A agência espacial norte-americana anunciou nesta quinta-feira, 8 de janeiro, o regresso antecipado de quatro astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS), na sequência de um problema médico que afectou um dos tripulantes. Embora a NASA procure tranquilizar quanto ao estado clínico do doente, recusa revelar a identidade, invocando o respeito pela privacidade.
Trata-se de um caso sem precedentes na história da exploração espacial dos Estados Unidos. Após 25 anos de ocupação contínua da Estação Espacial Internacional, a NASA nunca tinha tido de encurtar uma missão por motivos médicos. Ainda assim, nesta quinta-feira, o administrador da agência, Jared Isaacman, tomou uma decisão histórica: os quatro elementos da Crew-11 regressarão à Terra “nos próximos dias”, ou seja, mais de um mês antes da data inicialmente prevista, a meio de Fevereiro.
A tripulação em causa é composta pelos norte-americanos Zena Cardman, comandante, e Mike Fincke, piloto veterano na sua quarta missão espacial, além do japonês Kimiya Yui, da JAXA, e do cosmonauta russo Oleg Platonov, da Roscosmos. Para Cardman e Platonov, este era o primeiro voo espacial, iniciado a 1 de Agosto, quando a cápsula Dragon Endeavour, da SpaceX, acoplou ao complexo orbital.
Os primeiros sinais de alerta surgiram na quarta-feira, 7 de janeiro, quando a NASA cancelou de forma repentina uma caminhada espacial que estava agendada para o dia seguinte. Mike Fincke e Zena Cardman iriam realizar, nessa saída de seis horas e meia, trabalhos preparatórios para a instalação de novos painéis solares. Na altura, a agência limitou-se a referir uma “preocupação médica”, sem adiantar detalhes.
Medida preventiva da NASA na ISS, não uma evacuação de emergência
Numa conferência de imprensa, o Dr. James Polk, director médico da NASA, procurou dissipar receios. Segundo explicou, o astronauta afectado encontra-se agora “estável” e não deverá precisar de qualquer tratamento específico durante a viagem de regresso. O responsável acrescentou ainda que o episódio “não está relacionado com o ambiente operacional” da estação, nem com os preparativos da caminhada espacial que acabou por ser cancelada.
Ainda assim, por mais avançados que sejam, os meios médicos disponíveis a bordo da ISS não permitem um diagnóstico totalmente completo. “Temos um conjunto médico muito robusto a bordo da Estação Espacial Internacional”, afirmou o Dr. Polk, “mas não dispomos de todo o equipamento que eu teria, por exemplo, num serviço de urgência, para fazer uma avaliação completa do doente. Neste caso concreto, o incidente médico foi suficientemente preocupante para querermos efectuar essa avaliação em terra.”
O próprio Jared Isaacman, antigo astronauta privado que voou duas vezes em missões da SpaceX, sublinhou o carácter preventivo da decisão. “Isto não é uma evacuação de emergência”, insistiu, “estamos a pecar por excesso de prudência, pelo bem-estar da nossa tripulação.” A agência garante que, no prazo de 48 horas, divulgará um calendário detalhado para a desacoplagem e o regresso à Terra, com uma amaragem prevista no oceano Pacífico, ao largo da costa da Califórnia.
Apesar disso, a saída apressada da Crew-11 cria um desafio logístico significativo. Assim que a cápsula Dragon partir, apenas o astronauta norte-americano Chris Williams permanecerá para supervisionar as operações do segmento americano da estação. Chegado no final de Novembro a bordo de uma nave Soyuz russa, este astrofísico formado no MIT e antigo bombeiro voluntário terá de assegurar sozinho a gestão das experiências científicas dos Estados Unidos, em coordenação com os cosmonautas Sergei Mikaev e Sergei Kud-Sverchkov.
Novo desafio para a NASA
A NASA está, neste momento, a analisar a possibilidade de antecipar o lançamento da Crew-12, inicialmente marcado para 15 de Fevereiro. Essa missão levará para a ISS a comandante Jessica Meir, os astronautas Jack Hathaway e Sophie Adenot, da Agência Espacial Europeia, bem como o cosmonauta Andrey Fedyaev. Uma aceleração do calendário reduziria o período em que Chris Williams ficará como o único representante norte-americano a bordo do laboratório orbital.
Este cenário inédito é o primeiro grande teste para Jared Isaacman, que assumiu a liderança da NASA em Dezembro passado. A situação é ainda mais fora do habitual porque, nos últimos anos, as estadias na ISS têm tido tendência para se prolongarem, e não para encurtarem. O caso mais marcante é, provavelmente, o de Butch Wilmore e Suni Williams, que partiram a 5 de junho de 2024 para uma missão de oito dias a bordo do Starliner, da Boeing… e só regressaram nove meses depois, a 18 de março de 2025. Problemas nos propulsores e fugas de hélio levaram a NASA a trazer a cápsula da Boeing de volta sem tripulação e a manter os dois astronautas em órbita, até existir um lugar disponível numa nave da SpaceX. No final, os dois pilotos de ensaio passaram 286 dias no espaço, ou seja, 278 dias além do previsto. Esse episódio acabou, aliás, por os transformar em celebridades contra a sua vontade.
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