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Marco Rubio no Vaticano: Trump, Cuba e o Papa Leão XIV

Homem de fato cinza com terço na mão a caminhar em corredor com quadro e basílica ao fundo.

O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) optou por enviar ao Vaticano o seu secretário de Estado - cargo equivalente ao de ministro dos Negócios Estrangeiros. Marco Rubio já tinha dito, quando ainda era senador, que entre a Igreja Católica e Cuba existiam “intrigas” e entendimentos. O facto é que, há décadas, a instituição tem funcionado como o principal amparo internacional da ilha que Donald Trump garante querer conquistar pela força.

De origem cubana, Rubio tem insistido, em várias ocasiões, na necessidade de apertar o bloqueio ao país. A medida, em vigor desde 1962, agravou fome, miséria e mortes numa nação com quase dez milhões de habitantes, sob domínio do regime comunista desde 1959.

De acordo com a agenda oficial, Rubio reunir-se-á com monsenhor Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e, por isso, o seu homólogo. A conversa deverá decorrer em inglês, à semelhança do que aconteceu na primeira deslocação de Rubio ao Vaticano, há um ano, por ocasião da posse do Papa Leão XIV. “Falamos em espanhol, inglês ou cubano?”, perguntou então o colaborador de Trump. Parolin respondeu-lhe: “A língua oficial é o inglês”, acrescentando de imediato: “embora não seja tão bonito”.

Tudo indica que o encontro desta quinta-feira poderá ser mais “franco”, na expressão habitual da diplomacia - isto é, mais direto. Com exceção do período imediatamente posterior à revolução castrista, a ilha caribenha tem beneficiado largamente da “proteção” do Vaticano. Já os EUA devem aos papas a preservação de relações diplomáticas com Havana, entendidas como contactos trabalhados de forma discreta em Cuba, no Canadá, em Washington e nos corredores da Santa Sé, envolvendo figuras católicas e outras.

As lições de teologia de J.D. Vance

Rubio chega ao centro da Igreja Católica depois de Trump ter insultado Leão XIV em diferentes momentos. O vice-presidente, o neocatólico J.D. Vance, foi mais longe: acusou o Papa de não dominar teologia e procurou corrigi-lo a propósito de Santo Agostinho, fundador da ordem a que pertence o próprio Robert Prevost (o nome verdadeiro de Leão XIV, o primeiro líder dos católicos oriundo dos EUA). O número dois da Casa Branca aconselhou ainda o pontífice a concentrar-se na moral e a afastar-se da guerra, como se os dois domínios não estivessem ligados.

“Não tenho medo”, declarou o Papa, referindo-se à Administração Trump. O pontificado começou com grande discrição, mas Trump empurrou-o para uma linguagem mais explícita, ao denunciar publicamente “os tiranos” e as “potências que devastam o mundo”. Quando o Presidente dos EUA ameaçou “acabar com a civilização persa numa noite”, Leão XIV saiu de Castelgandolfo, a residência de férias perto de Roma, para falar com jornalistas, a quem afirmou: “É inadmissível”.

Trump também se deixou fotografar, nas redes sociais, como um Jesus Cristo que cura doentes. “Não falo com ele”, reagiu Prevost, nascido em Chicago. Depois de novo insulto, aconselhou os seus compatriotas a falarem “com os congressistas”.

Aliviar tensões estará na agenda

É possível que Rubio procure reduzir o clima de tensão criado por Trump. O objetivo principal poderá ser perceber antecipadamente como reagiria a Igreja Católica caso a ameaça contra Cuba se concretizasse. Não deverá existir resposta pública, mas Rubio encontrará uma oposição firme no Vaticano - ou, na melhor hipótese, sugestões úteis para que, em vez de destruir a ilha, se favoreça uma mudança rápida do regime sem recurso à violência. Parolin quererá evitar uma repetição de cenários como o da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, país que conhece de perto, já que foi núncio apostólico (embaixador do Vaticano) em Caracas (2009-13).

