Durante décadas, os investigadores têm perseguido aquilo a que muitos chamam o santo graal do controlo de natalidade masculino: uma opção não hormonal, reversível, de longa duração e altamente fiável - sem comprometer a saúde global do homem.
Um novo estudo de prova de conceito da Universidade de Cornell aponta um caminho promissor: suspender temporariamente a produção de espermatozoides ao atuar sobre um checkpoint crucial da meiose, o processo de divisão celular que dá origem às células sexuais.
O trabalho centrou-se em ratos, mas estabelece um princípio relevante: se a meiose for interrompida no momento certo, a produção de espermatozoides pode parar e, mais tarde, reiniciar, com recuperação da fertilidade.
“O nosso estudo mostra que, na maior parte dos casos, recuperamos a meiose normal e a função completa dos espermatozoides e, mais importante ainda, que a descendência é completamente normal”, afirmou Paula Cohen, diretora do Cornell Reproductive Sciences Center.
Os homens têm poucas opções de contraceção
Atualmente, a contraceção masculina resume-se, na prática, a preservativos ou vasectomias. Os preservativos podem ser eficazes quando usados de forma consistente e correta, mas não são uma solução de ação prolongada.
As vasectomias oferecem uma alternativa de longo prazo, mas muitos homens hesitam porque exigem cirurgia e os médicos não conseguem garantir a reversão, apesar de, por vezes, a poderem tentar.
Do lado hormonal, os investigadores têm avançado com cautela. A contraceção hormonal pode funcionar, mas alterar hormonas pode também trazer efeitos secundários, e o historial da contraceção hormonal levou muitos cientistas a evitar repetir problemas ou criar riscos adicionais.
Por isso, a equipa de Cornell seguiu outro rumo: em vez de mexer nas hormonas, intervir diretamente no “circuito” de produção de espermatozoides.
Preservar a fertilidade enquanto se interrompe a produção de espermatozoides
Os investigadores escolheram a meiose por ser um processo naturalmente cheio de checkpoints. O objetivo era travar a produção de espermatozoides sem danificar as células estaminais espermatogoniais - as células de base que tornam possível a produção de esperma ao longo da vida.
“Não queríamos afetar as células estaminais espermatogoniais, porque se as matar, um homem nunca mais voltará a ser fértil”, disse Cohen.
Também não queriam atuar demasiado tarde no processo, porque, quando os espermatozoides em desenvolvimento entram em fases posteriores, existe o risco de alguns ainda conseguirem completar o percurso e manter viabilidade.
Assim, a meiose surgiu como um compromisso: um ponto intermédio em que o organismo está a produzir espermatozoides, mas onde o sistema pode, em teoria, ser colocado em pausa sem ficar permanentemente desligado.
JQ1 e a meiose (prophase I): a molécula usada para “pausar” os espermatozoides
Para testar a ideia, a equipa recorreu ao JQ1, um inibidor de pequena molécula criado originalmente como ferramenta de investigação em estudos de cancro e de doenças inflamatórias.
Os investigadores não apresentam o JQ1 como o produto contraceptivo final. Na forma atual, tem efeitos secundários neurológicos que o tornam inadequado como medicamento para utilização no mundo real.
Ainda assim, já se sabia que interfere com uma fase específica da meiose chamada prófase I, o que o tornou útil como “caso de teste” para avaliar se esta estratégia poderia resultar.
O JQ1 atua ao eliminar células durante a prófase I e ao bloquear, em simultâneo, a expressão génica necessária para as etapas seguintes do desenvolvimento dos espermatozoides.
O que aconteceu quando a produção de esperma parou
Os investigadores administraram JQ1 a ratos machos durante três semanas. Nesse intervalo, a produção de espermatozoides foi totalmente interrompida.
Verificaram que os animais não produziam esperma e que a meiose apresentava perturbações claras ao nível molecular, incluindo alterações no comportamento dos cromossomas durante a prófase I.
Depois, suspenderam o fármaco e acompanharam o que se seguiu. Ao fim de cerca de seis semanas, regressaram a maior parte dos sinais saudáveis da prófase I e a produção de espermatozoides recomeçou.
Quando os investigadores cruzaram os animais, os machos voltaram a ser férteis. A equipa acompanhou também a geração seguinte e concluiu que as crias eram saudáveis e, mais tarde, igualmente férteis.
“Mostra que recuperamos a meiose completa, a função completa dos espermatozoides e, mais importante ainda, que a descendência é completamente normal”, afirmou Cohen.
O que isto pode significar para o controlo de natalidade masculino
Isto ainda não é um contraceptivo pronto para o consumidor. É um passo inicial que demonstra que a lógica pode funcionar: apontar a um checkpoint da meiose, suspender a produção de espermatozoides e permitir que o sistema recupere.
Cohen sugeriu que, se esta abordagem vier a tornar-se um produto real, poderá traduzir-se numa injeção de longa duração administrada de poucos em poucos meses ou possivelmente num adesivo, ajudando os utilizadores a manter consistência e fiabilidade.
O ponto central não é “o JQ1 é o novo controlo de natalidade masculino”. O estudo de Cornell reforça a ideia de que os cientistas podem atuar na própria meiose de forma segura e reversível.
Isto abre caminho ao desenvolvimento de moléculas melhores e mais seguras, capazes de cumprir a mesma função sem efeitos secundários.
Se os investigadores conseguirem atingir esse objetivo, a contraceção masculina poderá evoluir de opções temporárias (preservativos) ou semi-permanentes (vasectomia) para uma solução fiável, reversível, privada e de longa duração.
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