Há pouco tempo escrevi um texto com o título “Portugal para principiantes”, em que levantei as mãos e admiti, sem rodeios, que apesar de vinte e tal anos a andar por este país maravilhoso continuo bastante verdinho. Isso não impediu, no entanto, que alguém deixasse o comentário: “Grrr, não percebes nada de Portugal, pá”. E é precisamente por isso que sinto que, com o que vem a seguir, me estou a esticar um bocado. Enfim: cá vai.
A nova hierarquia moral dos expatriados em Portugal
Parece que se instalou uma espécie de hierarquia moral em torno dos expatriados em Portugal. No topo - a brilhar como uma auréola de cânhamo ao sol ibérico - estão os Fora‑da‑Rede. Descalços, barbudos e muito provavelmente chamados Rowan, passam os dias a cavar a terra enquanto a cara‑metade, talvez de nome Sky, embala um bebé minúsculo chamado Fauna.
Logo abaixo de Rowan e companhia, a chapinhar na sua desgraça clorada, surgem os proprietários expatriados de moradias em Cascais e no Algarve. Segundo o evangelho da eco‑virtude, o primeiro grupo merece aplausos e o segundo um desprezo discreto.
Os evangelistas Fora‑da‑Rede e a estética da virtude
Os evangelistas da vida fora da rede anunciam que “saíram do sistema”, ao mesmo tempo que publicam no Instagram fotografias filtradas de pores do sol através de um router por satélite, alimentado por painéis solares feitos na China e enviados a meio mundo de distância num contentor do tamanho de Chatsworth.
Em vez de viverem numa casa ou numa casinha, muitas vezes moram numa iurta. Uma iurta pousada num terreno semi‑legal comprado a um senhor da terra chamado Rui. Há sanitas de compostagem, recolha de água da chuva e cabras com nomes como Fern e Solstice. E este tipo de vida é frequentemente celebrado como moralmente superior à de quem comprou uma moradia T4 em Cascais.
Os “vilões” de Cascais e do Algarve (e o que realmente fazem)
Vale a pena olhar para isto com mais atenção. Para começar, os nossos “malfeitores” de Cascais acordam em construções sólidas, erguidas com normas anti‑sísmicas. A canalização funciona; a electricidade também. O telhado da moradia não fica a bater ao vento como uma vela em aflição sempre que venta a sério, porque contratam profissionais locais para manter a casa com um zelo quase meticuloso.
Além disso, pagam IMI e, portanto, ajudam a alimentar a economia local. É provável que bebam vinho local em restaurantes locais, em vez de fermentarem uma poção impronunciável num garrafão encardido atrás do galinheiro. Mesmo assim, é o “Homem da Moradia” que acaba pintado como o tipo superficial.
“Intenção” contra “impacto”
Entretanto, os nossos heróis fora da rede andam a sugar água subterrânea com um sistema de filtragem “faça‑você‑mesmo” à base de carvão, areia e um optimismo considerável. Garantem que levam uma vida de “impacto ambiental mínimo”. Tudo isto enquanto conduzem um Land Rover Discovery de 1988 que deita mais partículas do que a chaminé de uma fábrica vitoriana. Mas não faz mal: o que conta são as vibrações.
Há qualquer coisa de genuinamente cómica na forma como, hoje em dia, a “intenção” parece valer mais do que o “impacto”. Se a intenção é viver de forma simples, ninguém parece incomodar‑se com o facto de as baterias solares dependerem de minerais raros extraídos na Mongólia. Se a intenção é estar “mais perto da natureza”, passa a ser irrelevante que se tenha importado um fogão a lenha escandinavo que provavelmente viajou tanto como Vasco da Gama.
No fundo, o problema é outro: virtude estética. A vida fora da rede tem bom aspecto. Uma camisa de linho a ondular com a brisa, um cesto de tomates amadurecidos ao sol, um velho Labrador a dormir debaixo de uma oliveira. Evoca imagens bonitas e grita “autenticidade”. Já uma moradia no Algarve? Isso grita “folheto brilhante de imobiliária” e parece tão autêntico como uma cataplana numa casa de caril de Birmingham.
