A maioria dos cientistas, se for desafiada a fazê-lo, consegue apontar o artigo científico que mais abalou a sua forma de pensar e acabou por orientar o rumo da investigação que viria a desenvolver. Quase sempre esse momento acontece na pós-graduação, um ou dois anos antes de publicarem qualquer trabalho em nome próprio.
O que muitos não antecipam é até que ponto esse artigo continua a puxar por tudo o que escrevem a partir daí.
Um estudo recente acompanhou 12,5 milhões de carreiras científicas entre 1960 e 2020, observando quem citou o quê - e em que momento. O resultado foi a identificação de um desvio mensurável na natureza das publicações à medida que os cientistas envelhecem, com efeitos que vão muito para lá de um único laboratório.
Um padrão à escala
Investigadores da University of Pittsburgh (Pitt) e da University of Chicago (UChicago) analisaram 12,5 milhões de percursos científicos, registando quem citava o quê, e quando.
O padrão repetiu-se: investigadores mais velhos apoiam-se mais em fontes antigas e aproximam-se de ideias mais antigas. Este fenómeno passou a ter um nome: o efeito nostalgia.
“Há uma ligação entre memória e inovação - a forma como te ligas ao passado influencia a forma como te posicionas no presente”, explicou Lingfei Wu, professor assistente na Escola de Computação e Informação da Pitt e autor sénior do estudo.
Dois tipos de investigação criativa
A equipa separou a investigação criativa em duas categorias: disruptiva e inovadora.
Um artigo de investigação disruptiva é aquele que, mais tarde, passa a ser citado sem que os seus antecessores mais antigos - o trabalho anterior que substitui - continuem a aparecer nas referências; esse trabalho prévio sai do radar. Já um artigo inovador pega em ideias antigas e combina-as de formas que ninguém tinha ligado antes.
Ambos fazem avançar o conhecimento científico; apenas entram por portas diferentes. Em média, cientistas mais jovens tendem a fazer mais do primeiro tipo. Os mais velhos, mais do segundo.
Um relógio nas citações
Ao longo de 12,5 milhões de carreiras, a equipa encontrou um efeito subtil mas marcante: por cada ano que um investigador envelhece, a idade média dos artigos que cita nas suas próprias publicações aumenta cerca de um mês.
Numa carreira longa, este acréscimo acumula-se. Antes deste estudo, ninguém tinha quantificado esta taxa à escala do sistema científico.
Análises anteriores já tinham indicado que, no conjunto da ciência, os artigos de investigação disruptiva têm vindo a rarear ao longo de décadas. O que este trabalho faz é aproximar a lente do indivíduo, acompanhando cientista a cientista, ano após ano.
A ideia que fica
Em qualquer carreira científica, existe um artigo que acaba por ser citado mais do que todos os outros. Em regra, esse artigo foi publicado cerca de dois anos antes do primeiro artigo do próprio cientista - precisamente quando estava a começar. É na pós-graduação que se forma o gosto. E, depois de formado, tende a manter-se.
“Ficas preso a um certo tipo de ideia ou ‘gosto’, e com o passar do tempo continuas preso a isso. Vemos isto acontecer uma e outra vez”, afirmou Wu.
A influência desce na hierarquia
O efeito nostalgia não fica fechado na mente de uma pessoa. Ao compararem versões preliminares em pré-publicação com as versões finais publicadas, os investigadores observaram que, no artigo publicado, as citações inclinavam-se mais para trabalhos antigos do que no rascunho original.
Alguma coisa mudou durante a revisão por pares. A leitura dos dados sugere que avaliadores mais velhos tendem a empurrar autores mais jovens na direcção de fontes mais antigas.
Além disso, investigadores seniores que lideram laboratórios transmitem esse mesmo gosto aos seus estudantes. Assim, o padrão percorre dois pontos de estrangulamento centrais na publicação moderna: a orientação e a revisão por pares.
O próprio Wu reconhece identificar o fenómeno em si. Tendo sido formado em teoria de redes quando era estudante, dá por si a recomendar aos seus orientandos artigos com duas décadas.
Para lá do indivíduo
O padrão também aparece quando se olha para países inteiros. Comunidades científicas com demografias mais jovens - como as da China e da Índia - produzem, em média, mais investigação disruptiva do que comunidades mais envelhecidas, como a dos Estados Unidos.
Parte desta dinâmica liga-se directamente a políticas norte-americanas. Desde 1994, quando a reforma obrigatória foi abolida para docentes universitários, a camada sénior só cresceu. Regras de financiamento que valorizam a experiência reforçaram o mesmo movimento. O resultado é um núcleo envelhecido no centro da ciência norte-americana.
O argumento a favor da memória
Há valor nisto que não deve ser perdido. Recombinar não é falta de criatividade - é uma forma real de criação. Mantém uma área ligada ao seu próprio passado: o conhecimento acumulado que regista o que já foi tentado e o que já foi testado. Os cientistas mais velhos seguram esse fio.
Mas quando os investigadores seniores passam a dominar quais os trabalhos que são citados e lembrados, menos ideias novas de investigação disruptiva conseguem abrir caminho.
O que poderia mudar
Até este estudo, a ligação entre envelhecimento e investigação disruptiva tinha sido mais discutida do que medida. Max Planck disse, em 1950, que a ciência avança um funeral de cada vez.
Ao analisar 12,5 milhões de carreiras, este trabalho é o primeiro a colocar números concretos na parte em que Planck acertou - os artigos disruptivos diminuem com a idade. E também na parte que ele não viu - cientistas que envelhecem continuam a criar, só que sobretudo por via da combinação.
Wu e os seus coautores propõem colaborações intergeracionais em que as vozes juniores tenham peso real nas decisões sobre o que se cita e o que se decide investigar.
Já se demonstrou que equipas pequenas tendem a causar disrupção na ciência, enquanto equipas maiores tendem a consolidá-la. As entidades financiadoras poderiam reequilibrar bolsas e projectos a favor de quem está no início da carreira e assume risco. E, nesta leitura, a política de vistos é também política de inovação.
“ A ciência precisa tanto de continuidade como de renovação”, disse Wu.
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