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Trump, o Irão e o estreito de Ormuz: do bluff à procura de um acordo

Mapa com bandeiras dos EUA, Irão, China e Israel, miniaturas de navios, gravata vermelha e figuras numa sala de reuniões.

O bluff é uma manobra antiga, muitas vezes escolhida por quem parte em desvantagem num confronto. O regime do Irão domina esse jogo e percebe que, com as eleições para o Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) cada vez mais próximas, o Presidente Donald Trump enfrenta forte pressão - interna e externa - para reclamar uma vitória e encerrar depressa a guerra.

Ainda assim, não é só bluff. Teerão habituou-se a operar sob pressão máxima e vive há anos com sanções económicas duríssimas. Neste momento, sente que tem pouco a perder, enquanto o conflito beneficia a Guarda Revolucionária Islâmica, que aproveitou a crise para consolidar poder. Já Trump terá dificuldade em vender qualquer entendimento como um triunfo, porque terá de tocar nas causas centrais que empurraram as partes para a guerra - incluindo o enriquecimento nuclear do Irão e a interrupção do seu percurso rumo ao desenvolvimento de uma arma nuclear.

No primeiro mandato, Trump retirou os EUA do acordo assinado por Barack Obama em 2015; agora, quer apresentar qualquer novo compromisso como mais vantajoso do que o do seu antecessor. Nesse entendimento, Teerão comprometia-se a limitar o enriquecimento durante 15 anos e a impor um tecto às reservas de urânio. Só que a liderança iraniana de hoje é mais intransigente do que em 2015 e sabe também quão simples pode ser bloquear o estreito de Ormuz e torná-lo impraticável.

O efémero Projeto Liberdade

As diferentes respostas do Irão ao Projeto Liberdade de Trump (que prometia repor a navegação de embarcações pelo estreito) acabaram por evidenciar quão pouco credível era a missão, depois de Teerão mostrar que bastam ameaças - ou alguns mísseis contra petroleiros - para fazer recuar capitães e comandantes, avessos a correr riscos.

“\“O ataque à instalação petrolífera dos Emirados Árabes Unidos fez subir os preços do petróleo e convenceu Trump a recuar e a reduzir a tensão, tendo suspendido o Projeto Liberdade menos de 48 horas depois de o ter anunciado com grande alarido\”, lembra Jamie Shea, antigo vice-secretário-geral-adjunto para os Desafios Emergentes de Segurança da OTAN. \“É uma grande mudança de rumo\”, afirma ao Expresso.”

Segundo este especialista, a nova orientação “parece sugerir que os EUA retomaram firmemente o rumo diplomático, embora seja impossível saber se é verdadeira a declaração de Trump de que Washington e Teerão estão perto de um acordo (e que o Irão quer mesmo um acordo agora)”.

Apesar disso, tanto os EUA como o Irão procuram reduzir a influência do adversário, enquanto tentam projectar força para futuras negociações. Na quarta-feira, pouco depois de Trump voltar a lançar um ultimato a Teerão - exigindo que aceite um acordo ou enfrente outra vaga de bombardeamentos “de nível e intensidade muito maiores do que antes” -, militares norte-americanos dispararam contra um petroleiro com bandeira iraniana.

Netanyahu quer guerra

No Líbano, as hipóteses de paz ficam igualmente mais enredadas. O ataque de Israel ao bairro de Dahiye, em Beirute, e o assassínio de Ahmed Ali Balout, comandante da Força Radwan - unidade de elite do Hezbollah (partido político e movimento islamita que o Governo israelita responsabiliza pela coordenação dos ataques a norte de Israel) - constituem mais um revés para o grupo apoiado pelo Irão.

“Provavelmente procurará vingança”, antecipa Yaniv Voller, professor de Política do Médio Oriente na Universidade de Kent, referindo-se ao Hamas, e defendendo que Israel - e em particular o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu - está “com interesse na reativação da guerra no Irão”. A confirmar-se, “atacar o Hezbollah pode fazer parte dessa estratégia”. Voller admite, em alternativa, que os ataques integrem antes a tentativa israelita de pressionar o Presidente do Líbano, Joseph Aoun, a reforçar a actuação do Estado libanês contra o grupo xiita.

“A janela para uma ação militar está a fechar-se”

Osamah Khalil
Perito em assuntos do Médio Oriente

O que vier a acontecer no estreito dependerá, em grande medida, de um acordo entre Trump e o regime iraniano. Por isso, Voller considera provável que tanto Trump como o Irão tentem disciplinar os seus aliados. “O Irão pressionou o Hezbollah para entrar em conflito com Israel, e deverá ter influência suficiente para conter a reação do grupo. Trump também já demonstrou vontade de impor limites às manobras israelitas na Faixa de Gaza, e pode exercer pressões semelhantes no Líbano.”

O cessar-fogo entre os EUA e o Irão é delicado e carregado de tensão, mas continua em vigor. Em paralelo, analistas têm repetido que, no essencial, este conflito não tem saída militar. “Embora Washington e Teerão estejam a emitir declarações belicosas, nenhum dos dois parece ansioso por retomar os combates”, observa Osamah Khalil, historiador das relações externas dos EUA e do Médio Oriente moderno. Com a chegada iminente do verão ao Golfo Pérsico, “a janela para uma ação militar está a fechar-se”, acrescenta Khalil. “Os EUA não possuem forças suficientes para lançar e sustentar uma invasão terrestre, e o seu bloqueio naval é permeável.” Ao mesmo tempo, o Irão “pode manter o controlo sobre o estreito de Ormuz indefinidamente, o que terá consequências devastadoras para a economia global”, sublinha o historiador.

A solução política

A pausa nos combates funciona agora como um teste: perceber se as partes conseguem transformar o cessar-fogo em algo duradouro. Investigadores avisam que, quanto mais tempo Trump insistir numa posição negocial maximalista sem aceitar a realidade no terreno, mais severos poderão ser os efeitos no abastecimento global de energia e alimentos. “A questão é que tipo de acordo pode ser feito que salve as aparências”, admite John Strawson, perito em Estudos do Médio Oriente na Universidade do Leste de Londres.

Do lado iraniano, existe a intenção de separar o fim da guerra do dossiê nuclear. Já os EUA pretendem um entendimento abrangente. “A questão principal é a abertura do estreito de Ormuz, que os EUA perceberam que não pode ser feita até que haja um fim das hostilidades”, frisa Strawson. Estão cerca de 1550 navios à espera de passagem, e o Projeto Liberdade - de vida curta - conseguiu fazer passar dois petroleiros em dois dias.

Xi Jinping à espera

A China recebe cerca de 37% do seu petróleo através do estreito, o que, nas palavras de Strawson, “coloca enorme pressão sobre Trump, que planeia o seu encontro com Xi Jinping ainda este mês” (ver pág. 34). O Presidente dos EUA, que aterra em Pequim no dia 14, precisa de apresentar algum avanço - e os iranianos sabem-no.

Nas negociações intermitentes através do Paquistão, o Irão poderá propor um acordo simbólico na frente nuclear e, em paralelo, prometer novas conversações. “O que os EUA podem fazer é exatamente o que a Administração Obama fez: negociar com os iranianos um adiamento das suas ambições nucleares, em vez de as impedir por completo”, sustenta o investigador de Estudos do Médio Oriente. Isso poderá bastar para os EUA proclamarem vitória.


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