Na sequência da apresentação do Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), o primeiro-ministro deslocou-se ao Parlamento para reafirmar a promessa de apoios: €22 mil milhões. Do outro lado do hemiciclo, o líder do PS ergueu dez páginas onde juntava as reclamações que lhe tinham sido transmitidas por 23 municípios: “Não tenho tempo para lhe ler todas.” O Expresso percorreu os concelhos atingidos e deparou-se com “mil e um problemas” que o poder local tenta resolver, a par de um sentimento de “abandono” que se agrava à medida que as respostas se atrasam. Passam 100 dias da tragédia.
Monte Redondo
Ainda “não está tudo bem”
Em Monte Redondo, dos quase três mil hectares de floresta, aproximadamente metade ficou danificada. Foi uma das duas freguesias mais atingidas em Leiria, e aqui havia muitos madeireiros e resineiros cujo trabalho “foi à vida”, além de pequenos proprietários que retiravam rendimento dos seus pinhais. “Ficámos praticamente sem floresta”, relata a presidente da Junta, Ana Carla Gomes, ao volante, enquanto aponta para terrenos que eram pinhal cerrado e que agora se apresentam mais ou menos despidos.
A professora tinha assumido funções havia apenas três meses, no seu primeiro mandato, e a freguesia estava em plena desagregação - um processo que compara a “criar uma empresa nova”, com toda a carga burocrática associada. Hoje custa-lhe encontrar palavras para descrever aquele primeiro mês. Na véspera do temporal, a reunião do executivo terminou às 23h. “Não havia uma brisa, estava um tempo muito estranho, um silêncio assustador”, mas, assim que o vento começou, “ninguém dormiu”.
“No sector das comunicações nada foi feito. Postes tombados e fios pelo chão. Ainda não sabemos nada relativamente às despesas do socorro”
A partir desse momento instalou-se o “caos”, num “cenário dantesco”, e depois vieram as cheias. A Junta trabalhou durante um mês sem descanso e as pessoas sucediam-se à porta, sem parar. “Apercebi-me de que era Carnaval porque vi uma criança mascarada na rua”, conta. Ao mesmo tempo, descreve como privados, empresas e associações locais se “uniram”. Vieram voluntários de todo o país: do Alentejo chegaram geradores para emprestar a famílias; de Almada, um grupo veio durante dois fins de semana com motosserras para desimpedir caminhos.
No total, a freguesia passou um mês sem eletricidade, duas semanas sem água e, ainda hoje, há quem continue sem comunicações. A tempestade trouxe à tona “casos sociais mascarados”. Houve pessoas que chegaram a ameaçar suicídio. O apoio mais imediato veio da autarquia: além do contacto permanente entre Câmara e freguesias, a Câmara adiantou verbas às Juntas e enviou psicólogos e assistentes sociais. No terreno, não faltam elogios às Câmaras Municipais.
Criou-se uma “bolha” em que o “espírito de entreajuda” supriu o que não chegou do Estado central, descreve a presidente. Mesmo agora, “muito poucas pessoas receberam alguma coisa” e não percebe por que motivo não houve maior mobilização do Exército e de apoio internacional. “O que me custou mais foi o sentimento de impotência. Tinha pessoas a chorar e queria ajudá-las, mas não sabia como. Não tinha meios para fazer mais” - e sublinha que “ainda há muito trabalho”.
Bidoeira de Cima
“Em quem confiávamos foi quem nos virou as costas”
Na Bidoeira de Cima, a mãe de Jorge Outeiro (com mais de 80 anos) e a irmã (com 80% de incapacidade) continuam, há três meses, a cozinhar num fogão de campismo. O vento arrancou parte do telhado e destruiu a chaminé. O filho e o cunhado “arriscaram a vida” para colocar telhas e lonas (algumas oferecidas pela autarquia) e tentar travar a entrada de água. Ainda assim, os estragos no interior foram quase totais: eletrodomésticos avariados, mobiliário inutilizado e até roupa teve de ser deitada fora.
Fora esses remendos, pouco mudou por causa de um conflito com a seguradora que se prolonga desde 30 de janeiro. A família acusa o perito (que só se deslocou à habitação cinco semanas depois) de atuar de “má-fé”. “Fui repetidamente chamado de mentiroso, de dramático, acusado de ter criado danos onde eles não existiam”, afirma. Os orçamentos que reuniu apontam para €40 mil de prejuízos (€20 mil só no telhado), mas, ao tentar entregar documentos em falta, descobriu que o processo tinha sido encerrado e que lhe tinham transferido cerca de €7 mil. Fez várias reclamações e pediu intervenção do provedor, mas diz que “foi ignorado”.
