Saltar para o conteúdo

Três medicamentos comuns que provavelmente tem em casa foram agora considerados «mais perigosos do que úteis».

Médicos em consulta, com caixas de medicamentos sobre a mesa numa clínica moderna e luminosa.

Um medicamento pode ser muito procurado, mas, quando a relação benefício-risco se desequilibra para o lado errado, talvez já não deva continuar a estar disponível nas nossas farmácias.

Totalmente independente da indústria farmacêutica, a revista Prescrire actualiza todos os anos uma lista de medicamentos que considera pouco úteis ou até perigosos. Conhecida pelo rigor metodológico, cruza estudos, meta-análises, relatórios de ensaios clínicos e dados de farmacovigilância para assinalar estes produtos, independentemente do discurso comercial que possa acompanhar a sua venda.

Esta lista, com o título Medicamentos a evitar para melhor tratar (disponível para descarga nessa página), é publicada desde 2013 com o objectivo de «escolher cuidados de qualidade, não prejudicar os doentes e evitar expô-los a riscos desproporcionados». Em 2025, continua a incluir mais de uma centena de tratamentos - entre eles três muito comuns, usados por milhões de franceses sem terem plena noção dos riscos.

Porque é que diclofenac, Smecta e Maxilase entraram na “lista negra”?

Diclofenac (Voltarene e genéricos): eficaz, mas com risco cardiovascular bem documentado

O primeiro medicamento em causa é o diclofenac, substância activa do Voltarene (e de muitos outros genéricos), pertencente ao grupo dos anti-inflamatórios não esteroides (AINE). Sintetizado pela primeira vez na década de 1970, é utilizado sobretudo para aliviar dores e inflamações articulares. Apesar de ser muito eficaz, o seu potencial de toxicidade para o sistema cardiovascular está bem estabelecido desde 2013 (nomeadamente graças a um estudo publicado na The Lancet) e revela-se claramente mais elevado do que o de outros compostos da mesma família (ibuprofeno, aspirina, cetoprofeno, etc.).

Enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca, acidentes trombóticos, cardiopatia isquémica: os efeitos indesejáveis são variados. Foi por isso que a Prescrire concluiu: «Uma vez que existem anti-inflamatórios menos perigosos com a mesma eficácia, o diclofenac não deveria continuar a ser usado como primeira opção».

Diosmectite (Smecta): risco de contaminação por chumbo e benefício não demonstrado

O segundo “clássico” de muitas caixas de medicamentos é a diosmectite, mais conhecida pelo nome comercial Smecta. O seu efeito é sobretudo mecânico, por se tratar de um pó argiloso que «bloqueia» o funcionamento do sistema digestivo em situações de diarreia.

Onde está o problema? A argila presente pode estar frequentemente contaminada por chumbo, um metal pesado nocivo para o organismo humano: é neurotóxico, reprotoxico e mutagénico, podendo também causar lesões renais e perturbações cardiovasculares. Até ao momento, não existem provas científicas robustas de que seja mais eficaz do que uma medida essencial durante um episódio de diarreia: hidratar-se adequadamente, que deve ser a primeira atitude a adoptar quando se está com este sintoma.

Sem um benefício comprovado e perante um risco - ainda que pequeno - de exposição a uma substância tóxica, a Prescrire incluiu-a, de forma coerente, na sua lista de medicamentos a evitar.

Alfa-amilase (Maxilase): um xarope para a garganta sem vantagem face ao placebo e com risco de reacções

Por fim, o terceiro composto é a alfa-amilase, comercializada sob a forma de um xarope muito usado para as dores de garganta, o Maxilase. Trata-se de uma enzima digestiva descrita em 1833, presente nos sucos pancreáticos e na saliva, mas que nunca demonstrou uma eficácia real quando comparada com um placebo. Em situações raras, pode desencadear reacções cutâneas ou alergias graves.

É por este motivo que a Prescrire decidiu listá-la ao lado de outras substâncias a evitar, uma vez que existem alternativas terapêuticas com eficácia mais bem estabelecida e menor risco, como as pastilhas com clorexidina ou com cloreto de cetilpiridínio. Estas ajudam a reduzir a irritação de forma adequada e apresentam uma relação benefício-risco mais favorável.

Se utiliza estes três medicamentos com regularidade, não há razão para entrar em pânico. A Prescrire limita-se a emitir recomendações com finalidade pedagógica, alinhadas com um dos princípios centrais da medicina contemporânea: é preferível optar por soluções cuja eficácia e utilidade clínica sejam indiscutíveis, em vez de continuar a consumir substâncias apenas por força do hábito. Esta lista não quer dizer, de modo algum, que estes tratamentos se tenham tornado subitamente perigosos; formaliza apenas que já não devem ser encarados como referências.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário