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50 anos de autarquias democráticas: a mudança do poder local em Tabuaço, de Valença do Douro ao Miradouro

Grupo de pessoas a analisar mapa e fotografias junto ao rio e vinhas num vale ensolarado.

Da água e do saneamento à ação social, o balanço de 50 anos de autarquias democráticas evidencia uma transformação profunda no território do Miradouro, desenhado “em forma de cacho de uva”, em Valença do Douro, no concelho de Tabuaço.

De carências básicas a infraestrutura essencial

Em 1976, ano das primeiras eleições autárquicas livres, muitas aldeias de Tabuaço continuavam sem água canalizada, sem rede de saneamento, sem recolha de lixo e com arruamentos degradados. Meio século volvido, o retrato do concelho é outro e ilustra, de forma clara, o efeito do poder local.

António Lara, que integrou durante quase três décadas o executivo da Junta de Freguesia de Longa, recorda que antes “praticamente, não havia nada”. Com orçamentos reduzidos, os eleitos locais trabalhavam “por carolice” e viam-se frequentemente obrigados a deslocar-se à Câmara para “mendigar” apoios, fosse para abrir caminhos, fosse para fazer chegar água às habitações.

Tabuaço e o poder local: proximidade e novas respostas

Numa mesa-redonda dedicada ao Poder Local naquele concelho, realizada no “Dia do Município” - iniciativa do Jornal de Notícias, TSF e jornal o Jogo - José João Patrício, presidente da Câmara de Tabuaço, descreveu a evolução como uma “revolução tremenda”. Tinha sete anos no 25 de Abril e diz guardar a lembrança de “ruas miseráveis, lama, falta de iluminação e escolas que sobreviviam com o esforço das famílias”. Atualmente, sublinha, “o município está envolvido na educação, na ação social, na saúde, na cultura e nas associações”.

Para o autarca, a Câmara passou a ser “a primeira porta a que a população bate quando há um problema”, mesmo quando a competência é do Estado. Essa proximidade, defende, é uma das marcas do poder local, acrescentando que não é raro encontrar munícipes “à porta de casa”.

Turismo do Douro e viticultura: impacto das autarquias

A melhoria das condições é igualmente salientada por Thomas Egger, empresário austríaco a viver em Tabuaço há 23 anos. O responsável do restaurante Tábua D"Aço considera que a vila ganhou capacidade para “beneficiar mais do turismo do Douro”. Acrescenta que o concelho tem a vantagem de estar “no Douro, mas um bocadinho mais acima” do rio, oferecendo “com qualidade e preços mais acessíveis” do que junto à margem.

Paulo Mota, enólogo da Quinta das Herédias, defende que as autarquias têm uma voz indispensável junto do poder central. No Douro, entende que as câmaras devem pressionar por uma “melhor organização da viticultura”, lembrando que “são os pequenos e médios produtores que mantêm a paisagem que sustenta o turismo”.

Desafios de futuro: população, habitação e descentralização

O futuro, porém, traz novos obstáculos. João Patrício admite que travar a perda de população passa por emprego, habitação e investimento. Salienta que “há pessoas disponíveis para viver em Tabuaço”, mas que faltam casas. Sobre a descentralização, reconhece ganhos na proximidade dos serviços, mas critica a transferência de competências sem o financiamento considerado necessário.

Tabuaço encara agora o desafio de fixar jovens, proteger a economia local e evitar que a passagem de responsabilidades do Estado agrave a pressão sobre autarquias já com margem limitada.

As figuras

José João Patrício, presidente da Câmara Municipal de Tabuaço

"Queremos ter um concelho com melhores acessos, investidores que criem emprego, mais habitação e mais gente a fixar-se. Um município com mais vida e mais dinâmica".

António Lara, antigo presidente da Junta de Freguesia de Longa

"Antes praticamente não havia nada. Não havia saneamento, não havia águas. Foi uma altura que nos deu gozo, porque se começou a ver a evolução da população".

Thomas Egger, empresário e chefe de cozinha do restaurante Tábua D"Aço

"Tabuaço tem um privilégio: estamos no Douro, mas mais um bocadinho acima. Aqui temos qualidade com preços normais e em dez minutos estamos lá em baixo".

Paulo Mota, enólogo da Quinta das Herédias

"Se os pequenos e médios viticultores abandonarem as vinhas, o turismo no Douro termina no dia a seguir. A paisagem depende desse trabalho".


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