças de pêlo comprido (usar com moderação)
A escovagem deve ser feita sempre no sentido de crescimento do pêlo. Muitos gatos aceitam melhor se o tutor começar com movimentos calmos, limitar a duração a poucos minutos e terminar com um petisco ou mimos. Assim, o que seria uma obrigação pode transformar-se num pequeno ritual de bem-estar.
Benefícios extra da escovagem
Escovar com regularidade não serve apenas para diminuir bolas de pêlo. Também:
- estimula a circulação sanguínea na pele
- ajuda a soltar escamas e deixa o pêlo mais brilhante
- facilita detetar cedo pequenos nós ou carraças
- reforça a ligação entre o tutor e o animal
"Quem integra a escova na rotina do dia a dia está, ao mesmo tempo, a investir em saúde, limpeza e ligação ao animal."
Como a alimentação pode ajudar o intestino a eliminar pêlos
Evitar por completo que o gato engula pêlos é impossível. No entanto, através da alimentação, é possível dar ao sistema digestivo mais “ferramentas” para transportar esses pêlos sem grandes dramas.
Pasta e fibras como apoio ao intestino
Muitos gatos respondem bem a uma pasta de malte específica. Funciona como um lubrificante no intestino e facilita que os pêlos sigam com as fezes. Como complemento, as fibras ajudam a aumentar o volume fecal e a estimular o trânsito intestinal.
Uma fibra muito usada é o pó de cascas de psílio (Psyllium). Absorve água, expande-se no intestino e contribui para empurrar melhor o bolo alimentar - juntamente com os pêlos - ao longo do trato digestivo. Atenção: a dose deve ser pequena e ajustada, caso contrário podem surgir diarreia ou gases.
Como introduzir fibras no alimento do gato de forma segura
- Misturar uma pequena ponta de faca de cascas de psílio no alimento húmido.
- Optar por rações assinaladas como “redução de bolas de pêlo” ou “ricas em fibras”.
- Oferecer pasta de malte duas a três vezes por semana, por exemplo colocando-a na pata para o gato a lamber.
Se houver dúvidas sobre a quantidade adequada para um determinado gato, é sensato falar com uma clínica veterinária - sobretudo no caso de animais idosos ou com problemas de saúde.
O momento certo: quando os tutores devem agir
A muda do pêlo não começa de um dia para o outro. Habitualmente, dá sinais ao longo de março, à medida que a luminosidade aumenta. É precisamente nessa altura que compensa iniciar cedo a rotina de escovagem e, se necessário, ajustar a alimentação.
Agir cedo poupa stress
Uma boa abordagem é, a partir da segunda metade de março, aumentar gradualmente a frequência de escovagem e introduzir devagar a pasta de malte ou as fibras. Assim, o intestino adapta-se sem ficar sobrecarregado. Quem só reage quando já aparecem bolas de pêlo no tapete, muitas vezes está apenas a correr atrás do problema.
Em gatos muito sensíveis ou de pêlo comprido, pode valer a pena manter, durante todo o ano, uma versão mais leve da rotina - por exemplo, escovar semanalmente e dar pasta de malte ocasionalmente. Dessa forma, a transição para o pico da muda torna-se muito mais suave.
O que muitos tutores desvalorizam: comportamento e ambiente também contam
Stress, tédio e falta de estímulos podem levar alguns gatos a lamberem-se em excesso. E, claro, quanto mais se lambem, mais pêlo engolem. Se o tutor observa o gato a limpar-se continuamente apesar de o pêlo já parecer limpo, vale a pena prestar atenção.
Variedade no quotidiano, locais de refúgio, arranhadores e momentos de brincadeira com pessoas ajudam muitos animais a regular melhor o comportamento. Assim, a higiene volta a ser “normal” e há menos necessidade de aliviar tensão através da lambidela - o que, de forma indireta, também reduz o risco de bolas de pêlo.
O que significa, afinal, o termo “tricobezoar”
O termo técnico pode soar estranho, mas refere-se simplesmente a uma massa compacta de material não digerido no trato gastrointestinal. Nos gatos, um tricobezoar é composto sobretudo por pêlos, embora possa incluir restos de comida ou fibras. Na maioria das situações, sai do corpo pelas fezes ou é regurgitado. O problema aparece apenas quando a massa cresce demasiado ou fica presa num ponto desfavorável.
Quem reconhece os sinais típicos, começa cedo com a escova e ajusta a alimentação, e não adia a ida ao veterinário perante alterações, poupa ao gato muito stress - e evita a si próprio algumas surpresas desagradáveis em tapetes, sofás ou colchas.
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