Não queremos soar a arautos da desgraça, mas os números que chegam de vários laboratórios pelo mundo fora não são animadores. O maior risco é mesmo fingir que não existem: o vírus H5N1 voltou - e está mais forte do que nunca.
Se o COVID nos deixou uma lição quando a onda maior passou, foi esta: em virologia, pagar para “não fazer nada” sai quase sempre mais caro do que investir em prevenção. A pandemia parece distante; já passaram cinco anos desde que a China alertou o mundo para aquela «gripe estranha» que começou por atingir os primeiros cidadãos em Wuhan. Com quase 7,1 milhões de mortes a nível global (estimativas baixas da OMS), o COVID foi controlado sobretudo graças à vacinação, à sensibilização e às medidas de confinamento. O balanço foi pesado, mas poderia ter sido muito pior se a resposta não tivesse chegado a tempo. É humano querer riscar este capítulo; porém, ao tentarmos virar a página depressa demais, deixamos para trás lições que custaram caro.
A OMS, ainda assim, tinha avisado em agosto de 2024 e já tinha classificado o H5N1 (bem como outros subtipos de gripe aviária) como «agente patogénico prioritário», colocando-o no topo das ameaças mais sérias para a saúde pública. Pouco mais de um ano e meio depois, caímos na armadilha do esquecimento institucional. Com cortes orçamentais a enfraquecer a vigilância global, as malhas dos nossos sistemas deixam o vírus escapar, num momento em que ele nunca circulou com tamanha intensidade. Já partimos o termómetro precisamente quando a febre está a subir?
H5N1 e gripe aviária: a mutação a mais
No final dos anos 2000, este vírus atacava essencialmente aves e arrasava quintais inteiros. Desde 2020, porém, uma nova estirpe (o clado 2.3.4.4b) espalhou-se por todos os continentes e passou a infetar mamíferos sem grande dificuldade. Hoje, já foi identificado em 74 espécies: elefantes-marinhos, leões-marinhos, ursos-polares, vacas leiteiras, gatos domésticos, entre outras. Sempre que consegue estabelecer-se numa espécie nova, usa-a como plataforma para saltar a barreira imunológica de outras. Por agora, continua a ter dificuldade em transmitir-se entre humanos, mas cada infeção num novo mamífero funciona como um ensaio genético - o vírus «treina-se» para se ajustar ao nosso organismo.
Nos efetivos leiteiros dos Estados Unidos, beneficia ainda de um meio de disseminação extremamente eficiente e temido pelos virologistas: o leite. Tendo sido detetado em embalagens vendidas no comércio, fica demonstrado que já entrou na nossa cadeia alimentar.
Felizmente, os casos humanos continuam a ser raros: a OMS contabiliza apenas 992 desde 2003. Mesmo assim, a mortalidade é assustadora: 50 % contra 0,5 a 0,1 % para o COVID-19 no pico da pandemia. Ou seja, por enquanto é menos contagioso, mas clinicamente muito mais devastador. E quanto mais mutar e se adaptar, mais a barreira entre espécies se desgasta - precisamente quando a nossa imunidade a esta estirpe é fraca.
O preço da ignorância: porque 2026 pode sair-nos caro
Para lá da sua capacidade de mutação, o nosso “escudo” sanitário - sustentado por vigilância epidemiológica contínua e por cooperação científica internacional - dá sinais preocupantes de desgaste. Para perceber por que razão a situação é perigosa, importa reter um princípio central da gestão de risco: uma catástrofe nunca é apenas um fenómeno natural; resulta de uma vulnerabilidade construída.
Daí a necessidade de distinguir entre o perigo (um acontecimento externo, imprevisível e potencialmente nocivo) e a vulnerabilidade (a fragilidade de uma sociedade perante esse acontecimento). Um episódio não se torna catástrofe apenas porque o perigo é forte; torna-se catástrofe quando ocorre num contexto em que não pode ser contido. Uma tempestade no deserto, por si só, não é uma catástrofe; passa a sê-lo quando atinge uma cidade mal protegida.
Aplicando esta lógica à virologia, o risco atual combina o potencial de transmissão do H5N1 (o perigo) com a permeabilidade dos nossos sistemas de vigilância (a vulnerabilidade). E hoje estamos exatamente nesse cenário: as agências norte-americanas que normalmente funcionam como barreira e como guardiãs da saúde pública global estão a ser desmanteladas desde que Trump regressou ao poder.
A EPA (Environmental Protection Agency), peça-chave na monitorização do vírus na fauna selvagem, viu o seu orçamento cair de 9,14 mil milhões de dólares para 4,16 mil milhões, uma redução de 54 %. O número de trabalhadores também será cortado em 1 254 funcionários a tempo inteiro e, segundo um documento da própria EPA, as missões da agência deixarão de estar orientadas para a vigilância epidemiológica ambiental.
O mesmo acontece com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), frequentemente tratado como o “cérebro” da deteção epidemiológica global: este relatório refere que o seu orçamento «diminuirá 53 % face a 2024». Dezenas de programas de vigilância mundial de doenças serão pura e simplesmente eliminados, em nome da eficiência orçamental.
Já a USAID (United States Agency for International Development), responsável por ajuda ao desenvolvimento e apoio humanitário no estrangeiro, sofreu - segundo este relatório - «um corte drástico de 85 %» em alguns programas de assistência internacional. Ao retirar quase 10 mil milhões de dólares ao financiamento de saúde global, os Estados Unidos abdicam do papel de coordenador, deixando os países em desenvolvimento (corredores críticos para aves migratórias portadoras do vírus, diga-se) sem meios para detetar as primeiras transmissões humanas.
Seria razoável esperar que a Europa tomasse o lugar, mas isso não está a acontecer. Com o foco no rearmamento e nas tensões geopolíticas, países como França, Alemanha e Reino Unido reduziram, em conjunto, 13,5 mil milhões de dólares dos seus envelopes de solidariedade internacional.
Em teoria, nada impediria que organizássemos uma resposta global ao H5N1; na prática, estamos a oferecer ao vírus o cenário ideal: sociedades desunidas e pouco recetivas aos alertas. Quando as autoridades classificam como «baixo» o risco de uma pandemia humana iminente, esse rótulo não pode ser confundido com risco nulo. A forma como avaliamos o vírus fica distorcida: como ainda não houve uma hecatombe, confundimos a «ausência de crise sanitária» com a «ausência de perigo». E este “ponto cego” nem sempre é apenas culpa nossa, porque a perceção pública é contaminada por uma comunicação política deliberadamente orientada para o curto prazo económico. Se já não houver quem toque a rebate, o verdadeiro perigo não estará na nossa teimosia em deixar de querer ver o vírus, mais do que no vírus em si?
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