A Agência Nacional de Segurança Sanitária acaba de divulgar um relatório demolidor sobre os riscos do vaping. E, ao contrário do que muitos pensam, o cigarro eletrónico sem nicotina também faz mal.
É apenas uma meia-surpresa, mas as autoridades acabaram por assumir publicamente uma posição sobre os perigos do vaping. Num parecer tornado público esta quarta‑feira, 4 de fevereiro, a Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Ambiente e do Trabalho) afirma de forma inequívoca que a inalação das substâncias presentes nos cigarros eletrónicos «apresenta um risco sanitário para o vaporizador». Esta conclusão aplica‑se a toda a gama de produtos de vaping, incluindo os que não contêm nicotina.
Em França, mais de três milhões de pessoas fazem vaping diariamente, segundo o Barómetro de Santé publique France 2024. É um número que continua a aumentar, impulsionado, em particular, pela popularidade das puffs e de outros dispositivos descartáveis, muito apreciados pelos mais novos. Perante este cenário, a agência de saúde apela a «evitar qualquer forma de banalização» e defende ir além das atuais proibições de publicidade e de venda a menores.
Anses identifica 106 substâncias «particularmente preocupantes» no cigarro eletrónico
O trabalho realizado pelos especialistas da Anses foi extremamente detalhado. Entre as 1 775 substâncias encontradas nos aerossóis inalados por quem faz vaping, a agência identificou 106 consideradas «particularmente preocupantes». Entre elas estão aldeídos que «se fixam nos tecidos das vias respiratórias e os degradam», explica Thibault Mansuy, farmacêutico e coordenador da avaliação.
Estes compostos tóxicos não são gerados apenas pela nicotina. Surgem com o aquecimento dos e‑líquidos, cuja formulação assenta numa mistura de propilenoglicol, glicerol e aromas. Por outras palavras, mesmo quem utiliza um líquido sem nicotina fica exposto à inalação repetida de substâncias nocivas. Isto contraria o argumento de marketing de que vapear sem nicotina seria isento de risco.
A Anses enumera ainda possíveis consequências para a saúde a médio e longo prazo que dão que pensar: cancros, doenças respiratórias, problemas cardiovasculares e perturbações do desenvolvimento fetal. Nos produtos com nicotina, a ocorrência de efeitos cardiovasculares é mesmo considerada «provável», incluindo aumento da pressão arterial e elevação da frequência cardíaca.
O relatório chama também a atenção para um fenómeno pouco conhecido do grande público: o «vapofumar», prática que consiste em fazer vaping enquanto se continua a fumar cigarros tradicionais. Os efeitos desta dupla exposição, ainda pouco documentados, «poderiam revelar‑se piores do que os observados com uma exposição única ao cigarro ou ao cigarro eletrónico», alerta o documento.
Anses: efeitos «menores do que os do tabaco fumado», mas não isentos de risco
Ainda assim, a agência reconhece um ponto a favor do cigarro eletrónico: a sua possível contribuição para deixar de fumar. Tendo em conta que os seus efeitos na saúde são «menores do que os do tabaco fumado», os quais são «graves, comprovados e muito bem documentados», o vaping pode constituir «uma opção transitória» para fumadores com mais dificuldade. No entanto, isso pressupõe abandonar totalmente o cigarro convencional e evitar manter o vaping como hábito permanente.
No plano regulamentar, a Anses mostra‑se cautelosa quanto a uma eventual tributação dos produtos de vaping - uma proposta retirada à última hora do Orçamento de 2026. Essa medida poderia, de facto, desencorajar alguns consumidores, mas também acarretaria «riscos sanitários adicionais» ao favorecer o recurso a e‑líquidos caseiros ou a um mercado paralelo fora de qualquer controlo. A agência recorda que metade das pessoas que fazem vaping já recorre a preparações artesanais, sobretudo por motivos económicos, expondo‑se assim a riscos de sobredosagem ou à utilização de ingredientes inadequados para inalação.
A mensagem da Anses é, por isso, inequívoca: se o cigarro eletrónico pode funcionar como uma ferramenta de transição para deixar o tabaco, não deve, em caso algum, ser encarado como um produto de consumo corrente sem risco. Em saúde pública, o objetivo final continua a ser «deixar de fumar ou de vapofumar». Já os não fumadores - e, em especial, os jovens - não têm qualquer vantagem em começar a fazer vaping, seja qual for o teor de nicotina dos produtos utilizados.
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