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Bispo de Pemba diz que supostos terroristas destruíram paróquia de São Luís de Monfort em Ancuabe, Cabo Delgado

Sacerdote segurando crucifixo junto a grupo de pessoas em ruínas de igreja queimada ao pôr do sol.

Ataque em Meza e destruição da paróquia de São Luís de Monfort

O bispo de Pemba, no norte de Moçambique, declarou este sábado à agência Lusa que um grupo de alegados terroristas arrasou por completo a histórica paróquia de São Luís de Monfort e levou civis à força, na quinta-feira, no distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado.

"Depois de queimarem algumas casas, maioritariamente dos cristãos católicos e outros também cristãos não católicos, depois de vandalizarem o hospital [...], foram direto às infraestruturas que estão na paróquia de São Luís de Monfort de Minhoene e ali destruíram tudo. Queimaram a escola que está aí, queimaram a paróquia, a casa dos padres, a secretaria paroquial, a escolinha foi totalmente vandalizada", descreveu António Juliasse, a partir de Cabo Delgado.

De acordo com o bispo, a investida dos supostos rebeldes aconteceu na aldeia de Meza, no distrito de Ancuabe, cerca das 16h de quinta-feira, e os grupos permaneceram na área até às 20h do mesmo dia. Juliasse referiu ainda a profanação de locais e objetos sagrados, descrevendo uma "violência horrível" que "provoca muita dor".

"[A paróquia] está completamente destruída. Eles queimaram tudo. Foi mesmo para destruir. É uma forma bárbara de fazer as coisas", acrescentou. Na página da Diocese de Pemba na rede social Facebook foram divulgadas algumas imagens da destruição.

Raptos de civis e falhas de resposta no terreno

Segundo o responsável religioso, não há registo de feridos nem de mortos, mas foram raptadas mais de 20 pessoas. O bispo explicou que este movimento já era antecipado em Meza, na sequência de um ataque numa zona próxima, o que levou "boa parte do povo da aldeia a fugir".

"Cerca de 22 pessoas foram capturadas e foram forçadas a ajudar a destruir, e depois fizeram reunião para espalhar mensagem de ódio contra os cristãos", relatou, lamentando que não tenha existido qualquer socorro, apesar de rumores que circulavam na aldeia dois dias antes do ataque.

"Depois de eles atacarem uma zona perto daí, todos sabiam que iam para aqueles lados, mas não houve nenhuma intervenção. Fizeram toda a destruição em três, quatro horas, sem nenhum constrangimento do lado das nossas forças de segurança", acrescentou o bispo, apontando que "o povo se sente largado" e sem proteção, quando já passam quase "nove anos de guerra, nove anos de destruição e de mortes".

Contexto do conflito em Cabo Delgado e impacto nas comunidades católicas

De acordo com os dados indicados por Juliasse, desde o início do conflito armado em 2017, pelo menos 300 católicos foram mortos - maioritariamente por decapitação - e mais de 117 unidades da igreja foram destruídas.

"Basta eles entrarem numa aldeia. Sabemos que a infraestrutura da igreja não fica impune, não fica sem ser destruída [...]. Nós temos em Mocímboa da Praia tudo destruído, temos em Nangololo tudo destruído, que são as grandes e antigas igrejas históricas, estão destruídas. Agora destruíram esta igreja também histórica, esta missão histórica, e várias pequenas igrejas e capelas das comunidades cristãs", concluiu António Juliasse.

A paróquia de São Luís de Monfort, erguida em 1946, é apontada como um símbolo da presença católica na região, segundo a fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

A província de Cabo Delgado, rica em gás, tem sido alvo de ataques extremistas há oito anos, tendo o primeiro ataque sido registado em 05 de outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia.

A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) estima que Cabo Delgado tenha somado 11 eventos violentos nas duas últimas semanas, 10 dos quais com envolvimento de extremistas do Estado Islâmico, responsáveis por nove mortos, elevando para 6.527 o total de óbitos desde 2017.

De acordo com o relatório mais recente da ACLED, com dados de 6 a 19 de abril, dos 2.356 eventos violentos registados desde outubro de 2017 - quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado -, 2.184 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).

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