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Comunidade Política Europeia na Arménia: a ausência de Merz e o vazio alemão

Reunião diplomática com seis homens de fato sentados à mesa com bandeiras da Alemanha e da União Europeia ao fundo.

Uma cimeira com condições para resultar

Reunida na Arménia, a cimeira da Comunidade Política Europeia - criação de Macron para ampliar a influência europeia junto às fronteiras da União - tinha tudo para correr bem. Com a saída de Órban, Bruxelas passou a ter garantidos os 90 mil milhões de euros para emprestar à Ucrânia; Mark Carney, o líder mundial responsável por um dos discursos mais marcantes dos últimos tempos e oriundo de um país que não faz fronteira com a União Europeia, fez questão de marcar presença e de afirmar que “a ordem internacional será reconstruída, mas será reconstruída a partir da Europa”, sublinhando que o Canadá quer participar nesse processo; e o Reino Unido mantém o interesse em estar ligado a um formato que coloca a União Europeia na dianteira da relação com os parceiros europeus, entendidos no sentido mais amplo possível.

Mesmo não sendo uma reunião pensada para aprovar decisões de grande peso, serve para cultivar relações e para mostrar que a União Europeia continua a contar - e a contar com os países que a rodeiam. Com Carney na sala, com o Reino Unido sem hesitações quanto ao enquadramento e com os 90 mil milhões para a Ucrânia assegurados, este encontro podia ter sido um sucesso, dentro do tipo de sucesso que estas cimeiras permitem.

O grande ausente: Merz

Houve, porém, um ausente de grande dimensão: o Chanceler Merz. Não foi à Arménia e também não explicou, com precisão, porquê. E a realidade é simples: sem a Alemanha, a Europa dificilmente se materializa.

Doze meses depois: uma Alemanha que não recupera

Friedrich Merz chegou ao Governo alemão há um ano, a 6 de maio de 2025, depois de ter falhado a primeira votação no parlamento. Passados doze meses, a economia alemã não dá sinais de recuperação - pelo contrário. A extrema-direita da AfD lidera as sondagens, o executivo é encarado como permanentemente moribundo e a ligação aos Estados Unidos, tão valorizada por um dos líderes alemães mais atlanticistas dos últimos anos, está a degradar-se em vez de se recompor.

Mais grave ainda, a estratégia alemã de Merz está a esvaziar a Europa, em vez de a fazer avançar.

Num contexto de afastamento americano, de competição com a China, de ameaça russa e de necessidade de assegurar o apoio à Ucrânia - somando-se ainda os custos energéticos que resultaram da invasão russa da Ucrânia e que foram agravados pela guerra dos Estados Unidos e de Israel ao Irão - cresce, em muitos lugares, a convicção de que a restauração da ordem internacional pode e deve ser feita a partir da Europa (foi, aliás, isso que Mark Carney foi dizer). Ao mesmo tempo, reconhece-se que, para responder, a Europa precisa de ganhar velocidade e agilidade.

E esse avanço acontecerá com quem quiser avançar, dentro e fora da União Europeia: a cooperação reforçada aberta, que já aqui se apresentou.

A estratégia europeia de Merz: velocidade, mas sem França e sem narrativa

Merz tem dito que quer menos burocracia europeia, mais rapidez nas decisões e coordenação entre os principais países (não o formula exactamente assim, mas é esse o efeito), seja no capítulo da competitividade, seja no da defesa. À primeira vista, isto poderia constituir uma estratégia europeia conduzida pela Alemanha.

Mas faltam-lhe duas coisas: França e um discurso europeu.

Emmanuel Macron é, hoje, o dirigente europeu mais fragilizado no plano interno e, ao mesmo tempo, aquele que mais tem influenciado a política europeia. Autonomia estratégica, soberania europeia, gramática de poder, uma relação com a China não dependente dos Estados Unidos, defesa europeia com protecção nuclear francesa - a lista de ideias de Macron que foram ganhando terreno nas instituições e nos debates europeus é longa. Ainda assim, Merz e Macron não se entendem, não se coordenam, e o motor franco-alemão - peça central da Europa do final do século XX e do início do século XXI - deixou de existir.

A falha na relação entre Merz e Macron é uma vulnerabilidade essencial na reconstrução europeia. A outra é a falta, por parte de Merz, de um verdadeiro discurso europeu.

O chanceler alemão aparenta ter algumas linhas claras sobre a Europa, mas elas não são particularmente inspiradoras. Num excelente ensaio para a Internationale Politk Quarterly, Andreas Rinke, correspondente principal da Reuters em Berlim, explica que Merz, fundamentalmente, quer que a União Europeia não complique. E que decida. Aceitando que decidir a 27 é difícil e partindo do princípio de que a Alemanha sabe o que pretende - e que alguns países europeus querem o mesmo, enquanto outros não - Merz defende que avance quem quiser avançar e que quem não quiser não bloqueie.

Essa via é compreensível e, muito provavelmente, inevitável. Mas falta a esse caminho um discurso que inspire - uma linguagem que defina para onde e por onde vai essa Europa liderada pela Alemanha. Ou se vai sozinha.

O que revela a ausência na Arménia

A Comunidade Política Europeia, reunida na Arménia, não é o encontro que irá restaurar o poder europeu e a ordem liberal internacional. Ainda assim, é uma peça relevante na projecção de poder da Europa da União Europeia. E a ausência de Merz mostra, com clareza, onde a Alemanha não está. Onde a Alemanha não está, a Europa não existe.

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