“Indefinição de muitas situações na área da Proteção Civil, dificuldade na contratação de meios para desobstruir o imenso material lenhoso tombado nos caminhos”
A família não pretende avançar para tribunal. O que pede é uma nova avaliação, feita por um perito diferente. Entretanto, ativaram outros seguros na mesma seguradora para lojas no rés do chão e para outra casa, sem incidentes. “Eu fiz tudo bem feito para salvaguardar a minha mãe, para ter sossego. Até seguro para risco de sismos fiz”, desabafa. “Temos seguro. Não temos de recorrer ao Estado. Em quem confiávamos mais, que eram as companhias de seguros, foi quem nos virou as costas.”
Em Leiria, os danos nas habitações são visíveis a olho nu. Segundo a Câmara, foram submetidas até agora 10.711 candidaturas à recuperação. Só na Bidoeira de Cima há 261 candidaturas, no valor de €1,6 milhões. O município tem ainda 59 desalojados instalados em casas modulares, mas permanece por apurar quantas pessoas passaram a viver em casa de familiares.
Cardigos
O “carinho” da Presidência
A 100 km, Sérgio Martins também ficou sem telhado e acabou por ir viver com a companheira. As perdas na casa rondam os €80 mil, a que se juntam €400 mil de prejuízos na empresa. A água danificou produto acabado e matéria-prima. Em Cardigos (Mação), o vento amolgou a fábrica de velas e a produção esteve parada durante três semanas. “Tive sorte, porque o pavilhão das máquinas não apanhou grandes estragos. Senão, não estávamos aqui a falar agora”, diz, com a emoção percetível na voz, o proprietário da Vip Indústrias. Em vez de reduzir pessoal, manteve os 14 trabalhadores e ainda contratou mais dois para apoiar as limpezas e substituir uma máquina que avariou.
“Faltam orientações da tutela, temos o verão à porta e todas as infraestruturas municipais relacionadas com turismo estão destruídas”
“Até hoje ainda não tive um cêntimo de apoio”, garante. Tanto o seguro como os apoios estão bloqueados na “burocracia”. No início de abril, a unidade foi uma das paragens da Presidência Aberta. “Foi agradável. O Presidente pode pressionar o Governo, mas não tem poder de decisão. Pode ver o que aconteceu e sensibilizar”, observa. “Dá sempre ânimo, para mais numa zona bastante afetada. Dá carinho, amizade e confiança às pessoas”, confirma o comandante Pedro Jana, também presente na visita.
Para Sérgio Martins, esta é a segunda reconstrução da fábrica, depois de dois incêndios. “Isto foi um mal para todos. Agora, se nos sentimos abandonados? A gente sempre se sentiu”, comenta. “Tenho mais medo da guerra que andam a fazer, porque o meu sector depende do petróleo e a parafina já aumentou 20%. De resto, desde que haja vontade para trabalhar [vai-se recuperando].”
Bombeiros
Quartéis em tendas
Em Pedrógão Grande, o parque de viaturas dos Bombeiros Voluntários tem, neste momento, tendas do INEM a funcionar como camaratas. A reabilitação do quartel, com danos estruturais, está estimada em meio milhão de euros - e as obras ainda nem sequer arrancaram. O odor mantém-se intenso, apesar dos desumidificadores; há salas expostas e ouve-se pingar mesmo quando não chove. “Temos seguro, mas ainda não obtivemos qualquer decisão da seguradora”, sublinha o comandante Augusto Arnaut. “Todos os governantes que nos visitaram viram as condições em que trabalhamos.” A alternativa temporária encontrada pelo município foi transferir o quartel para a zona industrial, mas os custos dos contentores terão de ser suportados pela associação. “Servimos uma comunidade, onde o socorro nunca esteve em causa, agora que precisamos de ajuda tudo ficou esquecido”, protesta.
Em Cardigos, a secção dos Bombeiros Voluntários de Mação está encerrada, mas o município - proprietário do edifício - já iniciou as obras. “Chovia lá dentro como na rua”, descreve o comandante Pedro Jana. Durante mês e meio, os dois quartéis ficaram sem comunicações fixas; e, fora das sedes de freguesia, o problema persiste, ao ponto de chamar o 112 poder implicar subir para zonas mais elevadas. “As empresas de telecomunicações não se preocupam com o interior”, lamenta, explicando que foram os próprios bombeiros a fixar postes em risco de queda. População, autarquia e bombeiros queixam-se de não obterem resposta às reclamações.
