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Europa promete reforçar investimento na Defesa e papel na NATO; Rutte admite "deceção" dos Estados Unidos

Seis diplomatas em reunião ao ar livre com bandeiras da União Europeia e mapa da Europa sobre a mesa.

A Europa reiterou a intenção de aumentar o investimento no setor da Defesa e de assumir um papel mais relevante na NATO. O secretário-geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte, admitiu existir "deceção" do lado dos Estados Unidos.

Cimeira da Comunidade Política Europeia (CPE) em Erevan

Líderes de vários países europeus estiveram ontem reunidos em Erevan, na Arménia, numa cimeira em que a sombra de Donald Trump marcou o tom do debate, na sequência do anúncio de retirada de cinco mil militares norte-americanos destacados na Alemanha. O encontro da Comunidade Política Europeia (CPE) - que contou também com o primeiro-ministro do Canadá e com o secretário-geral da NATO - foi usado para sublinhar a promessa de que os parceiros de Washington vão reforçar as capacidades de defesa, mostrando que compreenderam a "mensagem" enviada a partir dos EUA.

Sob o lema "Construir o futuro: unidade e estabilidade na Europa", chefes de Estado e de Governo deslocaram-se à capital arménia, situada relativamente perto da Rússia e do Irão, para a oitava reunião da CPE - plataforma proposta por França e criada em 2022, após a invasão da Ucrânia. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, não esteve presente por motivos de agenda.

"Mensagem clara"

"Como sabem, como nós sabemos, houve alguma deceção por parte dos EUA em relação à reação europeia ao que está a acontecer agora no Médio Oriente e à campanha de Israel e dos EUA contra o Irão", reconheceu Mark Rutte. Ainda assim, o líder da NATO frisou que, nas conversas com responsáveis europeus, percebeu que estes "entenderam a mensagem dos EUA claramente".

"Temos visto todos estes países a participar nos seus acordos bilaterais (...) Montenegro, Croácia, Roménia, Portugal, Grécia, Itália, Reino Unido, França e Alemanha", disse Mark Rutte, secretário-geral da NATO.

O secretário-geral da Aliança Atlântica apontou países que estão a dar apoio em matéria logística, incluindo Portugal - mas não referiu Espanha, que proibiu a utilização de bases militares no seu território para apoiar a guerra contra o Irão. "Os europeus estão a assumir a sua responsabilidade - um papel maior para a Europa numa NATO mais forte", acrescentou.

Retirada de tropas dos EUA da Alemanha e fricções transatlânticas

Depois de meses de atrito com Washington em temas como a Gronelândia e a guerra na Ucrânia, a mais recente fonte de tensão transatlântica é a saída de militares norte-americanos da Alemanha. "Há muito que se fala da retirada das tropas dos EUA da Europa. Mas, claro, o momento deste anúncio é surpreendente", afirmou a alta-representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas.

"Temos, de facto, de reforçar o pilar europeu na NATO e fazer muito mais. As tropas americanas não estão na Europa só para proteger os interesses europeus, mas também os interesses americanos", disse Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE.

O Pentágono comunicou a retirada no final da última semana, depois de o chanceler alemão ter afirmado que o Irão estava a "humilhar" os Estados Unidos. Trump prometeu adotar medidas semelhantes em Espanha e Itália. Friedrich Merz, ausente em Erevan, afirmou numa entrevista à estação ARD, emitida no dia anterior, que as divergências com o líder da Casa Branca não explicam o anúncio. "Não vou desistir de trabalhar na relação transatlântica", sublinhou o político alemão.

Num contexto em que se procura baixar a temperatura com os EUA, que defendem despesas com Defesa de pelo menos 5% do PIB, os europeus voltaram a comprometer-se com mais investimento no setor. A presidente da Comissão Europeia, por exemplo, pediu um avanço nas "capacidades militares". "Existe uma vasta quantidade de recursos financeiros disponíveis para investimentos. Agora, precisamos realmente de intensificar e acelerar o processo de produção de equipamento militar", defendeu Ursula von der Leyen.

"Os europeus estão a tomar as rédeas do seu destino, a aumentar as suas despesas em defesa e segurança e a construir as suas próprias soluções comuns", disse Emmanuel Macron, presidente de França.

"Clube anti-Trump"

O Canadá - o primeiro país não europeu a aderir ao programa de financiamento da UE para a defesa - marcou presença na cimeira. "Somos o mais europeu dos países não europeus, por isso há muitas formas de podermos trabalhar juntos", afirmou o primeiro-ministro Mark Carney. Sebastien Maillard, do Instituto Jacques Delors, citado pela agência AFP, considerou que a CPE, inicialmente encarada como um "clube anti-Putin", passou a ter uma "conotação anti-Trump" com a participação de Otava.

Ainda assim, o foco na Rússia mantém-se - e não apenas por parte de Kiev. "Os EUA estão a retirar-se da Europa, as relações transatlânticas estão em frangalhos e a UE ainda não está totalmente preparada para assumir as responsabilidades sozinha", avisou o eurodeputado conservador finlandês Mika Aaltola, ouvido pelo portal Politico, ao temer uma "janela de oportunidade" para ações desestabilizadoras de Moscovo.

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