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A esquerda, o PS e o preconceito de classe em Portugal

Três pessoas conversam intensamente numa esplanada, com jornais e café na mesa e rua urbana ao fundo.

Preconceito de classe nas bolhas de esquerda

Há qualquer coisa de involuntariamente cómico em ver certas pessoas de esquerda exibirem uma superioridade moral e repetirem que a esquerda não pode ser preconceituosa, precisamente porque combate preconceitos.

A graça amarga está no facto de muitas bolhas de esquerda serem tão fechadas e julgadoras como as antigas bolhas do “sangue azul” e, não raras vezes, a esquerda acaba até por partilhar com os aristocratas um velho desprezo de classe dirigido aos mais pobres.

O caso Cavaco Silva e a snobeira das elites

Como sublinha António Araújo - que tem prestes a sair uma biografia de Cavaco Silva -, as elites intelectuais de esquerda detestavam Cavaco por causa das suas origens. Não lhe perdoavam a falta de paciência (ou de hábito) para os rituais do salão e do jantar social; e juntavam ainda a acusação de que o homem de Boliqueime “não tinha cultura”.

Vasco Pulido Valente foi o auge dessa snobeira que, curiosamente, aproximou elites de esquerda e elites de direita. Um desprezo que se intensificou no momento em que Cavaco se atreveu a ganhar eleições como mais ninguém. "Como é que podemos ser governados por um camponês de uma aldeia algarvia?" - era este o espírito, tanto na esquerda como no Independente.

A ausência de pedidos de desculpa

Foram poucos os que tiveram a elevação de Miguel Esteves Cardoso que, já maduro, reconheceu que tinham ido longe demais no preconceito contra Cavaco e o cavaquismo.

Do lado da esquerda, não conheço um único Miguel Esteves Cardoso - isto é, não conheço um único pedido de desculpa.

O futuro do PS e da esquerda em Portugal

É isto que me leva ao grande texto de Rita Tavares sobre o futuro do PS e da esquerda em Portugal. Vejo aqui duas linhas de força essenciais.

A primeira: a esquerda precisa de voltar a ligar-se ao povo, que em larga medida foi perdendo para as direitas e, sobretudo, para o Chega. A esquerda transformou-se num conjunto de gavetas - ambiente, feminismo, LGBT, antirracismo - sem verdadeira articulação entre si e, principalmente, sem ligação ao tema da pobreza.

Basta olhar para os assuntos que se tornam virais nos círculos de esquerda. Não é o facto de haver idosos pobres deixados ao abandono em hospitais; é a transição sexual possível se és homem e queres ser mulher, mas que não é possível se és homem gay e queres deixar de ser gay.

A pobreza deixou praticamente de contar como tema, a não ser quando o pobre é um imigrante negro ou muçulmano. Dos hábitos ambientais ao activismo animalista, passando pelo consumo cultural, a esquerda nem sequer procura esconder o desdém por um povo que gosta de tourada, pimba, "Preço Certo" e carros a gasóleo.

O que me leva ao segundo ponto: como pode a esquerda combater os populistas se nem sequer consegue ser popular?

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