Após a conversa com Parolin, Rubio poderá receber uma breve saudação pessoal de Leão XIV. É frequente os papas reunirem a sós com governantes. Ainda assim, o pontífice não estará em Washington a 4 de julho, quando Trump assinalar os 250 anos da independência dos EUA. Em alternativa, prefere ir a Lampedusa, ilha italiana que acolhe muitos imigrantes. A 1 de maio, nomeou Evelio Menjivar Ayala como bispo de Wheeling-Charleston (Virgínia). O homem, de 56 anos, entrou ilegalmente nos EUA em 1990, depois de ter pago um suborno para conseguir sair do México.

Também Fidel Castro se encontrou com papas. O ditador cubano, antigo aluno de escolas católicas - incluindo jesuítas - era próximo do lendário Che Guevara, cabecilha da Revolução Cubana, que em 1958 derrubou o tirano Fulgencio Batista. Fidel reuniu-se cinco vezes com o Papa João Paulo II e uma com Bento XVI. Raúl Castro, irmão e sucessor, teve um encontro com o Papa Francisco. Trata-se de um recorde para dirigentes de um país oficialmente ateu e evidencia a atenção que o Vaticano dedica à ilha, um interesse que, de forma indireta, remonta a 1962.

Quando se evitou a III Guerra Mundial

“Nunca se escapa, nunca se deve cortar relações diplomáticas”, disse, com enfado, o Papa João XXIII ao seu secretário, Loris Capovilla, numa altura em que freiras e frades fugiam de Cuba após a vitória dos revolucionários castristas. Três anos depois, o mesmo Papa - antigo núncio na Turquia - interveio como mediador entre os EUA e a então União Soviética, durante a crise dos mísseis atómicos instalados por Moscovo em Cuba, a cerca de 145 quilómetros dos EUA, episódio que esteve na origem do embargo.

João XXIII encarregou o seu secretário de Estado, Agostino Casaroli, de transmitir ao Presidente norte-americano John Kennedy - ainda que com linguagem mais diplomática - que o líder soviético Nikita Kruschov não podia baixar as calças perante o comité central do Partido Comunista da União Soviética sem obter algo em troca. Esse “algo” poderia passar pela diminuição dos mísseis americanos apontados a Moscovo, colocados em território turco. A diplomacia internacional considerou que se tinha evitado “a III Guerra Mundial”, mas o bloqueio à ilha tornou-se realidade e mantém-se em vigor, hoje até mais restritivo.

Antes da sua primeira deslocação a Cuba, em 1998), João Paulo II classificou o embargo como “injusto e eticamente inaceitável”. Fidel Castro foi ao seu encontro em Roma, de uniforme militar. “Que Cuba se abra ao mundo e o mundo a Cuba”, pediu o Papa, numa mensagem que correu mundo. Todos os seus sucessores condenaram o embargo imposto à ilha.

Vaticano quer mais de Havana

Desde a visita histórica de João Paulo II, não houve libertação de presos - políticos ou comuns - em Cuba sem intervenção do Vaticano. No terreno, a Igreja mantém jardins de infância, um seminário em Havana e o centro cultural público “Félix Varela”. Está autorizada a entrada de missionários de outras nacionalidades, tal como a realização de procissões públicas e um mínimo de acesso aos meios de comunicação. A Santa Sé pretende avançar para novas frentes: criar escolas (hoje, apenas existem as do Estado), nomear capelães para as cadeias, fazer com que o organismo responsável pelas religiões em Cuba deixe de depender do Partido Comunista e garantir que os manuais escolares sejam expurgados de elementos ideológicos considerados “obsoletos”.

Em 2016, foi em Cuba - país que mantém boas relações com Moscovo - que Francisco e o patriarca russo Cirilo protagonizaram um primeiro e histórico encontro entre duas igrejas cristãs “desavindas” há séculos. “Sinal de esperança para os homens de boa vontade”, escreveu-se então num comunicado do Vaticano.

Talvez por esse motivo, Washington e Rubio olhem para a relação entre a ilha e o Vaticano com desconfiança. Pouco se alterou desde que, nos anos 80, Wayne Smith, encarregado de negócios dos EUA em Havana, afirmou que “as relações harmoniosas entre o Vaticano e Cuba são vistas de forma muito negativa em Washington”. Acrescentou que tinham sido dados “passos para que a Igreja Católica contribua para subir o nível de choque”, mas que esta não se disponibilizou. É seguro antecipar que nunca o fará. “Não deixeis de sonhar”, exortou Francisco aos jovens cubanos.

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