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Filho de Nicolás Maduro relata a noite de 3 de janeiro e a prisão nos Estados Unidos

Homem com fato de presidiário laranja sentado numa cela a ler um livro, com bola de futebol e rádio atrás.

A despedida na madrugada de 3 de janeiro, sob ataque a Caracas

Nico, estão a bombardear. Que a pátria continue a lutar, vamos para a frente”. Foi com estas palavras que Nicolás Maduro se despediu do filho, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, na madrugada de 3 de janeiro, no momento em que se iniciavam os ataques a Caracas que viriam a culminar na sua captura por autoridades norte-americanas.

Na primeira entrevista em que descreve essa noite ao jornal El País, o deputado, de 35 anos, conta o impacto do que ouviu: “Ele achou que ia morrer naquele dia”. E reforça a perceção partilhada pelos que estavam à sua volta: “Todos nós achámos que ele ia morrer naquele dia”.

O desaparecimento do presidente e um mês de silêncio

Depois da despedida, tentou durante horas falar com o pai, sem conseguir. As chamadas eram recusadas, algo que interpretou, numa fase inicial, como um sinal de que o então presidente estaria a resguardar-se. Contudo, à medida que o tempo passava sem qualquer notícia, o medo ganhou espaço.

Recorda que, já após tentar confirmar informações junto de várias figuras do regime - incluindo dirigentes próximos que também não sabiam onde estava Maduro - acabou por dizer à mulher: “Acho que mataram o meu pai”.

O primeiro contacto só aconteceria mais de um mês depois, através de uma chamada a partir de uma prisão nos Estados Unidos. Era a primeira vez que ouvia a voz do pai desde 3 de janeiro. Segundo o El País, o deputado ficou sem reação, afastou-se das câmaras e acabou por chorar “um pouco”. Desde então, as comunicações são limitadas e controladas, com 510 minutos mensais disponíveis para chamadas.

Rotina na prisão, livros, futebol e o futuro do caso

De acordo com Nicolás Maduro Guerra, o pai passou os primeiros meses em isolamento, numa cela pequena e com poucos recursos. Só mais recentemente terá começado a partilhar o quotidiano com outros reclusos. A rotina diária é ocupada, sobretudo, pela leitura da Bíblia. “Ele memorizou-a”, afirma.

O filho explica ainda uma mudança que, diz, não reconhecia no pai: “O meu pai nunca tinha sido assim, mas agora, nas chamadas, às vezes começa por aí: ‘tens de ouvir Mateus 6, 33. E Coríntios 3. E o Salmo 108”. Para além da Bíblia, Maduro terá pedido vários livros, incluindo textos de Simón Bolívar, obras de Gabriel García Márquez e escritos de Vladimir Lenine, somando já 60 títulos, segundo o filho.

Nas conversas, nem tudo se centra na política: também há espaço para temas do dia a dia, como o futebol. Depois da eliminação do FC Barcelona na Liga dos Campeões, o ex-presidente terá reagido com irritação. “Porra, isso foi uma cagada”, terá dito, segundo o relato do filho - conhecido por “Nicolasito”, para se distinguir do pai.

Sobre a captura, Nicolás Maduro Guerra reconhece que o pai foi surpreendido pela operação norte-americana. Conta ao jornal espanhol que, no seio da liderança venezuelana, o cenário mais esperado era uma invasão terrestre, e não uma ação que terminasse com a detenção do presidente. “O Presidente estava preparado para morrer em combate”, afirma, acrescentando que o pai se via a cair num bombardeamento ou “de qualquer outra forma… Estava mais do que claro que isso poderia acontecer, mas não que o levassem vivo”.

O ataque de 3 de janeiro, segundo o El País, terá feito pelo menos 83 mortos, entre civis e militares. Já após a captura, o período foi descrito como especialmente instável e marcado pelo medo no interior do regime. O filho relata episódios de pânico em Caracas e menciona a presença de drones sobre a cidade, que terão sobrevoado edifícios e pontos estratégicos, incluindo o palácio presidencial.

Quanto ao que se segue, o destino de Nicolás Maduro continua indefinido. Nos Estados Unidos, enfrenta acusações graves, entre as quais narcoterrorismo e posse de armas. Ainda assim, o filho entende que a resolução do caso dependerá mais de negociações políticas do que de decisões em tribunal. “Acreditamos que possa regressar”, sublinha.

Apesar de tudo, garante que o pai se mantém resiliente, bem e forte. “Ele está totalmente dedicado ao país e à política. E eu acho que ele estava preparado para isto. Sei que ele sente que a sua vitória é o facto de continuar vivo”, conclui.

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