As enxaquecas parecem muitas vezes imprevisíveis: há dias completamente normais e, no seguinte, surge uma dor intensa que interfere com o trabalho, o sono e a rotina.
Há muito que os cientistas suspeitam que o tempo e a poluição possam desencadear enxaquecas, mas as provas claras têm sido difíceis de obter.
Um novo estudo de grande escala da Ben-Gurion University of the Negev aproxima-nos de uma explicação mais sólida para esta relação.
O que a investigação sugere é que o ambiente não “age” num único instante. Pelo contrário, a pressão vai-se acumulando ao longo do tempo, até empurrar o cérebro para além do seu limite.
Fatores ambientais aumentam o risco de enxaqueca
Esta forma de olhar para o problema altera a maneira como pensamos nos gatilhos e na prevenção da enxaqueca.
“Estes resultados ajudam-nos a compreender melhor como e quando ocorrem as crises de enxaqueca”, disse o Dr. Ido Peles.
“Eles sugerem que, para pessoas que já têm uma predisposição para enxaqueca, os fatores ambientais podem desempenhar dois papéis: fatores de médio prazo, como o calor e a humidade, podem modificar o risco de crises, enquanto fatores de curto prazo, como picos nos níveis de poluição, podem desencadear crises.”
Enxaquecas envolvem mais do que o cérebro
A enxaqueca não é apenas uma condição do cérebro. Começa com uma sensibilidade biológica, mas isso é apenas uma parte da explicação. O estudo indica que os fatores ambientais se cruzam com essa sensibilidade de formas complexas.
Poluição do ar, luz solar, temperatura e humidade enviam sinais ao organismo. Esses sinais influenciam os vasos sanguíneos, a inflamação e a atividade nervosa. Em conjunto, acabam por determinar o quão perto uma pessoa está de entrar num episódio de enxaqueca.
Isto significa que uma crise não aparece “do nada”: vai-se formando sobre um terreno de vulnerabilidade moldado tanto pela biologia como pelo meio envolvente.
A poluição aumenta gradualmente o risco de enxaqueca
Alguns efeitos do ambiente são lentos e cumulativos. A exposição prolongada a poluentes como a matéria particulada fina e o dióxido de azoto aumenta a inflamação no corpo. Ao longo de dias ou semanas, isso eleva a sensibilidade do cérebro.
A equipa acompanhou o uso de medicação ao longo do tempo e verificou que uma maior exposição à poluição estava associada a um maior consumo de medicamentos para a enxaqueca. Isto aponta para um aumento contínuo da carga da doença, e não apenas para crises súbitas e isoladas.
Dito de forma simples, o ambiente pode ir “preparando o terreno” silenciosamente para enxaquecas, muito antes de a dor começar.
Mudanças súbitas podem desencadear enxaquecas
Se a exposição prolongada cria o contexto, alterações de curto prazo podem funcionar como o empurrão final. O estudo mostrou que níveis mais elevados de dióxido de azoto e uma radiação solar mais intensa aumentaram a probabilidade de uma ida às urgências relacionada com enxaqueca no espaço de um dia.
Estes gatilhos atuam rapidamente: ativam vias nervosas associadas à dor e libertam moléculas que afetam os vasos sanguíneos no cérebro. Essa resposta imediata reduz o limiar para que ocorra um episódio de enxaqueca.
Ainda assim, nem todos os dias têm o mesmo risco, mesmo quando os níveis de poluição são parecidos. A investigação indica que as condições meteorológicas modulam a força com que estes gatilhos se fazem sentir.
Semanas de verão quentes e secas amplificaram o efeito da poluição. Já semanas de inverno frias e húmidas aumentaram o impacto das partículas finas.
Isto implica que o mesmo poluente pode produzir efeitos diferentes consoante o clima em redor. O organismo reage não apenas a um fator isolado, mas à combinação entre eles.
Um dia quente durante uma semana fresca pode ser mais “stressante” para o corpo do que um dia quente inserido num período já quente. Estas variações têm importância.
Antecipar períodos de risco para prevenir enxaquecas
Esta visão em camadas cria novas opções de gestão da enxaqueca. Em vez de agir apenas quando a dor já começou, passa a ser possível preparar-se para períodos com maior risco.
“Estas conclusões destacam oportunidades para antecipar quais os cuidados que serão necessários”, disse o Dr. Peles.
“À medida que as alterações climáticas intensificam a frequência de ondas de calor, tempestades de poeira e episódios de poluição, teremos de integrar estes fatores de risco ambientais nas nossas orientações para pessoas com enxaqueca.”
“Quando os períodos de exposição de alto risco estão previstos, os médicos podem aconselhar as pessoas a limitar a atividade ao ar livre e a usar filtros de ar, a tomar medicação preventiva de curto prazo e a começar a usar os seus medicamentos para a enxaqueca ao primeiro sinal de um problema, para evitar crises.”
Medidas simples para reduzir o risco
Algumas estratégias básicas podem ajudar: reduzir o tempo no exterior em dias de elevada poluição, usar filtragem do ar em casa e ajustar rotinas em períodos de meteorologia extrema pode diminuir o risco.
Também é possível que os médicos programem tratamentos preventivos com base em previsões ambientais.
A tecnologia pode igualmente ter utilidade. Aplicações que cruzem dados meteorológicos e de poluição poderão avisar os utilizadores antes de as condições se tornarem arriscadas.
Alterações climáticas agravam o risco de enxaqueca
O estudo chama ainda a atenção para um problema mais amplo. Com o aumento de ondas de calor e de episódios de poluição do ar impulsionado pelas alterações climáticas, mais pessoas poderão ser expostas a estes gatilhos com maior frequência.
A enxaqueca já não é apenas uma questão individual de saúde: está também ligada ao ambiente em que vivemos. Compreender esta ligação pode ajudar as pessoas a manterem-se um passo à frente da dor.
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