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A malária influenciou as áreas onde os primeiros humanos viveram durante 74.000 anos.

Pessoa pré-histórica desenha mapas numa pedra, aldeia com tendas, fogueiras e paisagem campestre ao fundo.

A narrativa da sobrevivência humana costuma centrar-se no clima da Terra. Eras glaciares, alterações na pluviosidade e paisagens em transformação influenciaram os locais onde as pessoas viviam e para onde se deslocavam.

No entanto, essa explicação não esgota o assunto. Um factor muito mais pequeno poderá ter tido um peso semelhante ao longo de milhares de anos.

Um estudo recente indica que os mosquitos e a doença que transportam terão condicionado os lugares onde os primeiros humanos conseguiam viver. Esta hipótese acrescenta uma dimensão nova à forma como interpretamos a história humana.

O clima, por si só, não explicava tudo

À primeira vista, zonas quentes e húmidas parecem ideais para a sobrevivência: disponibilizam água, vegetação e animais. É provável que os primeiros humanos privilegiassem estes ambientes.

Só que as mesmas condições favorecem também os mosquitos. Estes insectos prosperam em contextos húmidos e podem transmitir malária, uma doença que afecta os humanos há muito tempo.

Assim, alguns territórios que pareciam seguros eram, na realidade, arriscados. A presença de doença pode ter levado os primeiros humanos a evitá-los.

A malária surgiu antes da agricultura

Durante anos, muitos cientistas defenderam que a malária se tornou um problema importante apenas depois do início da agricultura. A prática agrícola criou água estagnada e povoamentos densos, condições que ajudam os mosquitos a multiplicar-se.

O novo estudo contesta essa visão. Sugere que a malária já afectava as populações muito antes da agricultura. A análise abrange os últimos 74,000 anos, um período em que as comunidades humanas ainda eram caçadoras-recolectoras.

Em consequência, a investigação aponta para um papel da doença nas decisões humanas muito mais precoce do que se supunha.

Como estudar mosquitos do passado

O estudo de doenças antigas é difícil, porque quase não existe evidência directa proveniente desses períodos. Para contornar essa limitação, os investigadores recorreram a uma estratégia diferente.

Em vez de procurarem o parasita da malária, analisaram os mosquitos. Concentraram-se em espécies que, hoje, são vectores de malária em África.

Examinaram onde estes mosquitos vivem e quais as condições ambientais de que necessitam. Depois, com recurso a modelos climáticos, estimaram em que regiões estes insectos poderiam ter existido no passado.

“Utilizámos modelos de distribuição de espécies de três grandes complexos de mosquitos, em conjunto com modelos de paleoclima”, assinalou a autora principal do estudo, a Dra. Margherita Colucci, do Instituto Max Planck de Geoantropologia e da Universidade de Cambridge.

“Ao combiná-los com dados epidemiológicos, foi possível estimar o risco de transmissão de malária em toda a África subsaariana.”

Cartografar o risco de malária (índice de estabilidade da malária)

A equipa produziu mapas para mostrar como a malária poderia ter estado presente ao longo do tempo. Para isso, desenvolveu um índice de estabilidade da malária, destinado a medir quão provável seria uma determinada área sustentar uma transmissão contínua da doença.

Este índice juntou, por um lado, a adequação do habitat para os mosquitos e, por outro, a forma como o parasita se desenvolve em diferentes temperaturas.

O resultado foi uma visualização clara do risco de malária na África subsaariana ao longo de milhares de anos.

Os humanos evitaram zonas de risco

De seguida, os investigadores compararam os mapas de malária com dados arqueológicos sobre assentamentos humanos.

O padrão observado foi marcado: as populações humanas concentravam-se sobretudo em áreas de baixo risco de malária, enquanto as regiões de risco elevado apresentavam menos vestígios de ocupação.

Isto sugere que os primeiros humanos evitavam zonas perigosas. E, quando entravam nesses locais, é possível que não conseguissem manter-se lá por muito tempo.

Como o clima foi mudando, também o risco de malária se alterou, influenciando os movimentos através do território.

Em certos períodos, áreas de baixo risco formaram corredores seguros entre regiões, permitindo deslocações e contactos entre grupos. Noutros momentos, zonas de alto risco funcionaram como barreiras, dificultando a mobilidade.

Dessa forma, alternaram-se fases de ligação e de isolamento entre diferentes comunidades humanas.

A malária e a fragmentação das populações humanas

Estudos genéticos mostram que grupos humanos antigos em África nem sempre estiveram ligados entre si. Existiam populações separadas, com mistura limitada, e a malária pode ter contribuído para esse cenário.

“Os efeitos destas escolhas moldaram a demografia humana nos últimos 74,000 anos, e provavelmente muito antes”, afirma o Professor Andrea Manica, da Universidade de Cambridge.

“Ao fragmentar sociedades humanas pela paisagem, a malária contribuiu para a estrutura populacional que observamos hoje. O clima e as barreiras físicas não foram as únicas forças a determinar onde as populações humanas podiam viver.”

Adaptação genética e sobrevivência

A genética humana fornece mais indícios. A mutação da célula falciforme está associada à resistência à malária.

Quem tem uma cópia desta mutação obtém protecção contra formas graves de malária. No entanto, possuir duas cópias pode provocar doença grave.

Esta mutação terá surgido entre 25,000 e 22,000 anos atrás, na África Ocidental. A sua disseminação acompanha alterações nos padrões de assentamento humano.

À medida que a resistência aumentava, as populações começaram a ocupar áreas de risco elevado. Entre 14,000 e 13,000 anos atrás, verifica-se uma presença humana mais frequente em regiões propensas à malária.

Por volta de 10,000 anos atrás, essa tendência intensificou-se. Isto ilustra como a adaptação genética ajudou os humanos a persistir em ambientes difíceis.

O papel da doença na evolução humana

Os resultados evidenciam uma ligação forte entre doença e evolução humana.

O clima condiciona onde as doenças se disseminam e, por sua vez, a doença limita os locais onde os humanos conseguem viver. Assim, estabelece-se um ciclo no qual ambiente e saúde se influenciam mutuamente.

O estudo apresenta ainda uma abordagem metodológica diferente: em vez de tentarem detectar directamente agentes patogénicos antigos, os cientistas podem estudar os organismos que os transportam. Isso facilita a reconstrução de padrões de doença no passado remoto.

“Este estudo abre novas fronteiras na investigação sobre a evolução humana”, afirmou a Professora Eleanor Scerri, do Instituto Max Planck de Geoantropologia.

“A doença raramente foi considerada um factor decisivo na pré-história mais antiga da nossa espécie e, sem ADN antigo desses períodos, tem sido difícil testar essa hipótese.”

“A nossa investigação altera essa narrativa e oferece um novo enquadramento para explorar o papel da doença na história humana profunda.”

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