Saltar para o conteúdo

INEM reabre debate sobre Gulf Med e voos noturnos no helitransporte de doentes

Médico a empurrar maca com paciente ao lado de helicóptero de emergência numa heliponto hospitalar.

Ainda nem passou um ano desde que o Governo entregou à Gulf Med o serviço de helitransporte de doentes e, no entanto, já começou a ganhar forma uma discussão sobre o modelo de funcionamento a adotar no âmbito da refundação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). Entre as primeiras mudanças em cima da mesa surge a possibilidade de terminar com as missões noturnas de socorro, restringindo a operação dos meios aéreos a turnos diários de 12 horas (ou menos). Ao Expresso, o presidente do INEM, Luís Cabral, sustenta que “é uma discussão que o país precisa de iniciar, porque está a gastar-se muito para uma atividade noturna reduzida”.

Ativação noturna dos helicópteros da Gulf Med: 38 saídas e 16% do total

De acordo com dados do INEM, os quatro helicópteros do operador privado maltês Gulf Med, integrados na emergência médica, foram acionados 38 vezes durante o período noturno - entre as 20h e as 8h - desde que passaram a operar 24 horas, em outubro do ano passado. Estas descolagens, a partir das bases de Macedo de Cavaleiros, Viseu, Évora e Loulé, correspondem a 16% dos 232 voos efetuados ao serviço do INEM até março.

Nos primeiros três meses do ano, o maior número de descolagens em horário noturno (11) verificou-se nas bases de Viseu e de Évora. Em Loulé (Algarve) registaram-se nove acionamentos e em Macedo de Cavaleiros sete. Na prática, isto significa que, na maior parte do tempo noturno, cada aeronave permaneceu no solo. Os dados do ano passado já apontavam para uma utilização igualmente pontual: ao longo de 12 meses, contabilizaram-se 132 saídas entre as 20h e as 8h, o que equivale a 14% de um total de 943 voos de socorro.

Alternativa ao helitransporte: VMER como resposta principal

Caso deixe de existir helitransporte de doentes depois do pôr do sol, a resposta passará a ser assegurada por via terrestre. “Temos 44 viaturas médicas de emergência e reanimação (VMER) [as viaturas rápidas com médico e enfermeiro] e praticamente em todo o país chegam mais depressa do que o helicóptero. Os ‘hélis’ existem para quando não há disponibilidade das VMER ou nas situações onde falta acesso. São uma redundância”, detalha Luís Cabral.

“Está a gastar-se muito para uma atividade noturna reduzida”

Luís Cabral
Presidente do INEM

Modelo em discussão: bases hospitalares e missões de equipas hiperespecializadas

A proposta do presidente do INEM já foi apresentada à ministra da Saúde, e Ana Paula Martins pretende que o tema entre em debate. Na semana passada, no Parlamento, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito ao INEM, a ministra trouxe o assunto à discussão, embora sem o clarificar. Mencionou helicópteros de nível A e B e falou em bases logísticas de retaguarda, o que acabou por gerar ruído na comunicação e desconforto junto das equipas.

Em termos simples, para lá do eventual fim das missões noturnas, está a ser ponderada a criação de bases hospitalares orientadas para o helitransporte de equipas altamente diferenciadas, bem como a utilização de aeronaves militares para o restante socorro e para a transferência de doentes entre unidades.

No desenho futuro, a intenção passa por instalar bases em hospitais polivalentes - São João (Porto), Coimbra, Santa Maria (Lisboa) e Faro - com equipas hiperespecializadas, capazes de chegar rapidamente ao doente e iniciar de imediato procedimentos avançados, como ECMO, a técnica de circulação extracorporal que permite manter coração e pulmões em situações de falência. Este helitransporte deverá ser garantido por ‘hélis’ ligeiros, com elevada prontidão e níveis de operacionalidade semelhantes aos que a Gulf Med assegura atualmente.

Nas bases que existem hoje, poderão ficar destacados outros meios aéreos. A ministra referiu um papel de apoio logístico ou de retaguarda, sobretudo em cenários de multivítimas ou catástrofe, mas o plano em estudo é mais amplo: inclui também o socorro atual, tanto pré-hospitalar como inter-hospitalar, e admite a possibilidade de deslocalizar alguns meios. Nesse cenário, os Black Hawks da Força Aérea poderão assumir missões que hoje são executadas pela Gulf Med, ficando um operador privado responsável pelas futuras missões de elite - com médicos nos serviços, mobilizados por chamada - à semelhança do que acontece com equipas de transplantação.

Black Hawks da FAP chegam em agosto

O Expresso questionou o Ministério da Defesa sobre a data de entrega dos quatro helicópteros de fabrico norte-americano e sobre o respetivo plano de atividade, mas obteve uma resposta sucinta. “O contrato para os UH60 FAP/Emergência Médica foi assinado com a Ace Aeronautics, por um montante inferior a €32 milhões, financiado através do PRR, e o prazo-limite de entrega é 31 de agosto.”

“Temos de pensar num modelo para um contexto onde existe um novo hospital em Lisboa (Oriental), melhores infraestruturas nos heliportos e quatro Black Hawks da Força Aérea”, enquadra Luís Cabral. E por que motivo esta urgência? “O concurso para 2030 tem de começar a ser preparado no próximo ano, já com um novo conceito. Tudo tem de estar fechado em setembro de 2029 para entrar em vigor em junho de 2030.” Até lá, garante, “não está prevista qualquer alteração ao modelo operacional em funcionamento”.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário