“O que o fundo do mar nos diria amanhã, se esvaziado de água hoje?”
A pergunta, projetada para um tempo que ainda não chegou, propõe o fundo do oceano como território da memória - e também como sepultura de violências e tragédias que atravessam a história humana. É daí que nasce a nova criação da artista plástica Grada Kilomba.
A obra poderá ser vista a partir de 30 de maio, na Fundação Albuquerque, em Sintra.
Grada Kilomba e “O Fundo do Mundo” na Fundação Albuquerque, em Sintra
Grada Kilomba, uma criadora com reconhecimento global e atualmente a viver entre Lisboa e Berlim, dá a esta exposição o título “O Fundo do Mundo”. Reúne um conjunto de trabalhos inéditos em Portugal, entre os quais se destaca a instalação escultórica “18 versos”: blocos de madeira queimada, dispersos e envolvidos em tecido preto, que sugerem um barco naufragado e remetem para as "dramáticas rotas migratórias que atravessam as águas do Mediterrâneo.”
Esta peça funciona como variação da obra monumental “O Barco”, mostrada pela primeira vez em Lisboa na BoCA - Bienal de Arte Contemporânea, em 2021, e atualmente patente em Inhotim, Minas Gerais, no Brasil, até setembro de 2026.
Uma crítica às violências cíclicas e ao avesso da “glória” humana
Em “O Fundo do Mundo”, a artista desce à repetição das violências: da escravatura ao colonialismo, das guerras sucessivas às crises climáticas e aos atuais genocídios trágicos. O percurso é pensado como um mergulho no reverso da ‘glória’ humana - aquela que se oculta nas profundezas do oceano.
Nas suas próprias palavras, “a função da arte é lembrar-nos da nossa humanidade. Com a linguagem do inconsciente fala dos temas mais impossíveis e incompreensíveis.”
Tratando-se da primeira grande exposição individual de Grada Kilomba em Portugal - uma das artistas portuguesas mais relevantes e internacionais da sua geração - o que esteve silenciado durante séculos no inconsciente coletivo passa a ocupar o centro da conversa. E, depois de destapar e nomear o que ficou para trás, sugere-se um outro modo de olhar para o poder, para o conhecimento e para o futuro.
É uma obra que incomoda porque nomeia séculos de opressão, exploração, matança e ganância, ajudando a explicar os racismos que persistem de forma sistémica na sociedade.
Mas pode também ser entendida como uma criação que abre e ilumina, se aceitarmos que não há avanço possível enquanto o passado da humanidade continuar a ser lembrado com “visões delirantes” e “infantis”.
O podcast: arte, reparação e o debate pós-colonial
O que poderá a arte provocar no imaginário coletivo? Pode reparar, reimaginar, reconciliar, reaproximar? Consegue abrir novas consciências e outras hipóteses de futuro? Grada responde neste podcast.
As obras da artista são assumidamente políticas, porque, para Grada, “toda a arte é política”.
E, ao mesmo tempo, movem-se entre a subversão e a vanguarda: são pensadas em grande escala, com dimensão imersiva, e desdobram-se por performance, dança, vídeo, texto, escultura, instalação e paisagens sonoras.
Grada descreve o seu trabalho como uma “desobediência doméstica”, onde imagens poéticas e radicais - entre o belo e o grotesco - interrompem o imaginário coletivo e o ciclo daquilo a que chama “prevalente violência histórica”, quer nas narrativas, quer nas arquiteturas, dentro e fora, no espaço público.
Ainda vivemos num lugar de negação, repetição e glorificação do passado colonial português, ou já o ultrapassámos?
Como desfazer armadilhas e sair dos ciclos de violência da História, dos ódios e das trincheiras?
O que importa dizer e recordar - e o que já não é relevante? Em que ponto estamos no debate pós-colonial?
E, já agora, que cansaços, irritações, saturações e fadigas certas questões transportam consigo?
São estas as perguntas que lhe são colocadas.
Surge também a frase da filósofa, teórica e ativista norte-americana Angela Davis: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela". É assim?
Recorda-se ainda que Grada Kilomba, autora do livro “Memórias da Plantação - episódios de racismo quotidiano”, antes de se afirmar como artista, estudou em Lisboa ‘Psicologia e Psicanálise’.
Mais tarde, concluiu um doutoramento em Filosofia na Alemanha, lecionou em duas faculdades em Berlim e, em abril de 2023, recebeu o título de doutora honoris causa, pelo ISPA.
A artista explica que, para si, arte e psicanálise se tocam “ao trazerem para a superfície o inconsciente”, permitindo resolver, compreender e tornar visíveis problemas, feridas e traumas que permanecem no subterrâneo da memória.
A arte ganha um peso ainda maior quando a esperança no mundo parece moribunda e o céu dá a sensação de cair sobre nós? A conversa em podcast abre precisamente neste ponto.
Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado por A Garota Não. Os retratos são da autoria de José Fernandes. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário