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Skoola em Campo de Ourique: Valete e a música urbana na Performance de Verão de 23 de maio

Jovens a tocar instrumentos e cantar em praça com casas coloridas ao fundo ao pôr do sol.

Skoola em Campo de Ourique: um começo que põe o corpo a mexer

"Inspira... expira... rodamos os ombros, agora o pescoço. Levantamos um braço e vamos fazer uma dança com ele, da maneira que quiserem. Agora vamos sacudir-nos como se estivéssemos cheios de pó. "Estamos prontos, vamos começar!""

É com este aquecimento que arranca uma sessão da Skoola, na Escola Básica Manuel da Maia, em Campo de Ourique - a academia de música urbana onde "aprender música não segue as regras ou modelos convencionais". Cumprido o ritual, os alunos agarram nos instrumentos e retomam exatamente no ponto em que tinham ficado na semana anterior: hoje, o objetivo é fechar uma das canções que será apresentada no concerto de 23 de maio.

Daniel instala-se na bateria e fixa a pulsação. Pouco depois, Sagle entra com o teclado; seguem-se os baixos e duas guitarras elétricas. Por fim, quase sem se notar, aparece um saxofone, a acrescentar cor sem se impor.

A banda define o rumo: acordes, batidas e escolhas em conjunto

Filipe orienta a banda, mas o processo é deliberadamente aberto: experimentam acordes e padrões rítmicos, testam possibilidades e escutam o que resulta melhor - e são eles próprios que escolhem a direção que a música vai tomar.

Enquanto o som toma conta da sala, numa divisão ao lado Kelson e Valete concentram-se na letra. Kelson, de 17 anos, decide escrever sobre a vida que deixou em Luanda, sobre as saudades de casa e, ao mesmo tempo, sobre a forma como se sentiu acolhido ao chegar a Portugal há um ano.

Num canto, duas raparigas enchem os blocos de notas a uma velocidade quase frenética. Interrompem, olham para a parede, voltam a medir a sala com o olhar, escutam a banda, marcam o tempo com o pé e recomeçam a escrever. Também elas estão a compor, mas para o coro que irá acompanhar Kelson e a banda.

Pouco menos de uma hora depois, a estrutura melódica está praticamente fechada; o grupo concorda que aquele será o caminho sonoro a seguir.

Da letra ao microfone: a voz ganha espaço

Quando terminam de escrever, Kelson e Valete voltam à sala principal e juntam-se aos restantes. Kelson pega no microfone e começa a cantar, mas tão baixo que a massa dos instrumentos quase apaga a sua voz. Valete coloca-lhe a mão no ombro e diz-lhe algo ao ouvido; Kelson acena que sim e, ao retomar, já canta com força. A canção adensa-se, ganha forma e intenção.

Valete acompanha com um aceno de cabeça e sorri para o vocalista; Kelson responde-lhe com o mesmo gesto.

Gravar e fechar o dia: mais uma música criada

O passo seguinte é registar o tema. Filipe carrega no botão vermelho e, a partir daí, cada um sabe o que tem a fazer. São 19h e os skoolers (o nome dado aos alunos da Skoola) acabam de criar mais uma música.

Kelson entrou na Skoola pouco depois de chegar a Portugal. Sempre quis cantar e fazer música, e encontrou neste projeto a oportunidade de se dedicar ao que mais gosta: "Se não fosse a Skoola, não tinha oportunidade de aprender música pelo menos desta maneira tão profissional".

Mariana Duarte Silva, diretora e fundadora da academia, descreve a Skoola como uma academia de música urbana e contemporânea, de educação não formal e sem fins lucrativos, "aberta a todos os jovens independentemente da origem e da condição financeira e mental". A Skoola acolhe jovens de "todos os contextos sociais" e assume como missão garantir a oportunidade de estudar música. Mariana sublinha que o principal desafio continua a ser o financiamento: apesar dos apoios públicos e privados, "nem toda a gente consegue ver o poder da música como ferramenta de transformação".

Valete participa como músico-facilitador, com a responsabilidade de apoiar os skoolers na escrita criativa e na construção de letras. "O Valete é um projeto social, então a Skoola é uma extensão do que eu sempre fiz musicalmente" explica.

Quem são os alunos da Skoola?

Margarida, de 24 anos, entrou no projeto por estar a frequentar a licenciatura de jazz e música moderna na Universidade Lusíada, instituição com a qual a Skoola tem um acordo. Já Sagle, de 20 anos, chegou no ano passado, depois de se sentir desapontada com o ensino do conservatório. Aqui, diz, sente que tem "o poder sobre o que compõe". "Não cortam as asas à minha criatividade", afirma Sagle.

Daniel, de 17 anos, apareceu há 3 anos por recomendação da psicóloga. Desde então, aprendeu a tocar bateria e a cantar, e garante que, sem a Skoola, "muito dificilmente conseguiria aprender música". "desde pequeno que gosto de cantar e aqui tive oportunidade de aprender mais sobre música".

Em comum, todos reconhecem que a Skoola lhes faz bem no dia a dia - seja "para limpar a cabeça" depois da universidade, seja para "escapar durante umas horas à realidade".

Quando lhes pediram uma palavra para descrever o projeto, surgiram: "partilha", "experimental", "livre" e "paraíso". Ninguém fica de fora; mais do que uma escola, dizem, é uma família. Além disso, o projeto disponibiliza um programa de bolsas para alunos sem possibilidade de pagar a mensalidade e/ou o instrumento.

Performance de Verão a 23 de maio: 5 anos de Skoola

A 23 de maio, a Skoola apresenta a "Performance de Verão" na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, às 17h00, assinalando os 5 anos do projeto. O concerto reúne o trabalho desenvolvido ao longo do ano letivo por mais de 40 skoolers e por uma equipa de 25 artistas-facilitadores, e a Metropolitana de Lisboa também sobe ao palco com os skoolers. Todas as músicas apresentadas serão originais.

Texto de Xavier Clemente, editado por Rita Costa.

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