O ibuprofeno está entre os medicamentos mais usados e é presença habitual em quase todas as casas. Por isso, muita gente recorre a ele de forma automática, sem grande ponderação.
No entanto, no início da gravidez, a perceção muda por completo. Um comprimido para a dor de cabeça pode passar a parecer um risco, e é comum muitas mulheres ficarem inseguras.
Perante essa dúvida, algumas optam por não tomar nada; outras acabam por se baralhar com recomendações contraditórias.
Um estudo recente veio clarificar o tema. Para perceber se fármacos como o ibuprofeno influenciam o desenvolvimento do bebé nas primeiras semanas, investigadores analisaram mais de 250.000 gravidezes.
A dor não desaparece
A gravidez não impede que surjam problemas de saúde. Continuam a ocorrer febres, as dores de cabeça mantêm-se e as dores no corpo podem interferir com a rotina.
Além disso, ignorar estes sintomas nem sempre é a opção mais segura. A febre no início da gravidez pode prejudicar um bebé em desenvolvimento. A dor também pode afetar a saúde mental e aumentar os níveis de stress.
Por isso, nem sempre “não fazer nada” é a melhor escolha.
Na prática clínica, recorre-se frequentemente a um grupo de medicamentos chamados AINEs (anti-inflamatórios não esteroides). Entre eles estão o ibuprofeno, o diclofenac e o naproxeno - e muitas mulheres acabam por os tomar nos primeiros meses de gestação.
No passado, a evidência não foi consistente: alguns trabalhos apontavam para a possibilidade de malformações; outros não encontravam qualquer associação. O resultado foi incerteza para muitas pessoas.
Acompanhamento do uso de medicamentos durante a gravidez
Esta nova investigação avaliou gravidezes no sul de Israel ao longo de 20 anos, reunindo dados de mais de 264.000 gravidezes.
Em cerca de 7,6% dos casos houve utilização de AINEs nos três primeiros meses, sendo o ibuprofeno o medicamento mais frequente.
Os investigadores basearam-se em registos pormenorizados, que permitiram cruzar consumo de medicamentos, visitas hospitalares e o estado de saúde do bebé até um ano após o nascimento.
“Utilizámos dados do SiPREG, um grande registo de gravidezes no sul de Israel que acompanha o uso de medicamentos e os resultados da gravidez, incluindo defeitos congénitos identificados não só no nascimento, mas também em interrupções da gravidez e durante o primeiro ano de vida”, assinalou a Dra. Sharon Daniel, da Universidade Ben-Gurion do Negueve.
Sem aumento do risco de defeitos congénitos
As mulheres que tomam analgésicos muitas vezes já estão doentes. Podem ter febre, infeções ou outras condições clínicas - e essas situações, por si só, podem influenciar os resultados da gravidez.
Para reduzir este efeito, os investigadores compararam grupos semelhantes e ajustaram a análise a fatores como idade, estado de saúde e estilo de vida, de modo a obter uma resposta mais fiável.
Numa primeira observação, parecia existir um risco superior: os defeitos congénitos surgiam ligeiramente mais vezes entre quem tinha tomado AINEs.
No entanto, depois de uma análise adequada, essa diferença deixou de existir. O resultado final não indicou aumento do risco de defeitos congénitos major.
A equipa avaliou ainda categorias específicas de alterações, incluindo problemas cardíacos, perturbações no desenvolvimento cerebral e fenda palatina.
Também aí não foi identificada uma ligação clara entre o uso de AINEs e qualquer uma destas condições.
Resultados para diferentes medicamentos
Quando analisados separadamente, ibuprofeno, diclofenac e naproxeno apresentaram padrões semelhantes. Nenhum deles esteve associado a um aumento do risco de defeitos congénitos.
“Examinámos se analgésicos comuns do grupo dos AINEs, como o ibuprofeno, estão ligados a defeitos congénitos. Não encontrámos aumento do risco, nem no total nem em tipos específicos de defeitos congénitos”, afirmou a Dra. Daniel.
O estudo avaliou igualmente se uma maior exposição ao medicamento alteraria o risco.
Mesmo com utilização mais prolongada, não se observou um aumento claro de defeitos congénitos após o ajuste estatístico apropriado.
Preencher as lacunas dos dados
Como o ibuprofeno pode ser comprado sem receita médica, nem toda a utilização fica registada.
Os investigadores testaram até que ponto essa ausência de registo poderia alterar as conclusões.
“Uma das partes mais interessantes desta investigação foi encontrar uma forma cuidadosa de lidar com lacunas em dados do mundo real”, disse o coautor Dr. Ariel Hasidim.
“Uma questão-chave era que algumas pessoas podem ter usado medicamentos comuns como o ibuprofeno sem que isso ficasse registado, o que poderia afetar os resultados.”
“Enfrentámos isto diretamente ao usar uma análise especial para perceber se - e como - esta informação em falta poderia ter influenciado as nossas conclusões.”
Mesmo ao considerar esta falha de registo, os resultados mantiveram-se.
Orientações mais claras para grávidas
O estudo não conseguiu acompanhar abortos espontâneos muito precoces. Também não incluiu pormenores como rendimento ou nível de escolaridade.
Assim, apesar de não ser perfeito, continua a ser um dos trabalhos mais robustos sobre este tema.
No essencial, os dados são tranquilizadores: tomar AINEs como o ibuprofeno no início da gravidez não parece aumentar o risco de defeitos congénitos major.
Esta evidência facilita recomendações mais claras por parte dos médicos e pode dar maior confiança às mulheres quando precisam de gerir dor ou febre.
O estudo sublinha ainda um ponto importante sobre a investigação científica: resultados preliminares podem parecer alarmantes, mas análises rigorosas podem alterar a interpretação.
Neste caso, a conclusão final é direta: estes analgésicos comuns não parecem prejudicar a gravidez precoce da forma que anteriormente se temia.
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