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The Onion quer transformar o Infowars de Alex Jones após Sandy Hook

Homem com nariz de palhaço vai colar desenho de rosto de palhaço com nariz vermelho numa parede de estúdio.

Sandy Hook, o controlo de armas e a máquina de conspirações de Alex Jones

Depois de assassinar a própria mãe em casa, Adam Lanza, então com 20 anos, seguiu de carro para a Sandy Hook Elementary School. Ao entrar na escola, matou a tiro 20 crianças e 6 funcionários e, no fim, suicidou-se. Era dezembro de 2012. O debate sobre o controlo de armas nos EUA já vinha de trás e o caso de Sandy Hook tornou-se mais um ponto de ruptura: continua a ser, até hoje, o segundo tiroteio escolar mais mortífero da história do país.

Menos de dois anos depois, na sequência do massacre em Isla Vista - onde morreram 7 pessoas - o jornal satírico “The Onion” voltou a resumir o assunto com um título que se repetiria, vezes sem conta, após cada novo atentado “inevitável”: “«Não há forma de evitar isto», diz a única nação onde isto acontece regularmente”. Desde então, textos com a mesma manchete têm surgido periodicamente, sempre que a rotina macabra se repete.

Criada por Alex Jones, uma figura influente da extrema-direita norte-americana, a plataforma “Infowars” tornou-se conhecida por amplificar desinformação e teorias da conspiração. Após o tiroteio em Sandy Hook, Jones esteve entre os principais responsáveis por espalhar a ideia de que, na realidade, ninguém tinha morrido e que tudo não passara de uma encenação feita por atores. O propósito, como se percebe, seria fabricar um pretexto para justificar restrições ao acesso a armas nos EUA. Em 2012, Barack Obama tinha acabado de ser reeleito para um segundo mandato.

A teoria conspirativa sobre Sandy Hook foi ganhando força até que, em 2018, vários familiares das vítimas intentaram processos por difamação contra Alex Jones. No ano seguinte, o criador do “Infowars” acabou por reconhecer que, afinal, o massacre tinha mesmo ocorrido. Já em 2022, foi considerado culpado em vários processos e condenado a pagar um total de 1,44 mil milhões de dólares às famílias das vítimas. No final desse mesmo ano, Alex Jones declarou falência - e foi aí que o “The Onion” decidiu entrar em cena.

The Onion e o leilão do Infowars: a sátira como resposta

Num leilão destinado a vender parte dos ativos de Alex Jones, para que as famílias fossem ressarcidas, o “The Onion” apresentou a proposta vencedora para adquirir o “Infowars”. Ainda assim, problemas no processo foram adiando a conclusão do negócio.

A intenção do jornal satírico passa por pegar na estrutura criada por Jones e virá-la do avesso: transformar o “Infowars” numa paródia de si próprio, usando a plataforma para ridicularizar teorias da conspiração e o discurso da extrema-direita norte-americana. Os lucros serviriam para ir pagando às famílias das vítimas de Sandy Hook. Contudo, Alex Jones tem conseguido empurrar o processo com sucessivos atrasos, e a justiça norte-americana ainda não deu luz verde à liquidação do “Infowars”. Há nova audiência marcada para 28 de maio; falta saber se será desta que o processo avança.

Entretanto, o “The Onion” anunciou que iria colocar o humorista Tim Heidecker como diretor criativo do site e já divulgou um vídeo para dar o tom do tipo de conteúdo satírico que pretende produzir. Perante uma trafulhice tão vil como a de Alex Jones, ver o “The Onion” assumir o controlo do “Infowars” é, neste momento, a única vitória moral capaz de oferecer algum alívio às famílias das vítimas.

Alex Jones continuará a espalhar desinformação e teorias da conspiração; nunca pagará o que deve e seguirá confortável, apesar dos danos causados às famílias. Ainda assim, existe uma forma de lhe tirar algum sossego antes de adormecer: usar a sua “obra” mais estimada para fazer dela uma sátira permanente. É uma vitória moral frágil - mas suficientemente cortante para que o ego dele não recupere. Aliás, já apareceu sem t-shirt enraivecido com a escolha de Heidecker para diretor criativo. A ironia máxima é esta: quando o “The Onion” ficar com o comando, as “notícias” no “Infowars” serão, de facto, todas encenadas e os vídeos feitos por atores. Mesmo assim, a única farsa continuará a ser Alex Jones.

É SÓ UMA PIADA

“A primeira vez que andei de avião foi no ano passado. Este ano comprei bilhetes para Londres. Comprei bilhete de ‘Ida’ numa companhia e queria comprar bilhete de ‘Volta’ noutra, para ficar mais barato. Estive nove minutos na página inicial da Ryanair, porque eles têm bilhetes de ‘Ida e Volta’, têm bilhetes de ‘Ida’, mas eu queria bilhetes de ‘Volta’. [...] Não lhes custava nada meter um botão que diz ‘Volta’ que vai para o mesmo sítio do ‘Ida’. De certeza que já perderam dinheiro por causa disto. A página é enorme, dava para ter: ‘Ida e Volta’, ‘Ida’, ‘Volta’, ‘Ia’, ‘Arrependi-me’, ‘Fiquei’”

Esta é uma das piadas mais fortes do humorista João Pedro Pereira, que lançou no YouTube o seu primeiro especial. “Garoto” foi gravado ao vivo no Hot Five Jazz & Blues, no Porto, e dura cerca de 30 minutos. O que mais salta à vista no comediante é o andamento acelerado, com um fluxo muito rápido de piadas; neste momento, está na estrada em sessões de teste com o colega Carlos Contente.

SUGESTÃO

Como sinal claro de que o humor se está a afirmar como fenómeno cultural, Portugal passa a ter dois festivais internacionais de comédia: o MEO Commedia a La Carte Fest'26 realiza-se entre 29 de outubro e 1 de novembro, em várias salas de Lisboa. O cabeça de cartaz é Jerry Seinfeld, numa atuação exclusiva na Europa. O humorista norte-americano é, a par de Ricky Gervais, um dos nomes internacionais mais sonantes a subir a palcos portugueses nos últimos anos. O espetáculo de stand-up do criador de “Seinfeld” acontece a 1 de novembro, na MEO Arena. Os preços dos bilhetes estão à altura do legado: custam entre 67€ e 247€.

Nesta primeira edição, organizada por César Mourão e pela sua produtora “Aquele Abraço”, o programa inclui ainda Herman José, Inês Aires Pereira e concertos de Bárbara Tinoco, Carolina Deslandes, Tatanka e Cebola Mol, entre outros.

No podcast

Nas últimas semanas, recebi no podcast a humorista Joana Marques, que está em digressão com “Em Sede Própria”. O episódio completo em vídeo está disponível aqui. Falei também com Cláudia Custódio, professora catedrática de Finanças no Imperial College, em Londres, que lançou recentemente o livro “Riso, Humor e… Matemática”. Daqui a quinze dias há mais Humor À Primeira Vista em newsletter; na próxima semana, sai um novo episódio em podcast.

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