Prejuízos das tempestades, investimento em redes elétricas, proteção civil, seguros, floresta, cibersegurança, comunicações, água, indústria farmacêutica, universidades… fundos europeus, investimento privado, PPP, concessões, medidas já anunciadas, medidas em curso e medidas que só aparecerão depois de 2030… baralhou-se tudo e foi servida uma “sopa” de 22,6 mil milhões de euros com um nome pomposo.
Uma cifra desenhada para impressionar (à escala do PRR)
O montante é vistoso - e a intenção é precisamente essa. A fasquia foi escolhida para ter a mesma dimensão do PRR, apesar de o PRR ter sido pensado para cinco anos e aqui se falar de nove. Dos 22,6 mil milhões, 7,6 mil milhões viriam - se vierem - de privados e de concessões. Outros 4,2 mil milhões seriam fundos europeus, incluindo PT2030, PRR, Fundo de Solidariedade da UE e o próximo quadro financeiro plurianual. Esses, na prática, viriam sempre.
O mesmo raciocínio aplica-se aos 2,4 mil milhões atribuídos à AICEP e à Águas de Portugal: é investimento que já estava previsto e ao qual apenas colaram uma etiqueta nova. No fim, ficam 8400 milhões a cargo do Orçamento de Estado e das câmaras.
Como foi noticiado, dois terços das grandes medidas do novo PTRR estavam previstos no Orçamento de Estado, há seis meses. No essencial, trata-se de uma reorganização política de verbas, instrumentos e compromissos que já existiam - ou que, em vários casos, dependem de terceiros.
PTRR: três pilares, 15 domínios e 96 medidas
O PTRR assenta em três pilares, cobre 15 domínios e reúne 96 medidas. É muito - demasiado. Quando o mesmo plano pretende reconstruir casas, proteger infraestruturas, reforçar redes energéticas, melhorar comunicações, rever seguros, preparar autarquias, capacitar digitalmente municípios, reforçar a proteção civil e ainda projetar o país até 2034, a questão deixa de ser “o que inclui” e passa a ser “o que ficou de fora”. Um plano que tenta ser tudo acaba por não ser nada.
Reconstruir não significa regressar ao ponto inicial: implica reorganizar, emendar falhas e edificar para resistir melhor. Foi o que defendi logo após as tempestades. A tragédia deve ser usada para qualificar o território, aproximando reconstrução e prevenção - certo. Mas uma coisa é transformar o que caiu; outra é usar o que caiu como pretexto para encaixar aquilo que já estava decidido sobre tudo e mais alguma coisa. Percebe-se o efeito: a urgência das casas danificadas, das empresas paradas, dos caminhos destruídos e das infraestruturas municipais a precisar de reparação acaba embrulhada num programa com quase uma década.
Redes elétricas, água e obras: o que já estava na agenda
A lista é longa. Nos 4 mil milhões anunciados para o reforço das redes elétricas e de gás, o próprio PTRR admite que já estava “previsto no âmbito dos Planos de Desenvolvimento e Investimento das Redes de Distribuição de Eletricidade (PDIRD-E) e de Gás (PDIRD-G)”. Ou seja: é investimento regulado da E-Redes e da REN, pago, em última instância, pelas tarifas dos consumidores. Não é financiamento novo do Estado.
Quanto às barragens estruturantes, como o Governo lhes chama, já integravam a “estratégia Água que Une”, aprovada pelo anterior executivo e retomada pelo atual. Já os 1,8 mil milhões para apoios hidroagrícolas e à reabilitação dos rios correspondem quase totalmente a investimentos da Águas de Portugal, das Comunidades de Regantes e do Fundo Ambiental, com calendários anteriores ao PTRR.
A isto somam-se vários hospitais, escolas, esquadras e Alta Velocidade ferroviária, todos assinalados no próprio PTRR como reformas “do Programa do XXV Governo que reforçam os objetivos do PTRR”. É tudo recauchutado.
A lógica dos pacotes e o problema da execução
O padrão repete-se. O Governo especializou-se em lançar pacotes, sempre com um trabalho gráfico e promocional impecável. Viu-se no Plano de Emergência e Transformação para a Saúde e no Construir Portugal. Também já se conhecem os resultados: à primeira vez ainda funciona, à segunda menos, à terceira já não pega. Só que este Governo vai no vigésimo quinto plano em dois anos. Vinte e cinco, sim: ao ritmo espantoso de um por mês desde que tomou posse.
Há, contudo, um teste que nenhum PowerPoint consegue ganhar: o da execução. E, como neste PTRR nem tudo é novo, a perspetiva não pode ser brilhante.
Depois de promessas excecionais de rapidez e simplicidade, populações e autarcas relatam apoios lentos, burocracia, candidaturas a acumular e verbas que demoram a chegar. E é o mesmo Governo que, três meses depois, não consegue fazer chegar os apoios a quem perdeu casa, nem assegurar recursos urgentes que autarquias de pequena e média dimensão não têm para recuperar.
Só em infraestururas viárias, segundo o Governo, os prejuízos atingem 1000 milhões de euros, mas os apoios - depois de as televisões saírem do terreno - ficaram na gaveta. Em todo o documento, a única dotação nominal dirigida aos municípios é o Alargamento do Fundo de Emergência Municipal, de 300 milhões de euros, mas surge no pilar Proteger e com um horizonte de médio prazo.
É positivo que o Governo reconheça que as tempestades não foram um acidente administrativo, mas um aviso político. É positivo que se pense prevenção, redes, proteção civil e resposta a catástrofes para lá da emergência do dia seguinte. O problema é que isto serviu para afundar mais um falhanço na Bimby de sempre: muitos ingredientes, muita espuma e números impressionantes. No fim, como quase sempre com este Governo, fica apenas a aparência.
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