Investigadores descobriram que células produtoras de dopamina cultivadas em laboratório conseguem sobreviver e manter actividade no cérebro humano após serem transplantadas para tratar a doença de Parkinson.
Este achado volta a colocar no centro um objectivo antigo: recuperar a mobilidade substituindo as células cerebrais perdidas, em vez de se limitar a controlar sintomas.
Ensaio clínico com raguneprocel no Japão
Num contexto clínico controlado no Japão, as células transplantadas mantiveram-se numa região essencial do cérebro associada directamente aos sintomas da doença de Parkinson.
Equipas de cirurgia e neurologia da Universidade de Quioto registaram que estas células implantadas permaneceram funcionais e continuaram a produzir dopamina ao longo de um período de 24-month.
Em vários doentes observaram-se melhorias quantificáveis na função motora, sobretudo quando a medicação habitual já não estava a fazer efeito.
Em conjunto, estes resultados apontam para uma viabilidade clínica inicial, embora persistam dúvidas sobre a consistência entre doentes e a robustez a longo prazo.
Porque é que o movimento se deteriora
A doença de Parkinson afecta mais de 8.5 million pessoas em todo o mundo, e as dificuldades de movimento tendem a agravar-se à medida que a química cerebral falha.
A patologia lesa células do cérebro responsáveis por produzir dopamina, um mensageiro químico crucial para coordenar o movimento de forma fluida.
À medida que essas células morrem, os sinais de movimento tornam-se mais fracos, surgindo tremores, rigidez, passos mais lentos e problemas de equilíbrio em todo o corpo.
Esta perda progressiva ajuda a compreender por que razão substituir células - e não apenas acrescentar fármacos - tem sido uma ideia tão apelativa para os investigadores.
Como são produzidas as células
O produto, conhecido como raguneprocel, começa a partir de células sanguíneas adultas doadas por um dador saudável, e não a partir de embriões.
Os cientistas reprogramam essas células, transformando-as em células estaminais pluripotentes induzidas, devolvendo-lhes um estado mais versátil.
Em laboratório, essas células flexíveis são então orientadas para se tornarem células cerebrais jovens produtoras de dopamina, concebidas para transplante.
Uma selecção cuidadosa permitiu reduzir tipos celulares indesejados, diminuindo um risco que marcava tentativas mais antigas assentes em fontes celulares misturadas.
Direccionamento de regiões do cérebro
Os cirurgiões implantaram os aglomerados celulares no putâmen, uma área profunda em ambos os lados do cérebro que participa no controlo do movimento.
Foram usadas três trajectórias para cada lado, permitindo distribuir a dose em vez de concentrar tudo num único ponto denso.
Os doentes receberam também um imunossupressor - um medicamento que reduz o risco de rejeição - porque células doadas podem desencadear um ataque do sistema imunitário.
O facto de se ter conseguido interromper essa medicação mais tarde, sem sinais visíveis de inflamação, tornou o perfil de segurança mais encorajador para os participantes, embora ainda não definitivo.
Sinais de benefício clínico
Ao fim de two years, quatro of six doentes avaliados apresentaram melhor desempenho motor durante períodos em que a medicação habitual para Parkinson já tinha perdido efeito.
Five melhoraram quando a medicação estava a actuar, sugerindo que os enxertos podem acrescentar benefício, sem necessariamente substituir os comprimidos por completo.
Exames de imagem cerebral detectaram um aumento de 44.7% na actividade de produção de dopamina no putâmen, mais evidente nos participantes que receberam doses mais elevadas após o transplante.
Outras medidas do quotidiano sofreram alterações mais discretas, pelo que o sinal mais claro surgiu nos exames de movimento e nos indicadores de química cerebral.
Persistem preocupações de segurança
A segurança teve um peso particular, porque células transplantadas podem crescer, disseminar-se ou provocar lesões no interior de um cérebro vivo após a cirurgia.
Os médicos não relataram acontecimentos adversos graves, e os exames não mostraram crescimento semelhante a tumores durante o acompanhamento de 24-month.
Six of seven doentes desenvolveram mais discinesia (movimentos involuntários que podem acompanhar tratamentos dopaminérgicos), principalmente quando a medicação estava activa.
Este padrão diferiu do receio de movimentos induzidos pelo enxerto, que tendem a surgir quando a medicação não está a funcionar, durante os períodos “off”.
Regulação e supervisão
No Japão, a aprovação vigora por até seven years ao abrigo de um sistema condicional, permitindo acumular evidência enquanto os doentes têm acesso sob monitorização.
Neste percurso regulatório, que autoriza acesso precoce com vigilância, as empresas são obrigadas a recolher dados do mundo real sobre segurança e benefício.
No país, só são elegíveis pessoas com sintomas de movimento que já não são controlados de forma suficiente pela terapêutica medicamentosa padrão.
A aprovação limitada e condicional do raguneprocel foi um marco científico relevante para a comunidade ligada à doença de Parkinson.
Ela reflecte décadas de investigação em abordagens regenerativas e fornece sinais iniciais de que terapias baseadas em células poderão integrar o tratamento.
Porque falharam ensaios anteriores
Em tentativas mais antigas de substituição celular recorreu-se a tecido fetal, e alguns doentes melhoraram durante anos depois de esses enxertos sobreviverem no cérebro.
Contudo, ensaios maiores e cegos acabaram por desiludir, em parte porque os resultados variaram e surgiram efeitos secundários em certos receptores, apesar de cirurgias cuidadosas.
A disponibilidade de dadores e as questões éticas também dificultaram transformar o tecido fetal num tratamento fiável para cuidados de rotina.
As células de dador reprogramadas ofereceram uma fonte mais padronizada, mas, ainda assim, o ensaio no Japão mostrou respostas diferentes de pessoa para pessoa.
O que ainda não se sabe
Um ensaio com seven-person não permite concluir se o tratamento funciona em grupos amplos com padrões de doença distintos ou em fases mais precoces.
Como se tratou de um estudo aberto, em que todos sabiam que o tratamento estava a ser administrado, as expectativas poderão ter influenciado algumas pontuações de movimento.
Continuam a ser necessários ensaios maiores, com grupos de comparação, para separar o benefício real das células de efeitos placebo e de viés do observador.
Um seguimento mais prolongado também esclarecerá se as células transplantadas mantêm a actividade sem inflamação tardia ou crescimento tumoral ao longo de muitos anos.
Futuro da terapêutica celular
Enxertos que sobrevivem, uma aprovação cautelosa e actividade dopaminérgica mensurável fazem com que esta abordagem passe da esperança para uma prática supervisionada.
Os próximos estudos terão de demonstrar quem beneficia, quantas células devem ser implantadas e durante quanto tempo se mantêm os ganhos em ensaios controlados.
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