A associação que congrega 68 grupos de canto a vozes por mulheres pretende submeter esta prática a Património cultural da Humanidade, com o propósito de salvaguardar uma musicalidade que acompanhava "o trabalho duro" no campo e que funcionava como "um grito de liberdade" no universo feminino.
A intenção foi divulgada pela presidente da Associação de Canto a Vozes - Fala de Mulheres, estrutura que assumirá a liderança do processo de candidatura junto da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
Candidatura do canto a vozes à UNESCO
O que se procura, explica a direção, é dar visibilidade e reconhecimento a "um riquíssimo património" que, embora continue praticado, "foi ocultado publicamente ao longo dos tempos, porque às mulheres estava reservado um lugar caseiro e o trabalho no campo, que elas assumiam no seu pleno". Ainda assim, foi nesse contexto que as cantadeiras conseguiram passar, "de geração em geração, uma arte singular e um saber-fazer que está entre os mais ricos da Europa".
O anúncio do projeto foi feito por Margarida Antunes, presidente da Associação de Canto a Vozes, em Vale de Cambra (distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto). É nesse concelho que, no próximo sábado e domingo, se realiza o 2.º Encontro Nacional de Canto a Vozes, que reunirá mais de 400 participantes e acolherá a primeira reunião dos municípios ligados a esta prática musical.
Raiz rural, identidade e memória coletiva do canto a vozes
Vale de Cambra integra a rede de autarquias que apoia a candidatura à UNESCO. Como sublinha a vereadora da Cultura, Mónica Seixas, o canto a vozes traduz o pensamento das mulheres "num tempo em que, muitas vezes, não tinham espaço de afirmação"; por isso, as melodias associadas a esta tradição tiveram "um significado profundo na construção da identidade e memória coletiva".
Margarida Antunes partilha a mesma leitura e descreve o enquadramento desta expressão: "O canto é moldado pela paisagem. Por isso, quer no nosso país, pela diversidade geográfica, quer noutros, ele toma formas distintas, mas tem a mesma matriz rural. Há uma sonoridade específica que o distingue, por exemplo, do canto clássico e mais domesticado. O trabalho do campo é duro, as mulheres cantavam do berço à cova e faziam-no para obstar às agruras desse trabalho".
Apesar de já estar classificado como Património Imaterial Nacional (em dezembro de 2023), o canto a vozes é também associado a momentos do quotidiano e do ciclo de vida: o embalo dos filhos, a exteriorização de alegrias e tristezas, bem como a expressão de crenças e amores. Ainda assim, numa formulação sintética, a presidente da associação destaca-o sobretudo como "grito de liberdade lançado na voz, de forma livre e sem muros".
Margarida Antunes acrescenta que um dos elementos mais marcantes na preparação da candidatura foi o impulso "das próprias cantadeiras de verem reconhecido o canto que as apaixona e as une" - um desejo que, segundo a dirigente, é igualmente partilhado pelos homens que também participam, embora em menor número, nos coletivos dedicados a esta prática.
Associação, investigação e envolvimento crescente
Essa vontade, no entanto, permanecia sobretudo dentro de cada comunidade, até porque muitos dos grupos não se cruzavam: entre os 68 que hoje integram a associação, a maioria não se conhecia.
Como recorda a presidente, a criação da Associação de Canto a Vozes resultou de um trabalho prévio de identificação e mapeamento: "O trabalho de pesquisa e levantamento de grupos formais e informais levado a cabo por uma equipa da Universidade de Aveiro liderada pela professora Maria do Rosário Pestana, na sequência de um protocolo entre essa instituição e o município de São Pedro do Sul, é que foi determinante para que mais de 300 cantadeiras e cantadores decidissem criar, a 1 de março de 2020, em Viana do Castelo, a Associação de Canto a Vozes".
Desde então, com uma exposição pública cada vez maior, o canto a vozes tem vindo a atrair "muitos jovens". Em paralelo, tal como se prevê voltar a acontecer no próximo fim de semana em Vale de Cambra, tem-se consolidado uma agenda mais regular de oficinas, intercâmbios, residências e encontros para atuação.
Quanto ao que poderá mudar com um eventual reconhecimento internacional, Margarida Antunes mantém a mesma linha de continuidade: "O que nos reserva o futuro, caso haja reconhecimento internacional? Continuar sempre". E reforça a ideia de que a classificação ajuda a projetar a prática, mas não substitui o essencial: "O reconhecimento dá mais visibilidade, divulga, mas a transmissão de conhecimento e manter viva a essência de um património é uma alegria, uma forma de estar e um combate diário".
Municípios na rede de apoio à candidatura
Para além de Vale e Cambra, São Pedro do Sul e Viana do Castelo, estão já envolvidos mais 22 municípios na preparação da candidatura a Património Mundial:
- Alfândega da Fé
- Arcos de Valdevez
- Arouca
- Braga
- Bragança
- Coimbra
- Esposende
- Famalicão
- Guimarães
- Lisboa
- Miranda do Douro
- Oeiras
- Oliveira de Frades
- Ponte da Barca
- Ponte de Lima
- Porto
- Póvoa de Varzim
- Santa Maria da Feira
- Sever do Vouga
- Serpa
- Terras de Bouro
- Vouzela
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