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24100 mortes anuais por fumo de megainc8ndios no Oeste americano e o vazio regulatf3rio da EPA

Homem idoso coloca máscara protetora sentado ao ar livre com medidor e inalador numa mesa.

Todos os anos, 24100 pessoas morrem no Oeste americano por causa do fumo dos megainc8ndios: uma calamidade socioecol3gica que continua a passar despercebida aos reguladores.

Desde o inedcio do se9culo XXI, os inceandios extremos no Oeste americano tornaram-se, infelizmente, parte do cene1rio. Na Califf3rnia, por exemplo, 17 dos 20 maiores inceandios alguma vez registados no estado aconteceram depois de 2000; o mais destrutivo ocorreu he1 pouco mais de um ano. Para os residentes de Los Angeles e das zonas vizinhas, foi um episf3dio traume1tico que deixou paisagens arrasadas, dezenas de mortos e feridos e, mesmo meses apf3s as chamas se extinguirem, um legado de compostos altamente tf3xicos.

Um novo estudo, publicado a 4 de fevereiro na revista Science Advances, mostra que estes inceandios libertam ainda para a atmosfera quantidades impressionantes de partedculas finas (PM2.5). Para quem vive na regie3o e respira estas partedculas de forma crf3nica, o impacto pode ser severo: entre 2006 e 2020, esta poluie7e3o esteve associada, em me9dia, a 24100 mortes prematuras por ano em 38 condados do paeds.

Megainc8ndios no Oeste americano: as partedculas finas (PM2.5) como contaminae7e3o crf3nica

Chamam-se PM2.5 porque team um die2metro inferior a 2,5 b5m a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0, cerca de 30 vezes mais finas do que um cabelo humano. O seu tamanho e9 te3o reduzido que, depois de inaladas, conseguem atingir os alve9olos pulmonares e passar para a corrente sanguednea, que as distribui por todo o organismo. Para reagir e0 agresse3o destas micro-partedculas de carbono e de resedduos quedmicos, o corpo liberta citocinas inflamatf3rias (proteednas que funcionam como mensageiros, avisando e activando o sistema imunite1rio).

Como a exposie7e3o e9 persistente, essas citocinas acabam por ser produzidas em excesso e, com o tempo, comee7am a danificar as paredes saude1veis dos vasos sanguedneos. Os monf3citos (um tipo de glf3bulos brancos), que normalmente circulam no sangue, aderem ente3o a essas paredes lesionadas e penetram no tecido arterial. Uma vez infiltrados, procuram remover as partedculas finas e as gorduras oxidadas pelo fumo, englobando-as. Contudo, falham essa limpeza: incham e morrem presos na parede arterial.

Os restos destes glf3bulos brancos transformam-se em ce9lulas espumosas. Ao longo dos meses, as ce9lulas mortas acumulam-se, criando uma salieancia no interior das arte9rias (placa de ateroma). Essa placa diminui o calibre do vaso e torna a parede mais redgida. Com a presse3o do fluxo sanguedneo, pode fissurar; o organismo tenta ente3o selar a ruptura formando um coe1gulo, capaz de bloquear de imediato a circulae7e3o. Se o sangue deixar de chegar ao corae7e3o, pode ocorrer um enfarte; se ne3o conseguir irrigar o ce9rebro, podem surgir acidentes vasculares cerebrais (AVC).

Estas partedculas podem tambe9m estar na origem de doene7as neurodegenerativas, porque atravessam com facilidade a barreira hemato-encefe1lica a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0a0, a camada de protece7e3o do ce9rebro e do sistema nervoso. Je1 no interior, intoxicam as ce9lulas microgliais, cuja fune7e3o normal e9 eliminar detritos neuronais. Desorientadas por esta agresse3o, essas ce9lulas protectoras deixam de distinguir entre resedduos e neurf3nios saude1veis; passam a desencadear uma inflamae7e3o crf3nica que vai destruindo gradualmente o tecido cerebral, favorecendo o aparecimento de patologias graves como Alzheimer ou Parkinson.

De acordo com as estimativas da equipa response1vel pelo estudo, basta que o ar acrescente 0,1 b5g/m3 de PM2.5 para que a mortalidade anual aumente 5594 mortes. Como o aquecimento global facilita a propagae7e3o de inceandios cada vez mais violentos de ano para ano, a hipf3tese de uma crise de safade futura je1 ne3o pode ser descartada.

Um vazio regulatf3rio mortal

Actualmente, a EPA (United States Environmental Protection Agency) opera, na pre1tica, com uma lf3gica de dois pesos e duas medidas que roe7a o absurdo, embora esteja alinhada com a sua faltima reforma. Se uma fe1brica ou uma central a carve3o emitisse apenas um de9cimo das partedculas finas libertadas por um megainc8ndio, seria encerrada e alvo de multas pesadas ao abrigo do Clean Air Act. Trata-se de uma lei federal muito rigorosa, de 1970, que impf5e limites severos e0s emissf5es industriais e automf3veis... mas que ne3o abrange o fumo dos inceandios florestais. Estes acabam por beneficiar de uma espe9cie de curinga administrativo, classificados como abevento excepcionalbb ou abcate1strofe naturalbb.

Esse enquadramento permite que as autoridades locais retirem estes picos de poluie7e3o dos seus balane7os oficiais; uma lacuna jureddica que impede a protece7e3o adequada dos cidade3os norte-americanos e atrasa a adope7e3o de poledticas eficazes de redue7e3o e geste3o de riscos.

Para Michael Jerrett, especialista em safade ambiental na UCLA, esta negae7e3o regulatf3ria e9 delirante: abNingue9m tere1 “morte por inceandio” escrito no seu certificado de f3bito se ne3o tiver sido queimado ou esmagado por uma e1rvore. A maior parte das pessoas que morre devido a esta exposie7e3o je1 pertence aos grupos mais vulnere1veis. Se3o vidas bem reais que se3o ceifadas. Ne3o se trata de um conceito estatedstico abstracto ou arbitre1riobb, lamenta.

Neste contexto, ne3o parece excessivo afirmar que a legislae7e3o norte-americana torna deliberadamente invisedveis as vedtimas colaterais destes inceandios, escudando-se num quadro regulatf3rio completamente obsoleto. Estes megainc8ndios matam antes de mais pela sua toxicidade, mas seriam muito menos letais se os governos federais assumissem as suas responsabilidades, actualizando o Clean Air Act e alinhando as suas normas com o contexto contempore2neo. Se nada mudar, o nfamero de mortes anuais podere1 praticamente duplicar ate9 2050, caso a intensidade dos fogos mantenha a tendeancia actual.

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