Muitas vezes diz-se que os homens são menos “castigados” pelo tempo do que as mulheres e que, quando o tema é parentalidade, o seu relógio biológico teria um peso menor. Não é completamente mentira - mas também não é 100% verdade. Eis porquê.
A fertilidade diminui com a idade tanto nos homens como nas mulheres. É certo que essa descida não acontece da mesma forma em ambos os sexos, nem começa ao mesmo tempo. A menopausa surge, frequentemente, entre os 45 e os 55 anos, enquanto a andropausa tende a aparecer mais tarde, por volta dos 65. Ainda assim, nos indivíduos do sexo masculino, uma desconexão biológica instala-se bem antes: mesmo que um homem de 40 anos pareça no auge das suas capacidades reprodutivas, os seus espermatozoides já estão a passar por uma metamorfose.
Foi precisamente isso que demonstrou um estudo publicado a 20 de janeiro na revista The EMBO Journal, conduzido por investigadores da Universidade do Utah. A partir dos 38 anos, o ARN (ácido ribonucleico, o “mensageiro” do código genético) presente no sémen sofre múltiplas alterações - e algumas delas podem influenciar a saúde de futuros filhos em caso de reprodução.
O “bug” molecular dos 40 e a fertilidade masculina
À medida que um homem envelhece, o ADN (ácido desoxirribonucleico) nos seus espermatozoides vai-se degradando, com quebras nas cadeias - um fenómeno cuja frequência aumenta com o passar dos anos. Existe consenso científico sobre este ponto desde o início dos anos 2000. É também por essa razão que, em termos estatísticos, pais mais velhos têm maior probabilidade de transmitir doenças metabólicas ou perturbações do desenvolvimento aos seus filhos.
No entanto, estes danos estruturais identificados no ADN dos espermatozoides não eram suficientes, por si só, para explicar a transmissão de certas características epigenéticas (risco de diabetes ou obesidade, tendência para ansiedade, vulnerabilidade a dependências, etc.).
Para esclarecer esta questão, os autores do estudo decidiram centrar-se no ARN do esperma, que influencia a forma como os genes são activados. O problema é que o ARN espermático está entre os mais difíceis de analisar: encontra-se carregado de modificações químicas (como grupos metilo) que dificultam a leitura da molécula pelas enzimas de sequenciação usadas nos testes.
Assim, numa análise convencional, as enzimas de sequenciação não conseguem ultrapassar esses pontos de bloqueio e acabam por se soltar da cadeia de ARN. Como resultado, porções inteiras de informação genética - em especial pequenos ARN não codificantes - não chegam a ser copiadas e ficam invisíveis nos resultados.
Foi por isso que a equipa optou por uma abordagem metodológica alternativa chamada PANDORA-seq (pan-RNA-seq via specialized-depth-sequencing). Ao contrário de muitos protocolos, esta técnica inclui uma etapa de “limpeza” enzimática destinada a remover os grupos químicos que congestionam a molécula de ARN. Ao eliminar esses entraves, o PANDORA-seq abre caminho para as enzimas de sequenciação, permitindo-lhes finalmente percorrer a cadeia de ARN de uma ponta à outra sem se desprenderem.
Depois de ultrapassarem este obstáculo, os investigadores observaram que o ARN espermático se comporta exactamente ao contrário do ADN. Em vez de sofrer as quebras referidas acima, tende a alongar-se. Este fenómeno foi identificado em ratos com 50 a 70 semanas de idade, o que corresponde precisamente ao intervalo dos 38-47 anos em seres humanos.
Se é homem, é tecnicamente possível conceber em qualquer idade (até à andropausa), mas convém ter presente que também existe um verdadeiro desfasamento biológico no seu caso. Tal como acontece com as mulheres, os ponteiros do relógio biológico aceleram quando se aproximam os 40. Para além de transmitir 50% dos seus genes à descendência, fornece igualmente ao futuro embrião informações genéticas que vão pesar no seu destino (pelo menos no plano metabólico). Ainda assim, que isto não o desencoraje de ter filhos se esse for o seu desejo; afinal, se a humanidade tivesse esperado por um código genético perfeito para procriar, ter-se-ia ficado pela Idade da Pedra!
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