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Luís de Guindos no Parlamento Europeu: BCE alerta que os mercados descontam um cenário demasiado benigno

Homem de fato azul fala numa conferência com gráficos e símbolo do euro em ecrãs atrás dele.

Luís de Guindos deixou, esta segunda-feira, um aviso: perante choques geopolíticos e económicos cuja dimensão ainda é difícil de medir, os mercados financeiros parecem estar a incorporar um desfecho “demasiado benigno”. Naquela que foi a sua última audição no Parlamento Europeu enquanto vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), defendeu prudência e pediu “cabeça fria”.

A intervenção na comissão de Assuntos Económicos e Monetários (ECON) aconteceu a propósito do relatório anual do BCE. O documento faz um balanço, no geral, positivo do último ano: a economia da área do euro cresceu 1,4% e a inflação voltou para perto do objetivo de 2%, apesar de um enquadramento externo ainda desafiante.

Luís de Guindos e o BCE: taxas de juro, choque de oferta e decisão de 30 de abril

Esses resultados deram margem ao banco central para cortar as taxas de juro em 100 pontos base ao longo de 2025, colocando a taxa de depósito em 2%. Este patamar mantém-se desde então, mas poderá vir a ser revisto, tendo em conta o impacto da guerra no Médio Oriente e o regresso da volatilidade aos mercados energéticos.

“Estamos perante um choque do lado da oferta que vai reduzir o crescimento e aumentar a inflação”, advertiu, ao descrever a tensão que este tipo de cenário cria para a política monetária.

Ainda assim, com um novo contexto geopolítico a ganhar forma, o Conselho do BCE optou por não mexer nas taxas na reunião de 30 de abril. Luís de Guindos alinhou com a explicação de Christine Lagarde, indicando que a decisão foi unânime e que o objetivo foi ganhar tempo para recolher mais informação.

“A minha impressão é que este choque se refletiu mais rapidamente nos indicadores de inflação do que nos de crescimento”, observou, reiterando uma postura “dependente dos dados e reunião a reunião”. “Num contexto geopolítico muito complicado, é muito importante ter cabeça fria”, concluiu.

Mercados calmos, riscos subestimados

Luís de Guindos falou também, de forma direta, sobre a reação dos mercados financeiros. Na sua leitura, existe uma distância entre a tranquilidade aparente e os riscos atuais: as valorizações continuam elevadas e muitos investidores parecem partir do princípio de que o conflito será curto, que a economia vai aguentar e que fatores como a inteligência artificial continuarão a impulsionar a produtividade.

“Os mercados estão a descontar um cenário muito benigno”, alertou, salientando que tal expectativa pode falhar. “Se não se tornar realidade, pode dar origem a uma correção”, afirmou, admitindo até “uma espécie de acidente” capaz de gerar tensão nos mercados. E, embora os spreads da dívida pública se mantenham contidos, lembrou que “a estabilidade financeira pode acabar por amplificar choques vindos da energia e da geopolítica”.

No capítulo orçamental, o vice-presidente do BCE recordou que muitos países têm pouca folga fiscal, numa altura em que crescem as necessidades de despesa com defesa e em que podem voltar a surgir apoios para amortecer um novo choque energético. Se houver medidas, defendeu, devem ser “temporárias, muito focadas e dirigidas a segmentos específicos da população”.

Questionado sobre críticas à resposta do banco central durante o surto inflacionista de 2021 e 2022, Luís de Guindos reconheceu que, “com o benefício da retrospectiva”, a reação poderia ter sido “mais cedo” e “mais forte”. Ainda assim, insistiu que o quadro atual não é comparável: hoje, as taxas estão em 2%, o BCE está a reduzir o balanço e a política orçamental é menos expansionista. “O ambiente de política monetária é totalmente diferente”, atirou, recusando paralelos diretos.

Crédito privado, autonomia e riscos estruturais

Entre os riscos que não são tão visíveis, mas que estão a ganhar relevância, o vice-presidente sublinhou o desenvolvimento do crédito privado fora do sistema bancário tradicional. Nesse sentido, anunciou que o próximo relatório de estabilidade financeira do BCE - a publicar ainda este mês - incluirá um capítulo dedicado ao tema. Apesar de este movimento ser menos expressivo na Europa do que nos Estados Unidos, as ligações entre crédito privado, fundos de private equity, seguradoras e bancos estão a tornar-se “cada vez mais complexas e intensas”.

Luís de Guindos admitiu que este tipo de financiamento pode servir empresas e projetos que não conseguem aceder ao crédito bancário, mas chamou a atenção para riscos como maior opacidade, dificuldades na avaliação de ativos e interdependências crescentes com o restante sistema financeiro. “Hoje não vemos um risco sistémico, nem mesmo nos Estados Unidos”, afirmou. Ainda assim, o BCE defende um acompanhamento regulatório mais apertado.

A audição teve igualmente um tom estrutural. Na perspetiva do responsável, a incerteza deixou de ser um episódio isolado e passou a integrar o funcionamento normal do sistema. “O mundo é muito diferente do que era há oito anos”, disse, apontando para a mudança nas relações internacionais e para o risco de dependências económicas ou tecnológicas serem usadas como instrumento.

Euro digital, stablecoins e cibersegurança no BCE

Nesse enquadramento, o euro digital foi apresentado como uma peça central da estratégia europeia para reforçar a autonomia nos sistemas de pagamento. O BCE está a trabalhar para estar pronto para um exercício-piloto em 2027 e para uma eventual primeira emissão em 2029. Em simultâneo, avançam projetos em infraestruturas de mercado tokenizadas e numa nova série de notas de euro.

Sobre as stablecoins, o vice-presidente assegurou que o banco central não é contra a sua emissão em euros, mas quer fechar lacunas regulatórias e aumentar a proteção dos investidores. A cibersegurança completou o mapa de riscos, com avisos sobre ameaças em crescimento associadas a novas ferramentas de inteligência artificial.

No encerramento daquela que foi a sua última intervenção no Parlamento Europeu, Luís de Guindos reiterou que a inflação foi “domada”, mas que o contexto se tornou mais intricado. Num mundo sujeito a choques difíceis de antecipar e com mercados confiantes, rematou, “uma abordagem prudente, de cabeça fria, é hoje mais necessária do que antes”.

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