Boa tarde!
É difícil de aceitar, mas há momentos em que a diferença entre a realidade objetiva e aquilo que conseguimos (ou queremos) reconhecer parece inacreditável. Muitas vezes, não falhamos por falta de informação: falhamos porque não nos convém ver. E isto não acontece apenas num campo político.
A cegueira moral à direita e à esquerda
À direita, há quem se recuse a encarar a amoralidade de Trump e de outros populistas do mesmo género. Entre cristãos, o mesmo fenómeno repete-se: muitos preferem ignorar a amoralidade absoluta de Trump.
Mas a esquerda também não está imune a este mecanismo de negação. Como demonstra João Miguel Tavares, a esquerda não quis perceber quem era Sócrates; e, mesmo quando ele já estava preso, continuava a haver quem insistisse na negação, incapaz de admitir que “um dos seus” pudesse ser aquilo.
E há ainda exemplos históricos conhecidos: comunistas influentes, como Eric Hobsbawn, não demonstravam culpa pelos milhões de mortos associados aos regimes comunistas; no mínimo, mantinham-se numa zona de ambiguidade quando se falava do Gulag.
O caso Pedro Sánchez e a esquerda europeia em crise
Deixemos, porém, os clássicos e foquemo-nos nos casos de hoje, como o estranho caso do Dr. Pedro Sánchez - para citar (e furtar) Maria Henrique Espada.
E “estranho” é pouco. Pessoas que respeito, como Ana Sá Lopes, conseguem apresentar Sánchez como uma espécie de Churchill precisamente num momento em que o primeiro-ministro espanhol surge rodeado por um contínuo escândalo de corrupção e nepotismo.
Sim, eu sei: neste momento, a esquerda tem falta de líderes. Starmer está a revelar-se um fracasso no poder. E a esquerda dinamarquesa é tratada como traidora pela esquerda dominante porque tem a ousadia de ser realmente de esquerda quando o tema é a imigração muçulmana - tanto na proteção sindical dos trabalhadores dinamarqueses, como na defesa de valores e costumes liberais.
Sim, eu sei: a esquerda europeia atravessa um deserto. Mas agarrar-se a Sánchez, nas circunstâncias atuais, é um suicídio intelectual e moral. Mais um.
Corrupção, nepotismo e o círculo de Sánchez
Esse suicídio começou quando setores da esquerda espanhola adotaram a seguinte lógica: preferem manter um líder de esquerda, mesmo imoral e corrupto, a permitir eleições que possam devolver a direita ao poder. Esta posição, convém sublinhar, provocou repúdio num dos fundadores da democracia espanhola à esquerda, Felipe González, que já declarou que votará em branco se Pedro Sánchez voltar a candidatar-se.
O raciocínio é básico: admitir que a direita pode beneficiar de eleições não justifica (a) branquear Sánchez e (b) evitar eleições. Se a situação fosse inversa, não faltariam acusações diárias de fascismo.
Vou pôr de lado as sucessivas alianças com partidos radicais que se opõem à ordem constitucional espanhola.
Também vou aceitar, sem me alongar, a estranheza da relação entre Zapatero e a Venezuela.
Quero apenas destacar os principais (apenas os principais) casos de corrupção que envolvem o primeiro-ministro espanhol. E estes casos mostram algo essencial: mesmo que não esteja diretamente metido em todos os escândalos, Pedro Sánchez revela-se, no mínimo, o pior avaliador de carácter de que há memória - o que o torna impróprio para governar.
Primeiro: a sua mulher, Begoña Gómez, vai ser julgada por tráfico de influência, corrupção, desvio de dinheiro público e apropriação indevida. Não se trata de uma amiga distante; é a sua mulher.
Isto seria grave, mas não devastador, se o irmão de Sánchez, David Sánchez, não estivesse também no centro de outro caso. Um dos truques fiscais de David Sánchez passa por Portugal: indicou uma morada em Elvas para pagar menos impostos. E o episódio chega a ser caricato: recebeu um “tacho” no sentido mais literal - a direção de um centro de artes em Badajoz que... não conhece e nem sabe o que é, porque não aparece lá.
Importa ainda lembrar que, no verão passado, funcionários do PSOE boicotaram a ação da justiça. Imaginem, por comparação, que no Largo do Rato ou na sede do PSD havia pessoas a destruir documentos que estavam a ser procurados pelas autoridades. Foi exatamente isto que aconteceu no PSOE.
O nível de gravidade já roça a paródia. Vejam o que uma ministra do PSOE diz quando lhe demonstram que existiram subornos: diz que não se sabe se os subornos tiveram de facto impacto na decisão. Estão a perceber? Ou seja, admite que membros do PSOE/Governo aceitaram subornos, mas defende que não se consegue provar que esses subornos influenciaram a decisão.
Para terminar, convém não apagar da memória o envolvimento de pagamentos através de prostitutas, num esquema que atinge o círculo mais próximo de Sánchez, tanto no plano político como no pessoal. Como é que ele pode sustentar que não sabia de nada?
Lamento, mas comparado com isto, os escândalos de Sócrates e os casos de Costa e Montenegro parecem insignificantes. As pessoas de esquerda que andam há mais de um ano a cavalgar a casa de Montenegro permanecem silenciosas perante esta lista de escândalos da esquerda aqui ao lado? Não veem o que se passa porque não querem ver.
Se as bravatas externas de Trump podem ser lidas como uma tentativa de encobrir o caso Epstein, a bravata externa de Sánchez - contra Trump e contra Israel - tem um interesse evidente: desviar as atenções desta podridão interna que o cerca.
Um abraço,
Henrique
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