A maior parte da fase aguda da epidemia já ficou para trás, mas muitos impactos duradouros deste vírus continuam por compreender - e um estudo australiano vem reforçar isso.
A pandemia de SARS-CoV-2 poderá algum dia ficar totalmente controlada, ou estaremos perante um agente com o qual teremos de aprender a conviver? É uma dúvida que nem os melhores epidemiologistas do mundo conseguem resolver de forma definitiva, tal como permanece em aberto a questão da origem da persistência de efeitos após a recuperação em alguns doentes (o conhecido “COVID longo”). Cansaço extremo, alterações cognitivas ou problemas cardíacos: são sequelas hoje bem descritas, embora afectem apenas uma pequena parte das pessoas infectadas nas várias vagas.
Pela primeira vez, uma equipa do Florey Institute of Neuroscience and Mental Health (da Universidade de Melbourne) apresentou indícios de uma possível hereditariedade epigenética desencadeada pelo vírus (ou seja, transmissão biológica sem alteração do próprio ADN). O trabalho, publicado a 11 de Outubro na revista Nature Communications, mostrou que, em ratos machos infectados, o vírus modifica a forma como genes essenciais são regulados no esperma - alterações essas que, mais tarde, influenciam a formação do cérebro da descendência.
SARS-CoV-2: um efeito do vírus passado do pai para os filhos, sem mutação genética
Para realizarem a investigação, os cientistas infectaram deliberadamente ratos machos com o vírus e, em seguida, cruzaram-nos com fêmeas não infectadas. “Verificámos que a descendência apresentava mais comportamentos ansiosos do que a descendência de pais saudáveis”, explica a autora principal do estudo, Elizabeth Kleeman. De acordo com a equipa, todas as ninhadas resultantes destes cruzamentos (machos infectados/fêmeas saudáveis) evidenciaram sinais de alteração comportamental.
Os investigadores observaram sobretudo nas fêmeas jovens actividade genética anómala no hipocampo - uma estrutura cerebral fundamental em todos os mamíferos, associada à memória, à regulação emocional, à consciência espacial e também à aprendizagem.
Para Carolina Gubert, co-autora do estudo, esta desregulação genética nessa área do cérebro está necessariamente relacionada com a ansiedade identificada nas linhagens estudadas. “Isto poderá contribuir para a ansiedade aumentada que observámos nos descendentes, devido a uma transmissão epigenética e a um desenvolvimento cerebral alterado”, уточива. A infecção poderia deixar uma “marca biológica”, transmitida apenas pelo pai, capaz de afectar as gerações seguintes ainda antes do nascimento.
Vestígios do vírus identificados nas moléculas de ARN do esperma
Como o denominador comum destes efeitos era a transmissão paterna, os investigadores suspeitaram que o esperma pudesse ser o veículo da marca biológica deixada pelo vírus - e, por isso, analisaram-no. Tal como outros fluidos corporais, o esperma contém inúmeras moléculas, incluindo ARN (ácido ribonucleico), um mensageiro que transporta a informação genética presente no ADN para a produção de proteínas e para a regulação celular.
A equipa verificou que a infecção alterava a expressão de várias moléculas de ARN no esperma dos machos. E algumas dessas moléculas, ao que se sabe, controlam a actividade de genes cruciais para a construção e o desenvolvimento do cérebro. Ao interferir com esses mensageiros, o vírus poderá influenciar indirectamente a forma como o cérebro das crias se desenvolve. Estes dados sustentam o vínculo epigenético: apesar de o vírus não mudar o código genético, pode afectar a maneira como as células interpretam o ADN, criando uma espécie de “memória biológica hereditária”.
Por agora, a equipa sublinha que estas observações ainda não podem ser extrapoladas para humanos, embora essa possibilidade não deva ser excluída. Se a hipótese avançada vier a confirmar-se, os efeitos detectados poderão atingir “milhões de crianças em todo o mundo”, segundo Anthony Hannan, investigador principal do estudo. Assim, serão necessários mais trabalhos para determinar se esta marca epigenética também existe em humanos ou se se limita ao modelo murino. Nesse cenário, a COVID-19 passaria a ser o primeiro vírus conhecido a induzir uma alteração hereditária do comportamento, sem mutação genética detectável. Uma conclusão deste tipo obrigaria a integrar o factor epigenético no conceito de *transmissão*, ausente da visão clássica da hereditariedade que dominou a biologia desde a era darwiniana.
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