Achava que o seu telemóvel o tornava mais inteligente? Pense outra vez. De acordo com o neurocirurgião Marc Tadié, o uso intensivo dos nossos smartphones pode provocar a atrofia de certas áreas do cérebro. Um aviso científico inquietante que obriga a repensar a nossa relação com a tecnologia.
Bem-vindo à Idiocracia! Se é dos que acreditam que os smartphones nos estão a “emburrecer”, talvez tenha motivos para isso - pelo menos se levarmos a sério as conclusões de Marc Tadié. Numa entrevista ao Le Figaro, este professor e antigo director do serviço de neurocirurgia do Hospital de Bicêtre deixa o alerta: «Quanto mais delegamos no smartphone tarefas cognitivas, mais a nossa memória se atrofia». A lógica, diz ele, é directa: ao entregar rotineiramente os percursos ao GPS, as contas às aplicações e as recordações a servidores remotos, colocamos o cérebro em pousio.
Ainda que não o seja, o cérebro comporta-se como um músculo. Sem estímulo regular, perde volume e eficiência. E qual é a zona mais afectada? O hipocampo - uma região crucial para a memória de longo prazo e para a orientação no espaço.
Durante anos, muitos ouviram este tipo de afirmações sem uma validação objectiva. Agora, a evidência começa a surgir. Com a ressonância magnética funcional, os cientistas conseguem hoje observar essa atrofia praticamente em tempo real.
Um dos casos mais ilustrativos vem de Londres. Antes da era do GPS, os taxistas londrinos tinham de decorar um verdadeiro labirinto de 25 000 ruas para obterem licença. Estudos conduzidos pela professora Eleanor Maguire, do University College London, mostraram que esse treino intensivo fazia crescer o hipocampo. Porém, com a generalização dos sistemas de navegação, essa região encolheu - tanto entre os taxistas como no resto da população.
A externalização do pensamento e o smartphone: um presente envenenado
Para Marc Tadié, o problema vai além de um simples “desuso” do cérebro. Esta dependência criaria uma verdadeira «externalização do pensamento», com consequências potencialmente graves. À medida que a memória enfraquece, outras funções cognitivas essenciais começam também a falhar: a atenção profunda, a imaginação e a capacidade de estabelecer ligações entre informações.
O cenário torna-se ainda mais sombrio quando se fala de dependência de ecrãs. «Os mecanismos neurobiológicos são idênticos aos das drogas duras», afirma o neurocirurgião. Cada notificação e cada interacção desencadeiam a libertação de dopamina - a hormona do prazer e da recompensa. E os algoritmos, desenhados para maximizar o tempo de ecrã, empurram-nos para um ciclo vicioso tanto mais perigoso quanto socialmente normalizado.
As repercussões nas relações sociais também preocupam. Há estudos que indicam uma diminuição da empatia e uma dificuldade crescente em interpretar expressões faciais subtis, como medo, tristeza ou compaixão. O uso intensivo do smartphone reduz, assim, a atenção que dedicamos ao outro. O ser humano, um animal social? Nem por isso.
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Preto é preto?
Devemos, então, deitar os telemóveis ao lixo? Marc Tadié prefere uma posição mais equilibrada. No livro «O cérebro sem memória – Um tsunami chamado smartphone», escrito em co-autoria com Thierry Derez e publicado no final de 2025, não defende um regresso à Idade da Pedra (o que, de resto, seria impossível), mas sim uma tomada de consciência urgente. O smartphone deve continuar a ser uma ferramenta. «Fico impressionado com todos estes automobilistas que fotografam o número do lugar de estacionamento em vez de tentarem memorizá-lo», observa.
Para manter o cérebro “treinado”, o neurocirurgião sugere algumas estratégias que podem até transformar-se em pequenos desafios. Por exemplo, fazer cinco a seis actos de memória por dia sem recorrer ao telemóvel, voltando a decorar números, moradas ou compromissos. Recomenda também recuperar espaço para a leitura, para conversas presenciais, para caminhar e para contemplar - experiências que, segundo ele, alimentam verdadeiramente o cérebro.
Alguns fabricantes parecem já ter percebido a dimensão do problema e começam a apresentar alternativas. A Nothing, por exemplo, disponibiliza funcionalidades para limitar o tempo de ecrã: modo a preto e branco na hora de dormir, uma interface em tons de cinzento pouco apelativa e widgets de aviso quando a utilização é excessiva.
Ainda assim, estas medidas continuam a ser residuais face à escala do fenómeno. E, sobretudo, os líderes do smartphone persistem em criar ferramentas que empurram na direcção contrária. O exemplo mais recente são as inteligências artificiais integradas directamente nos telemóveis, já capazes de antecipar necessidades antes mesmo de pensarmos nelas. Não se trava o progresso…
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