“Precisamos de saber dos apoios para a Cultura e que o Ministério da Agricultura seja mais célere, pois temos candidaturas submetidas há meses sem resposta”
Em Monte Redondo, o vento arrancou os portões do parque de viaturas dos Bombeiros Voluntários, levantou a cobertura e causou danos estruturais, deixando várias viaturas encurraladas. Mesmo com vidros partidos e capôs amolgados, esses veículos foram usados no socorro logo nos primeiros dias. “As ocorrências eram tantas que tivemos de reaproveitar os veículos”, explica o comandante Paulo Grilo. A reconstrução está agora a arrancar e conta com financiamento público, mas as viaturas seguiram para reparação por conta da corporação, que sofreu estragos ainda mais extensos no quartel-sede, em Leiria. “Depois haverá de se arranjar solução.”
Leiria
A “fava” da floresta
Para os agentes de proteção civil, a maior inquietação, nesta fase, é o verão. “A madeira no chão é pinho, resinoso e seco. A carga térmica será muito grande” e continuam a existir caminhos obstruídos, alerta Paulo Grilo. Só na sua freguesia já foram identificadas duas ignições. Em Leiria, dos 420 km de caminhos afetados, a autarquia já limpou “cerca de 200 km”. Estavam no terreno cerca de oito milhões de árvores derrubadas, algo que será “impossível” remover antes do verão. “É um desafio completamente novo” num território de “parcelas muito pequenas e dispersas” e com múltiplos proprietários, assinala o vereador Luís Lopes.
A Câmara prepara uma operação temporária em que assume o papel de “gestor de emergência” para proceder à limpeza dos terrenos. A prioridade passa por criar um “perímetro seguro” junto a zonas habitacionais, industriais e vias rodoviárias. Não era esta a solução defendida pelo município - que tinha pedido uma mobilização nacional ou a organização do próprio sector -, mas foi a “fava que calhou”, e o vereador garante que a Câmara continuará a “dar a cara”.
“Não foram pagos quaisquer apoios. (...) Esta situação deve-se, em grande medida, à excessiva burocracia imposta pelo Governo, que tem vindo a atrasar todo o processo”
“Estamos muito focados em reduzir o perigo, mas também queremos já começar a trabalhar com as pessoas para que não se sintam abandonadas.” Por agora, no terreno, estão a ser promovidas sessões de esclarecimento sobre as operações previstas para os próximos meses. Ao final da tarde desta terça-feira, reuniram-se mais de 50 proprietários e madeireiros na União de Freguesias de Parceiros e Azoia. Nas perguntas nota-se a inquietação de quem não sabe como agir nos seus terrenos, e ouvem-se igualmente desabafos sobre os apoios: “Chegam tarde.”
“Eu já não vou ver a floresta de Leiria como verdadeira floresta e estas pessoas têm essa noção.” Muitas têm idade avançada, mas querem contribuir. Existe uma “questão emocional” quando se trata de terrenos herdados dos avós, explica o vereador.
Porto de Mós
Uma estrada para breve
Em Porto de Mós, a chuva danificou o alcatrão da EN 243. Três colapsos ditaram o corte total e deixaram duas freguesias isoladas da sede do concelho. A Câmara “reagiu muito rapidamente”, assegura Carla Santos, proprietária de um dos três restaurantes de Alcaria, a aldeia mais próxima do local interrompido. Com a ajuda do Exército, foi possível asfaltar uma alternativa, que acrescenta apenas “cinco ou dez minutos” ao percurso.
Ainda assim, a aldeia sentiu o impacto na atividade económica. Carla Santos calcula uma quebra de 30%, sobretudo entre os clientes das diárias que trabalham em Porto de Mós e têm o tempo de almoço contado. A nova estrada é estreita, tem curvas perigosas e, no inverno, o “nevoeiro é cerrado”. Agora, os habitantes - em especial os mais velhos - evitam deslocar-se a Porto de Mós. “Não gostam desta estrada, não estão habituados”, diz Carla. O problema maior é para o tráfego pesado, já que esta via era uma ligação relevante à A1.
A demora levou o PS a interpelar o ministro das Infraestruturas e Habitação no final de abril. Esta semana, a autarquia comunicou que a Infraestruturas de Portugal indicou que o projeto final já está adjudicado e que a obra deverá arrancar “no mês de junho/início de julho”. É mais um mês somado aos 100 dias.
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