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Incêndios rurais em Portugal: o problema é a paisagem, não o fogo

Homem com mapa diante de campos agrícolas organizados com lagos e árvores ao fundo ao entardecer.

Um ritual que se repete todos os Verões

Em cada Verão, o país volta ao mesmo enredo: o território arde, lamenta-se o que se perdeu, somam-se hectares, mobilizam-se meios de emergência e repete-se a promessa de que «para o ano será diferente». Chega o Inverno e, ainda assim, quase nada se transforma.

O desafio dos incêndios rurais em Portugal não se resume à falta de capacidade de combate. O que pesa, sobretudo, é a vastidão de território mal pensado e mal cuidado.

A paisagem contínua transforma o fogo em desastre

O fogo sempre integrou os ecossistemas mediterrânicos. Ao longo de milhares de anos, vegetação, solos e fauna ajustaram-se a regimes de fogo de baixa a média intensidade. O ponto crítico, portanto, não é o fogo existir; é a forma como, nas últimas décadas, desenhámos a paisagem.

Fomos criando um território contínuo, uniforme e, em muitos locais, abandonado. Apagámos descontinuidades, tornámos os sistemas produtivos mais simples e concentrámos espécies muito inflamáveis em grandes manchas. Ao mesmo tempo, foram-se perdendo práticas agrícolas e silvo-pastoris que davam estrutura ao espaço rural e quebravam a continuidade do combustível.

Daí resulta um cenário previsível: biomassa seca acumulada de forma contínua e incêndios progressivamente mais agressivos. Quando este tipo de paisagem arde, não reage como um sistema ecológico habituado ao fogo; comporta-se como um armazém de combustível. As temperaturas atingem patamares destrutivos, os solos perdem matéria orgânica, a sua estrutura cede e a infiltração deixa de funcionar. Depois do incêndio, a erosão intensifica-se, a água escorre à superfície e o território fica ainda mais exposto ao próximo episódio extremo.

Apesar deste quadro, a resposta dominante continua a apostar, acima de tudo, no combate. O investimento concentra-se em meios aéreos, viaturas, equipamentos e capacidade de reacção rápida. Tudo isto é necessário, mas não chega. Sem uma mudança estrutural na paisagem, combater incêndios torna-se uma perseguição interminável ao problema.

O fogo não é a causa. É um sintoma

A origem está no modo como planeámos - ou deixámos de planear - o território rural. Onde não há gestão, acumula-se combustível. Onde o solo não retém água, a secura chega mais cedo. Onde falta actividade humana continuada, perde-se mosaico, diversidade e capacidade de auto-regulação.

Uma prevenção eficaz não começa no Verão, nem dentro dos quartéis de bombeiros. Começa no desenho da paisagem: na distribuição de usos do solo, culturas, áreas florestais, zonas produtivas e infraestruturas. Começa também na forma como se gere a água e o solo. Construir mosaicos produtivos é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir o risco de incêndio.

E não como ideia abstracta, mas como realidade material no terreno: alternar manchas florestais com áreas agrícolas activas, pastagens, pomares, hortas e infraestruturas vivas. Criar descontinuidades que sejam reais, húmidas e geridas - não faixas artificiais limpas uma vez por ano, mas sistemas que permanecem activos porque geram produção.

Planeamento regenerativo: mosaicos produtivos e água como defesa

Neste contexto, a água torna-se determinante. Paisagens que infiltram água conseguem manter a humidade do solo por mais tempo. Com menos stress, a vegetação arde menos e arde mais devagar. Solos ricos em matéria orgânica protegem as raízes e recuperam mais depressa após um incêndio. A gestão da água, portanto, não é apenas um tema agrícola; é uma ferramenta directa de defesa contra o fogo.

É precisamente nesta intersecção que actua o planeamento regenerativo. Parte do relevo, da hidrologia e do uso real do solo para voltar a desenhar paisagens funcionais: rever caminhos que hoje servem como linhas de escoamento e de propagação do fogo; recuperar linhas de água degradadas; criar retenções distribuídas que aumentem a humidade e reduzam a velocidade do escoamento; apoiar sistemas produtivos diversificados que mantêm o território ocupado. Tudo isto diminui a intensidade dos incêndios quando eles acontecem.

Convém sublinhar o essencial: os incêndios vão continuar a existir. O objectivo não é apagá-los da realidade, mas impedir que se convertam em eventos catastróficos de grande intensidade.

Quando a paisagem está bem estruturada, o fogo comporta-se de outra forma: avança mais lentamente, encontra zonas com baixa carga de combustível e perde energia. Passa a ser controlável. Deixa de ser desastre para se tornar fenómeno gerível. Persistir numa estratégia centrada apenas no combate é insistir num modelo reactivo: tratar efeitos sem intervir nas causas. E é, também, uma opção economicamente ineficiente.

Cada euro aplicado em planeamento e gestão do território poupa múltiplos euros em combate, reconstrução e perda de serviços ecológicos. Mas esta via exige coragem política. Implica abandonar a lógica de medidas avulsas e olhar para o território como um sistema. Pede articulação entre agricultura, floresta, água, ordenamento e economia local. E requer apoiar quem mantém o território vivo, em vez de apenas indemnizar depois da perda.

Enquanto continuarmos a tratar os incêndios como um problema de fogo, vamos continuar a falhar. O problema é a paisagem que deixámos acontecer - e essa paisagem não se corrige com helicópteros, mas com planeamento, gestão e presença humana continuada.

O fogo é o mensageiro. A paisagem é a mensagem. Ignorá-la é garantir que o ciclo se repete.

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