Cândido Mota, uma das vozes mais reconhecíveis da rádio - e também presença habitual na televisão - morreu esta madrugada, aos 82 anos. Encontrava-se internado há mais de duas semanas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Segundo fonte familiar, o velório decorre na segunda-feira, a partir das 16h00, na casa mortuária da Igreja São João de Deus. A cremação realiza-se no dia seguinte, em Lisboa.
Locutor, apresentador de televisão e ator, Cândido Mota deixou um percurso invulgar, intimamente associado ao caminho da rádio moderna em Portugal.
Cândido Mota e a rádio: uma carreira ligada à intimidade da antena
Nascido a 28 de setembro de 1943, em Espinho, viria a afirmar-se como uma das vozes mais marcantes da história da rádio portuguesa, distinguindo-se pelo timbre grave e por uma presença discreta, mas determinante, no panorama da comunicação em Portugal.
Começou na rádio aos 17 anos, no Rádio Clube Português, e rapidamente se impôs como um locutor de talento singular. Esse reconhecimento consolidou-se mais tarde na Rádio Comercial, com programas como “Em Órbita”, “Dançatlântico” e, sobretudo, “O Passageiro da Noite”, que viria a ser considerado um marco da rádio portuguesa, sublinha a Lusa.
“O Passageiro da Noite” e a interação com os ouvintes
No programa noturno “Passageiro da Noite”, um dos formatos pioneiros na interação direta, Cândido Mota abria o microfone para que os ouvintes pudessem falar sobre o que lhes apetecesse.
Emitido a partir de 1979, “O Passageiro da Noite” dava antena aos ouvintes a partir da meia-noite, tornando-se uma das primeiras experiências interativas da rádio em Portugal.
Décadas depois, Cândido Mota diria que “foi a única vez” em que não esteve bem, referindo-se ao desgaste emocional que ditou o fim do programa, assumindo a sua responsabilidade.
Enquanto figura histórica da rádio, foi convidado a dar o seu testemunho no programa da RTP “No Ar, História da Rádio em Portugal”, emitido em 2010, onde falou do seu percurso e da forma como via a rádio enquanto espaço de intimidade, de escuta e de participação cívica.
Da Rádio Comercial à televisão: voz off e colaboração com Herman José
Ao longo de décadas, tornou-se conhecido por múltiplos trabalhos em televisão, incluindo diversas vozes off, e por apresentar o programa “Em Órbita”.
Na RTP, foi a voz off emblemática de concursos apresentados por Herman José, como “A Roda da Sorte” e “Com a Verdade Me Enganas”. Mais tarde, acompanhou o humorista noutros formatos na SIC e participou pontualmente em esquetes televisivos.
A partir dos anos 1990, Cândido Mota passou também a ser um rosto e uma voz familiar para o público da televisão portuguesa, ao iniciar uma colaboração prolongada com Herman José.
Filho da fadista Maria Albertina, cresceu num ambiente marcado pela música e pela palavra. Numa entrevista no programa de Manuel Luís Goucha, em 2022, afirmou que foi a mãe quem o lançou na vida profissional.
Intervenção cívica e ligação ao PCP
Assumindo-se como alguém com forte sentido de intervenção cívica, Cândido Mota foi militante do Partido Comunista Português (PCP) e presença regular como locutor e apresentador no Palco 25 de Abril da Festa do Avante!, mantendo ao longo da vida pública uma posição política assumida.
Em comunicado, o PCP manifestou “profundo pesar pelo falecimento de Cândido Mota, militante comunista, e transmite às suas filhas, netas e restante família as suas sentidas condolências”, considerando que foi “uma das figuras mais emblemáticas da comunicação” e um “cidadão profundamente empenhado na intervenção social e cultural”.
Nos últimos anos, Cândido Mota foi-se afastando da exposição mediática e residia, atualmente, na Casa do Artista, em Lisboa.
Seguro diz que “voz inconfundível” ficará na “memória coletiva”
O Presidente da República, António José Seguro, lamentou a morte do antigo locutor de rádio e considerou que a sua voz ficará na memória coletiva dos portugueses.
Numa nota publicada na página da Presidência na internet, o chefe de Estado apresenta as “mais sentidas condolências à família, amigos e a todos os que com ele partilharam vida e caminho”.
“Ao longo da sua vida, Cândido Mota foi redescobrindo a sua profissão de locutor, apresentador e ator, reinventando caminhos para si próprio, com entusiasmo e sentido de propósito”, refere.
“A sua voz inconfundível acompanhou-nos durante muitos anos e permanecerá na nossa memória coletiva”, acrescenta.
Seguro assinala também que, em todas as etapas do seu percurso, Cândido Mota “combinou, de forma singular, uma genuína preocupação pelo outro com o humor, deixando uma marca de proximidade e humanismo em todos aqueles com quem trabalhou e conviveu, destacando-se pela forma como, no ‘Passageiro da Noite’, dava voz a quem não a tinha”.
Notícia atualizada às 17h20, com informação sobre velório
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