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Calheta SoundsCool: Tubarões e encontro atlântico no Paúl do Mar

Homem a cantar com banda num concerto ao ar livre numa praia ao pôr do sol com espetadores.

Paúl do Mar e a origem do Calheta SoundsCool

Ao longo de um único dia, um festival pequeno em dimensão mas singular no carácter toma conta do Paúl do Mar, uma varanda pitoresca sobre o Atlântico e uma das oito freguesias da Calheta, o município mais extenso e mais ocidental da ilha da Madeira. No passado sábado, 2 de maio, esta localidade - que, segundo o censo mais recente, tem menos de mil habitantes - viu a população mais do que duplicar quando a estreita Avenida dos Pescadores Paulenses ficou cheia de gente que esgotou os bilhetes do Calheta SoundsCool.

O evento nasceu de forma informal, a partir das festas de um bar da terra, o Maktub, e entretanto ganhou outra escala, contando hoje com o apoio de várias estruturas autárquicas e do Governo Regional.

Com os cabo-verdianos Tubarões no topo do cartaz, o Calheta SoundsCool desenhou um encontro musical atlântico que, durante horas, foi alternando linguagens muito diferentes perante um público igualmente diverso e sempre em circulação. Do primeiro ao último momento, dançou-se sem contenções.

Um aquecimento no Jardim do Mar e um ambiente “familiar, íntimo, festivo”

O tom “familiar, íntimo, festivo” começou a ganhar forma na véspera, feriado de 1º de maio. Nesse dia, o Joe’s Bar, “instituição” do Jardim do Mar (freguesia vizinha), recebeu os músicos do alinhamento para uma jam session informal montada na rua, no centro da povoação, com adesão entusiástica de locais e visitantes.

Entre as gaitas de foles de sabor “medieval” dos Alma Negra e o acordeão de inclinação sul-americana dos lisboetas San La Muerte Cumbia Club, passando pelas percussões dos brasileiros Maneva e pelas vozes cheias de alma dos Tubarões, tudo ajudou a levantar uma festa de “fundo de quintal”, como alguém a definiu - e bem.

Ainda houve espaço para um momento inesperado: a presidente da Câmara da Calheta, Doroteia Leça, juntou-se a um grupo de senhoras que, de repente e sem aviso, surpreendeu até a organização ao desfiar um alinhamento generoso de clássicos de Carnaval. Um gesto espontâneo numa ilha que, com Alberto João Jardim, transformou a folia numa imagem de marca ao serviço de uma indústria turística em crescimento.

Da chegada à Calheta ao Mudas – Museu de Arte Contemporânea da Madeira

Hoje, o trajecto entre o Aeroporto Internacional da Madeira Cristiano Ronaldo e o Paúl do Mar faz-se com rapidez, graças à rede de túneis que redesenhou a mobilidade na ilha. Essa facilidade, porém, não atenua a força da paisagem - pelo contrário, torna-a mais intensa, sobretudo quando a chegada coincide com o sol a descer no Atlântico.

E a luz da manhã não lhe fica atrás, especialmente quando o olhar parte de um miradouro cultural como o Mudas – Museu de Arte Contemporânea da Madeira, edifício imponente desenhado pelo arquitecto madeirense Paulo David e situado na Calheta. Numa visita na manhã de sábado, foi possível ver obras de Lourdes de Castro, António Palolo, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes, e entrar em “Abismo Adentro”, a exposição de Rigo 23 - uma mostra densa e multifacetada que cruza escultura, vídeo, instalação, desenho, bordado, fotografia, texto e “found objects”.

Ricardo Gouveia, nascido no Funchal e hoje radicado em São Francisco, pensou este projecto como um regresso às origens, envolvendo directamente a comunidade local, de artesãos a costureiras. Um gesto que ajuda a compreender um território historicamente aberto ao mundo, marcado por fluxos migratórios que levaram muitos madeirenses - e, naturalmente, pessoas da Calheta - para destinos distantes como a África do Sul ou a Venezuela.

O programa de sábado: Ventania & Amor e a abertura dos Alma Negra

É precisamente nesse cruzamento de influências que o Calheta SoundsCool encontra a sua posição natural. No sábado, o arranque aconteceu ao fim da tarde, com a dupla de DJs Ventania & Amor, que passou com naturalidade por várias latitudes sonoras, entre electrónica pensada para dançar e ramificações de música global, garantindo também as pontes entre concertos.

Depois, entraram os Alma Negra, colectivo local que revisita a tradição com um imaginário “medieval” apoiado em gaitas de foles e percussão. Com um sentido de espectáculo bem afinado, a actuação ganhou dimensão visual: uma odalisca em dança do ventre e um malabarista em andas a cuspir fogo. Foram momentos que prenderam a atenção, em especial a das muitas crianças que circulavam livremente pelo recinto.

Vale a pena sublinhar o ambiente: um público invulgarmente aberto, sorridente e comunicativo, alinhado numa harmonia colectiva pouco habitual. Seriam, segundo a organização, cerca de 1200 pessoas num recinto esgotado e, ainda assim, com espaço suficiente para circular sem aperto. Ouvia-se mais do que uma língua, cruzavam-se sotaques madeirenses e do continente, e misturavam-se idades, origens e referências numa pista de dança improvável montada junto ao Atlântico.

