Muitas lendas urbanas giram em torno das pessoas ruivas; uma das mais repetidas diz que elas sentem e toleram a dor de forma diferente. A verdade é que isto não é um mito: é mesmo real.
Quem tem esta pigmentação capilar tão marcante corresponde a apenas 2 % da população mundial. Esta raridade ajuda a explicar por que razão, em certos momentos da História, foram ora rejeitados, ora respeitados. No Egipto Antigo, acreditava-se que pertenciam à família de Seth, o deus do caos e das tempestades, associando-se o ruivo à força e ao temperamento. Já na Europa Ocidental, durante a Idade Média, acontecia o oposto: a cor era muitas vezes ligada à traição ou a um pacto com o Diabo, e muitas pessoas ruivas, marginalizadas, acabaram por morrer na fogueira, vítimas do medo do desconhecido.
Ainda hoje persistem vários estereótipos: diz-se, de forma confusa, que são mais irritáveis, que têm um odor de pele particular ou até que são mais férteis. Mas, no campo da medicina, o tema que mais tem alimentado discussões entre profissionais de saúde e investigadores é sobretudo a relação com a dor: por vezes descritos como mais “sensíveis” por reagirem em excesso a uma simples picada; noutras, retratados como estranhamente resistentes às doses elevadas de anestésicos usadas no bloco operatório. Neste último ponto, não estamos perante uma lenda urbana, mas sim uma realidade genética.
O gene MC1R e a dor nas pessoas ruivas: um modulador da sensibilidade
Se as pessoas ruivas não experienciam a dor da mesma maneira que pessoas de cabelo castanho ou louro, isso deve-se a um pequeno segmento de ADN: o gene MC1R (Melanocortin-1 Receptor). Em circunstâncias habituais, este gene dá instruções às células para produzirem eumelanina (um pigmento escuro), que influencia a intensidade da pigmentação na íris e no sistema piloso. Nas pessoas ruivas, uma mutação leva à produção de feomelanina (um pigmento mais claro), o que ajuda a explicar esta pigmentação invulgar - uma *anomalia cromática* ao longo da evolução.
No entanto, como refere a UCLA Health, este gene também está presente na substância cinzenta periaquedutal, uma área do cérebro que funciona, em termos simples, como um centro de triagem da dor. Em condições normais, as hormonas (melanocortinas) ligam-se a estes receptores para ajustar a nossa sensibilidade. Já nas pessoas ruivas, a ausência de receptores funcionais, ou a alteração da sua forma, impede que este mecanismo regulador aconteça: o cérebro recebe, assim, os sinais de dor de forma mais “bruta”, sem a filtragem habitual.
Um estudo de 2022, publicado na revista Pain, mostrou que as mulheres ruivas eram mais sensíveis ao frio, porque os seus receptores nervosos interpretam essa sensação mais depressa como dor. Pelo contrário, um outro estudo mais antigo (2005), publicado no Journal of Medical Genetics, concluiu que toleravam muito melhor choques eléctricos. As pessoas ruivas não sofrem mais nem menos de forma uniforme; o que acontece é que o seu limiar de detecção da dor é simplesmente mais selectivo do que o da população em geral.
Devido à mutação do MC1R, o sistema nervoso torna-se hipersensível a certos estímulos e hipossensível a outros. Quanto à razão pela qual esta mutação se manteve ao longo da selecção natural, a explicação passa, em parte, pelas necessidades do organismo em vitamina D. Em regiões com pouca exposição solar (como a Escandinávia ou a Escócia, por exemplo, onde 13 % da população é ruiva), torna-se muito difícil sintetizar esta pró-hormona através da luz solar, a sua principal fonte. Para compensar, o gene MC1R sofreu alterações que reduziram a produção de pigmento escuro, tornando a pele mais clara para permitir uma passagem mais fácil dos raios UV. Esta adaptação cutânea, que surgiu há cerca de 50 000 a 100 000 anos, teve, de facto, um efeito paralelo no cérebro - um fenómeno conhecido como *pleiotropia*.
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