Se é daquelas pessoas que se tornam especialistas em abandonar as boas resoluções em três dias, este guia vai dar jeito. A verdade é que o seu cérebro prega-lhe partidas - está na altura de aprender a devolver-lhe o troco.
Entrámos nos primeiros dias de janeiro de 2026 e, com eles, a euforia típica das boas resoluções começa a dissipar-se. Ao mesmo tempo, tenta “desfazer” os excessos dos almoços em família e da noite de 31. Quer tenha decidido tornar-se craque no Código da Estrada e finalmente tirar a carta de condução, massacrar-se no ginásio para esculpir um corpo de Apolo, avançar com aquele grande projecto que lhe anda atravessado desde 2020, ou deixar de fumar “como uma chaminé”, o enredo repete-se: a dúvida instala-se.
Somos todos humanos (ao que tudo indica), e é tentador embalar-se nessa sensação - como se ela fosse a prova de que não vai conseguir cumprir as resoluções e que o melhor seria desistir. A máxima jurídica é famosa: “Na dúvida, abstém-te”. Só que não. Em vez disso, vale a pena olhar para a literatura, em particular para Anatole France, que escreveu: “É preciso duvidar da dúvida”. O erudito céptico não poderia imaginar que essa intuição seria confirmada, décadas depois, por um estudo publicado a 3 de janeiro na revista Self and Identity. Duvidar dos seus próprios receios parece uma contradição - mas para manter as boas resoluções, pode ser exactamente o caminho mais eficaz.
Porque é que o pensamento positivo pode ser (às vezes) uma treta?
Quando a motivação cai, tendemos a ouvir os mesmos mantras com selo Desenvolvimento pessoal 2000-2010: “Visualiza o teu sucesso”, “Sê positivo”, “Confia em ti”. O problema é que, segundo o psicólogo Patrick Carroll - autor do estudo e investigador em psicologia na Universidade do Ohio - essa abordagem pode ser a forma mais rápida de ir contra a parede.
Na publicação, Carroll descreve o fenómeno a que chama action crisis (uma “crise de acção”): um conflito interno desgastante em que se passa do modo de execução (quando avança de cabeça para o objectivo) para o modo deliberativo (quando começa a pesar prós e contras). É precisamente aí que o custo do esforço lhe parece, de repente, maior do que o benefício esperado.
É também nesse ponto que a armadilha fecha: no meio da crise, recorrer ao reflexo do pensamento positivo - por exemplo, obrigar-se a recordar êxitos passados para insuflar o ego - acaba por ser pouco mais do que um penso rápido numa perna partida. Um pico de confiança artificial que o cérebro interpreta como falso.
Para observar como as pessoas reagem a essa crise, Carroll colocou 267 participantes perante uma escolha clara. Um grupo teve de recordar um momento em que se sentia seguro das próprias capacidades. O outro teve de escrever sobre uma situação em que tinha questionado a pertinência dos seus próprios pensamentos.
Entre os participantes que já estavam a atravessar uma crise de acção, tentar “carregar” na confiança gerou um efeito boomerang. Ao tentarem convencer-se - de forma forçada - do seu valor, a determinação caiu a pique. Pelo contrário, quem aceitou interrogar a fiabilidade do seu próprio juízo (a tal “dúvida da dúvida”) viu a determinação voltar a subir.
O mecanismo por trás disto é simples: quando força a confiança enquanto está mergulhado na incerteza, está a entregar ao cérebro uma informação que ele identifica como contaminada. Ele apanha de imediato a incoerência entre o que sente de verdade (stress, hesitação) e o discurso de fachada (auto-persuassão). Como num rejeitar de transplante, está a negar a crise e a agravar o conflito interno, o que acaba por levar o cérebro a “desligar a ficha” para travar um gasto de energia que considera inútil.
O hack definitivo das boas resoluções: a “dúvida da dúvida” de Patrick Carroll
Tudo isto é interessante, Dr. Carroll - mas como se aplica no dia a dia? O estudo aponta para um princípio a que o especialista chama “dúvida ao quadrado”. Em vez de tratar a falta de confiança como um destino inevitável, a ideia é virar a força da dúvida contra ela própria. É meta-cognição: em vez de se perguntar logo se o objectivo faz sentido, use o pensamento crítico para fazer hack ao seu sistema cognitivo e pergunte primeiro se o seu pessimismo é um conselheiro fiável.
A “truque” para fazer de 2026 um ano diferente passa, então, por adoptar uma postura de cepticismo rigoroso perante as suas quebras de ânimo. Ao questionar a validade dos seus receios, desarma o auto-sabotador interno e abre espaço mental para agir.
Vejamos exemplos práticos para tornar isto mais concreto. Se o seu objectivo é treinar para correr uma maratona, sabe que tem de cumprir sessões regulares. Imagine que uma delas calha num dia de chuva e que se sente exausto: o cérebro sentencia que esse treino “não serve para nada”. Em vez de se obrigar a ficar entusiasmado, devolva o cepticismo a essa ideia e pergunte-se se está mesmo exausto ou se o seu julgamento está apenas enviesado pelo tempo.
Num projecto profissional, por exemplo, se lhe surge a sensação de que não tem competências para o levar até ao fim, não tente convencer-se do oposto à força; pergunte-se antes se isso é um facto comprovado ou apenas uma reacção ao stress.
Ao ser céptico em relação à sua própria negatividade, não está a mentir a si mesmo - ao contrário do que o pensamento positivo, por vezes bastante irritante em alguns aspectos, parece sugerir. Está, isso sim, a exercer rigor intelectual. Se der por si a pensar que vai falhar, seja insolente o suficiente para não acreditar logo no que está a dizer. Afinal, se tem o direito de duvidar das suas capacidades, também tem o dever de duvidar do seu próprio pessimismo. Talvez esta seja a única resolução que vale mesmo a pena cumprir em 2026: torne-se o pior inimigo das suas dúvidas, e o resto virá atrás. Encontramo-nos em dezembro, para ver quem teve coragem de duvidar da própria preguiça!
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