Cumbia universal e a fórmula dos San La Muerte Cumbia Club

Quando chegam as cumbias, a festa instala-se quase por reflexo. Essa grande invenção musical - tal como o reggae jamaicano, o kuduro angolano, o baile funk brasileiro ou o afrobeat nigeriano - há muito deixou de ser um património restrito à Colômbia e tornou-se uma cadência aceite e praticada em toda a parte, da Europa ao Japão.

Assim, percebe-se que uma banda de Lisboa aborde este território com uma fluência que, a avaliar pela reacção da pista de dança no Paúl do Mar, soa plenamente convincente. Vêm de Lisboa, mas bem que poderiam ter acabado de aterrar na Madeira num voo directo de Lima, no Perú, ou de Bogotá, na Colômbia.

Com o acento tónico colocado na percussão, a música vive também da sonoridade de “órgão de feira popular” que, no caso particular dos San La Muerte, surge não através de um teclado, mas de um EWI (“electronic wind instrument”), isto é, um instrumento de sopro com possibilidades tímbricas semelhantes às de um sintetizador. Some-se a isso o bom uso das vozes (com destaque para a vocalista), um acordeão inquieto e linhas de baixo pulsantes, e está montada a receita para máximo impacto em pista.

Maneva: um reggae melódico, emocional e cantado em coro

A noite já ia avançada quando os brasileiros Maneva subiram ao palco. Foram a primeira banda a ser recebida por uma multidão de braços no ar, telemóveis levantados, pronta a guardar cada instante. E bastava olhar em redor para perceber que não faltava quem soubesse de cor as letras dos temas com que o grupo assinala em palco duas décadas de carreira.

Esse caminho foi construído a partir de um reggae de forte vocação melódica e emocional, descrito pelos próprios como “música feita com o coração”, e que consolidou os Maneva como um dos nomes mais populares do género no Brasil contemporâneo. E isso não surpreende: a banda de canções como “Seja Para Mim” ou “Saudades do Tempo” soma mais de 1,3 milhões de seguidores no Instagram - número que certamente terá crescido um pouco depois da passagem pela Madeira - e reúne perto de 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Com uma base de fãs sólida e intergeracional, o grupo tem também reforçado a presença fora do país, levando o reggae brasileiro a públicos novos. Os músicos apresentam-se no Lisboa ao Vivo já no próximo dia 8, mas, depois da passagem muito bem sucedida pela Madeira, ainda seguem para Londres - no famoso Jazz Café, nem mais - e para Dublin, antes de passarem por Barcelona e regressarem ao Brasil para mais uma série de concertos nesta digressão de celebração e consagração.

Tubarões: a história de Cabo Verde a fechar o festival no Paúl do Mar

Com mais um mini-set de Ventania & Amor pelo meio, e depois do triunfo absoluto de Maneva - que pareciam até estar a “jogar em casa”, tal era a familiaridade com o público -, chegou a vez dos veteranos da noite: os Tubarões, grupo com lugar central na história da música de Cabo Verde.

Formados no início da década de 1970, na ilha de Santiago, os Tubarões foram decisivos na modernização da música cabo-verdiana, misturando ritmos tradicionais como a coladeira e o funaná com influências de jazz, soul e música latina, num período atravessado pelo fervor político que antecedeu e acompanhou a independência. Ao longo de décadas, foram edificando um repertório que hoje é património afectivo de várias gerações, tornando-se uma verdadeira instituição cultural no espaço lusófono e para lá dele.

Depois de fases de menor actividade, voltaram aos palcos já neste século com energia renovada, reafirmando a vitalidade de um cancioneiro que resiste ao tempo e tem sido reclamado também por novas gerações - como no caso de Dino d’Santiago, que até já gravou com os Tubarões.

No palco do Paúl do Mar, apresentaram-se com uma formação que combina experiência e consistência: o membro fundador Zeca Couto nos teclados, Israel Silva “Totó” na guitarra eléctrica, Adão Brito no baixo, Jorge Lima na percussão, Jorge Pimpa na bateria, Marcos Sousa nos saxofones e Arlindo Rodrigues na voz. Foi este último quem conduziu um concerto que depressa encontrou o seu pulso - elegante, dançável, carregado de história e com execução musical de alto calibre.

Entre clássicos e momentos de comunhão com o público, os Tubarões provaram por que continuam a ser uma referência maior: não apenas pelo peso do legado, mas pela maneira como o reactivam em palco, com uma entrega sem artifícios, sustentada na força das canções. Houve espaço para “Somada (Cruz Di Pico)”, “Serenata”, “Na Terra Scalabrod”, “Biografia d’un Kriol” e “Porton di Nhôs Ilha”, antes de um fecho apoteótico com o “banger” “Djonsinho Cabral”.

A banda regressou ainda para um encore em forma de medley, passando por “Tabanka Thada Grande”, “Pepe Lopi”, “Bida di Grossi” e “Largan Largan”, selando um verdadeiro triunfo. Já noite dentro, no extremo ocidental da Madeira, fechou-se assim um círculo atlântico perfeito - Cabo Verde a conversar com o Brasil, com Portugal e com o mundo - num festival pequeno na escala, mas largo na ambição e no alcance. Para o ano haverá mais.

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