O fascínio do Polymarket e dos ganhos rápidos
Diz a crónica recente que, à porta das presidenciais, já havia mais de 100 milhões de euros colocados em apostas no Polymarket. E o prognóstico acabou por bater certo: Seguro ganhou as eleições, depois de uma segunda volta frente a André Ventura, e muita gente acertou. À primeira vista, soa a maneira simples de fazer dinheiro. Também Gannon Ken Van Dyke, o militar norte-americano que participou na captura de Nicolás Maduro, terá somado mais de 400 mil dólares ao apostar que o líder venezuelano seria afastado do poder. Parece ainda mais fácil? Provavelmente não - convém não cair na ilusão. Nem este universo é tão encantador quanto parece, nem é assim tão linear acertar sem acesso a informação privilegiada.
Porque as apostas não são ações
Convém distinguir: apostas não equivalem a ações. Percebe-se o atractivo: quase todos têm opinião sobre futebol, eleições ou guerras; já analisar demonstrações financeiras, estratégias empresariais e variáveis macroeconómicas… dá trabalho. O problema é que pôr dinheiro em apostas traz dois riscos enormes.
O primeiro é o risco de perda total. Uma aposta que falha fica sem valor - é capital que se evapora. Com ações, por muito que desçam, regra geral não vão a zero a menos que aconteça um colapso extremo (e isso não é o habitual). É justo notar, ainda assim, que existem instrumentos como opções em que esta perda total também pode ocorrer.
O segundo risco é a manipulação e o abuso de informação privilegiada. É verdade que nos mercados bolsistas isto também acontece e há enquadramento penal para o punir. Aqui, porém, tende a ser mais simples. Muitos acontecimentos sobre os quais se aposta dependem, por vezes, de uma única pessoa (por exemplo, dizer uma determinada palavra num evento) ou de uma decisão concreta que o Presidente A ou B possa vir a tomar.
O mito de “ganhar fácil” e o aviso do “The Wall Street Journal” (“WSJ”)
Ainda mais grave é a perceção distorcida que frequentemente rodeia as apostas. Quem joga parte do princípio de que vai ter sucesso, e histórias de vencedores não faltam. Só que a realidade, na maioria dos casos, é outra.
O jornal “The Wall Street Journal” (“WSJ”) contava esta semana que apenas uma pequena fatia dos apostadores - os ‘tubarões’ - consegue ganhar dinheiro no Polymarket. A maioria perde. Trata-se de um mercado de soma nula: o que uns ganham corresponde ao que outros perdem. Não há forma de todos ganharem simultaneamente.
O aviso do “WSJ” devia ser leitura obrigatória. Em todo o lado e, em particular, para os portugueses que, todos os anos, gastam milhares de milhões em apostas, entre raspadinhas, casinos e tantas outras modalidades. Fica a recomendação: quando um “investimento” parece bom demais para ser verdade, provavelmente não é verdade.
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