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Mulheres com mais filhos podem ter menor risco de AVC.

Médica mostra imagens cerebrais em tablet para mãe e duas crianças numa consulta num consultório iluminado.

As mulheres têm um risco ao longo da vida mais elevado de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e, até 2050, projeta-se que os Estados Unidos venham a registar mais 68 000 mortes por AVC por ano entre mulheres.

Sabe-se bastante sobre o que aumenta a probabilidade de um AVC - por exemplo, a hipertensão arterial e o tabagismo -, mas existe muito menos informação sobre o que poderá, afinal, proteger o cérebro.

Um estudo recente traz uma pista inesperada: indica que as mulheres que tiveram mais filhos poderão ter menor probabilidade de vir a sofrer um AVC mais tarde.

Identificar fatores de risco de AVC nas mulheres

Os dados vêm do Estudo do Coração de Framingham, que acompanha a saúde das pessoas numa cidade do estado de Massachusetts desde 1948.

Para esta análise, os investigadores seguiram 1 882 mulheres durante cerca de 18 anos. No início do acompanhamento, tinham aproximadamente 61 anos e não tinham histórico de AVC.

A equipa recolheu informação como o número de filhos de cada mulher, a idade em que ocorreu a menopausa, se tinham recorrido a terapêutica hormonal e quais eram os seus níveis hormonais.

Uma parte das participantes realizou também exames ao cérebro, o que permitiu detetar pequenos AVC “silenciosos” - episódios que tinham ocorrido sem que a própria mulher se apercebesse.

Apesar de serem discretos, estes AVC ocultos podem trazer consequências mais tarde, incluindo um aumento do risco de AVC de maior dimensão e dificuldades de memória ao longo do tempo.

Mães com menor risco de AVC (acidente vascular cerebral)

Ao longo do período de estudo, 126 mulheres sofreram um AVC. Quando os investigadores compararam os resultados, surgiu um padrão claro.

As mulheres que tinham tido três ou mais filhos apresentaram um risco de AVC cerca de metade do observado em mulheres que nunca tinham dado à luz.

O mesmo tipo de associação apareceu nos exames cerebrais: quem teve três ou mais filhos mostrou aproximadamente metade da probabilidade de apresentar aqueles pequenos AVC silenciosos.

“Os nossos resultados sugerem que os fatores reprodutivos - por exemplo, o número de nados-vivos - podem ser um fator adicional a considerar quando se avalia o risco de AVC nas mulheres”, afirmou a Dra. Sudha Seshadri, coautora sénior do estudo.

Mais filhos poderão ajudar a proteger o cérebro

Os autores sublinham que o estudo identifica uma associação, mas não demonstra uma relação de causa e efeito. Ainda assim, avançam algumas hipóteses sobre os motivos pelos quais ter mais filhos poderia estar ligado a um menor risco de AVC.

Uma explicação plausível envolve o estrogénio. Durante a gravidez, o organismo da mulher produz níveis elevados desta hormona durante nove meses consecutivos.

Sabe-se que o estrogénio contribui para proteger os vasos sanguíneos, favorece o fluxo de sangue para o cérebro e ajuda a manter os vasos mais flexíveis. É possível que estes períodos prolongados de estrogénio elevado deixem os vasos sanguíneos em melhores condições durante anos após o fim da gravidez.

A gravidez pode melhorar os vasos sanguíneos

A gravidez também estimula o corpo a formar novos vasos sanguíneos, e parte dessas vantagens pode manter-se muito depois do nascimento do bebé.

Além disso, mulheres com mais filhos poderão ter passado menos tempo a tomar pílulas anticoncecionais, que alguns estudos associaram a um ligeiro aumento do risco de AVC.

Podem existir ainda explicações que não dependem tanto da biologia. Famílias maiores podem significar redes de apoio mais fortes - de familiares e amigos -, algo que se sabe estar ligado a melhor saúde global.

Outra possibilidade é terem amamentado durante mais tempo, o que tem benefícios próprios para a saúde. No entanto, este estudo não conseguiu separar de forma clara todas estas influências.

Estudos anteriores apresentaram resultados contraditórios

Algumas investigações mais antigas apontavam para o contrário: mulheres com famílias muito numerosas pareciam ter mais AVC, e não menos.

Outros trabalhos não encontraram qualquer ligação. E houve ainda estudos a sugerir que mulheres sem filhos teriam um risco de AVC mais elevado.

De onde vem tanta divergência? Os autores referem que muitos estudos anteriores acompanharam as participantes por menos tempo, basearam-se em códigos de faturação/administrativos em vez de confirmação clínica por médicos e nem sempre ajustaram devidamente para outros problemas de saúde.

Limitações do estudo

Há limitações relevantes a ter em conta. Quase todas as participantes eram mulheres brancas, de origem europeia, pelo que os resultados podem não se aplicar da mesma forma a mulheres com outras origens.

Além disso, os investigadores não dispunham de dados sobre complicações da gravidez, como hipertensão arterial ou diabetes durante a gestação, nem sobre abortos espontâneos - fatores que também podem influenciar a saúde a longo prazo.

E, como os exames ao cérebro foram realizados apenas num único momento, existe uma pequena possibilidade de que a relação observada possa refletir o sentido inverso.

“Isto pode ser um fator importante a incluir em regras de previsão clínica específicas para mulheres relativamente ao AVC, mas será necessário estudar mais”, disse Seshadri.

Melhorar a previsão do risco de AVC

Se estes resultados se confirmarem noutros grupos de mulheres, poderão alterar a forma como os médicos pensam o risco de AVC. Atualmente, os principais aspetos avaliados na consulta incluem a tensão arterial, o colesterol, o tabagismo e a diabetes.

Poucas ferramentas de cálculo de risco de AVC perguntam sequer sobre o historial reprodutivo de uma mulher. Estes dados sugerem que provavelmente deveriam fazê-lo.

“A inclusão deste fator de risco em regras de previsão clínica específicas para mulheres relativamente ao AVC pode melhorar a previsão do risco nas mulheres”, afirmou Seshadri.

Ainda assim, nada disto significa que as mulheres devam decidir ter (ou não ter) filhos com base na prevenção de AVC.

Este efeito é apenas uma das peças do puzzle, e a própria gravidez traz também riscos de saúde que devem ser considerados.

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