Um registo fotográfico entre janeiro e novembro de 2022
Entre janeiro e novembro de 2022, nos últimos meses de vida da mãe, José Fonseca Fernandes - repórter fotográfico que colabora com o Expresso - via-a tornar-se progressivamente mais ausente, frágil e desligada. Em sentido inverso, ele aproximava-se cada vez mais: esteve mais presente, acompanhou-a e fotografou esse tempo. "A fotografia tornou-se uma forma de maior proximidade e intimidade e ajudou-me a partilhar o tempo", diz. Dessa partilha nasce "Zero: Zero, Zero" (0:00), um livro apresentado este sábado, em Lisboa, simultaneamente como tributo e como maneira de prolongar um vínculo que a fotografia ajudou a consolidar.
Do luto às 'sopas de letras'
"O livro nasce depois de um período de luto", conta o fotógrafo. Após a morte da mãe - que morreu com Covid - passou algum tempo sem conseguir regressar às imagens que tinha feito. E o reencontro com o projecto não começou, de facto, pelas fotografias: "o projeto nasce depois de rever as 'sopas de letras'", os passatempos em que se procuram palavras escondidas numa grelha de letras aparentemente aleatória, que a mãe preenchia.
No texto incluído no livro, descreve esse hábito: "Fazia-as quase sem interrupção, de manhã à noite, repetindo o mesmo gesto com uma intensidade silenciosa e meditativa". Quando voltou a folhear esses livrinhos, notou marcas que lhe chamaram a atenção: "algumas páginas continham iniciais de nomes e datas de aniversários, outras estavam completamente riscadas". A partir daí, regressou também às fotografias daquele período - um retorno emocionalmente difícil. "No início custou-me muito, sente-se que a minha mãe está muito ausente", recorda ao Expresso.
“Zero: Zero, Zero” (0:00): formato e sentido do título
É deste processo que emerge "Zero: Zero, Zero" (0:00). O livro tem formato A5, à semelhança dos livrinhos das 'sopas de letras', e o título remete para o relógio parado que a mãe tinha na mesa de cabeceira. "Evoca a suspensão do tempo, o instante em que tudo parece parar. O zero torna-se o ponto final de uma contagem regressiva invisível, não apenas do tempo cronológico, mas da própria vida", explica José Fonseca Fernandes.
O objecto-livro: cortina, costura e edição
Fisicamente, o livro surge envolvido por uma espécie de 'manga' que reproduz a cortina da janela da mãe. "Temos de abrir a cortina para entrar no mundo dela." A encadernação é cosida com linha azul e o conjunto inclui ainda uma caneta.
A edição é assinada pelo próprio José Fonseca Fernandes em conjunto com Mário Cruz, fotógrafo fundador da Narrativa, associação e espaço dedicado à valorização da fotografia. O design gráfico é de Alex Paganelli.
Tempo e memória
Para José Fernandes, a ideia central não passa pela doença nem pela morte: "O livro não é sobre doença e sobre morte, é sobre tempo e memória". Ao transformar esse período num objecto que pode voltar a abrir, encontrou também uma forma de a fazer "permanecer": "Agora ela vai estar comigo todos os dias."
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