ONU Mulheres: violência online dirigida a mulheres na vida pública na era da inteligência artificial
A Organização das Nações Unidas (ONU) está a chamar a atenção para o facto de a violência online dirigida a mulheres na vida pública se estar a tornar “cada vez mais sofisticada tecnologicamente, invasiva e prejudicial na era da inteligência artificial”.
A advertência surge num relatório divulgado esta quinta-feira pela Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Género e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), baseado num inquérito a 1588 mulheres.
Partilhas não consentidas, deepfakes e avanços sexuais por mensagem
De acordo com o estudo, 12% das mulheres ativistas, jornalistas e de outras áreas ligadas à comunicação pública afirmam já ter sido alvo de partilhas não consentidas de imagens suas, incluindo conteúdos de natureza sexual ou íntima. Além disso, 6% das 1588 inquiridas foram alvo de *deepfakes* (imagens manipuladas).
O relatório aponta ainda para assédio através de contacto direto nas plataformas: 27% das mulheres dizem ter sido visadas por avanços sexuais não consentidos via mensagens diretas.
Face a este contexto, duas em cada cinco mulheres (41%) indicam que se autocensuram nas redes sociais para reduzir o risco de abuso. Em paralelo, 19% referem que também se autocensuram no trabalho pelo mesmo motivo.
IA generativa e a “explosão” de violência baseada em imagens
A ONU Mulheres descreve uma “explosão de formas de violência online baseadas em imagens e impulsionadas pela inteligência artificial generativa”. Em particular, a agência alerta para o “fenómeno particularmente perigoso” associado a tecnologias generativas capazes de criar imagens manipuladas de pessoas, incluindo conteúdos que as “despem”.
Segundo o relatório, estas ferramentas estão “perfeitamente integradas” com as redes sociais, o que facilita a produção e a disseminação de materiais “concebidos para violentar mulheres e raparigas das formas mais extremas”.
Consequências na saúde mental e resposta das autoridades
A agência sublinha também os “impactos severos” destes fenómenos na saúde mental. Quase um quarto das participantes (24%) foi diagnosticado ou recebeu tratamento por ansiedade ou depressão associadas à violência online, enquanto 13% relatam Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD).
“A inteligência artificial está a tornar o abuso mais fácil e mais prejudicial, e isso está a alimentar a erosão de direitos arduamente conquistados num contexto marcado por retrocessos democráticos e misoginia disseminada em rede”, afirmou Kalliopi Mingerou, responsável da ONU Mulheres pelo combate à violência contra as mulheres.
No que toca a denúncias, 25% das mulheres indicaram ter reportado estes ataques à polícia e 15% avançaram com processos legais. A ONU Mulheres assinala que, desde 2020, se observa uma tendência de crescimento - sobretudo entre jornalistas e trabalhadoras dos media -, com a proporção de casos reportados a duplicar em cinco anos.
Apesar disso, a organização refere que “persistem os padrões de culpabilização das vítimas”. E, embora cerca de um quarto tenha apresentado queixa junto das forças de segurança, apenas 10% conseguiu que os agressores fossem acusados.
A ONU alerta ainda para “lacunas significativas na proteção jurídica contra a violência online”, uma vez que “menos de 40% dos países têm leis que protegem as mulheres do assédio e perseguição online”. Como consequência, duas em cada cinco mulheres e raparigas (44%, ou seja, 1,8 mil milhões de pessoas) continuam sem acesso a proteção legal perante este tipo de situações.
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