O que, em geral, os portugueses acham disto
A ironia é que as pessoas em Portugal tendem a ser pragmáticas com estas coisas. O homem do café da aldeia não quer saber se passamos o dia a fermentar kombucha numa iurta ou a beber vinho verde ao lado de uma piscina infinita privada. O que ele gosta é de nos ver por lá, a tomar o café diário com ele, enquanto tentamos um português macarrónico e ele se esforça por manter a cara séria.
A fantasia da auto‑suficiência (e a realidade do clima)
Não vale a pena fingir que a vida fora da rede é uma utopia bucólica de auto‑suficiência. No verão, quando as temperaturas chegam a valores semelhantes aos da superfície de Mercúrio, aquela iurta encantadora transforma‑se num forno de convecção. No inverno, quando as tempestades atlânticas entram de lado, as paredes sustentáveis de lona põem à prova o verdadeiro significado de “impermeável”.
Ao mesmo tempo, em Cascais, alguém carrega num botão; o aquecimento por piso radiante liga‑se, e holofotes inundam jardins trabalhados com tonalidades LED quase surreais.
Romantizar a “dureza” quando existe rede de segurança
Para os Fora‑da‑Rede, é fácil romantizar a “dificuldade” quando se é jovem, saudável e se tem meios privados para recuar caso a coisa aperte. Muitos destes eco‑pioneiros não são camponeses desgraçados; são ex‑consultores de marketing de Surrey, com contas‑poupança bem compostas e planos B sólidos.
Se a grande experiência das cabras correr mal, há sempre um voo de 29 libras de volta para Gatwick. Já o comprador da moradia é tratado como se tivesse cometido um crime cultural: está a “gentrificar”. Está a “colonizar espaço de lazer”. É simplesmente “parte do problema”.
Portugal sempre foi aberto ao mundo
Durante séculos, Portugal negociou com o mundo. Recebeu exploradores, comerciantes e arquitectos. Ergueu cidades de azulejos, varandas, terraços e beleza sem pedir desculpa por isso. Sugerir que comprar uma casa bem construída junto ao mar é, por definição, menos ético do que pregar umas paletes para fazer um barracão algures no Alentejo é tão absurdo quanto pouco honesto.
São escolhas, não medalhas
Aqui vai uma ideia herética: ambos os estilos de vida são escolhas. Viver fora da rede não traz sabedoria por acréscimo, tal como comprar uma moradia não a apaga automaticamente. Um homem cultiva curgetes; outro cultiva a sua carteira de investimentos. Os dois pagam IVA no supermercado. Ainda assim, o guião cultural insiste que devemos aplaudir a estética mais áspera.
Há, no meio disto tudo, uma certa presunção. Minimalismo performativo, legendas sobre “vida simples” publicadas a partir de telemóveis de 1500 €, e a lógica implícita de que quem gosta de conforto está espiritualmente comprometido. Só que conforto não é crime. Civilização é, em grande parte, o aperfeiçoamento constante do conforto. Inventámos telhados porque a chuva é uma chatice monumental. Inventámos piscinas porque sabe bem boiar com um copo de algo fresco enquanto o sol se põe sobre o Atlântico.
Se isso me torna menos virtuoso do que alguém a ordenhar uma cabra ao nascer do dia, que seja.
A parte realmente cansativa é a rectidão competitiva: a ideia de que o estilo de vida é uma escada e que temos de estar sempre a ver quem está no degrau mais alto.
Talvez as virtudes reais não estejam na arquitectura, mas na atitude. Respeitamos a terra? Contribuímos? Integramo‑nos em vez de impor? Tratamos os vizinhos (vivam eles em iurtas ou em moradias) com a mesma decência básica? Isso parece‑me bastante mais importante do que troçar de quem vê a vida de outra forma.
Por isso, sim: se alguém quiser viver fora da rede no Portugal rural enquanto persegue galinhas e pores do sol, força. No fim do dia, quando estou em Portugal, não me interessa grande coisa a sinalização de virtude; interessa‑me ver o sol a nascer por cima de telhados de terracota e sobreiros. Interessa‑me o som de ondas atlânticas enormes a rebentarem contra falésias imponentes. Tudo isso continua, felizmente indiferente a estarmos a compostar ou a fazer bombas para a piscina. A piscina infinita e a iurta não são inimigas; são apenas duas formas de desfrutar do mesmo pedaço de terra - verdadeiramente espectacular.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário