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Coordenação de intimidade no cinema em Portugal: do #MeToo ao plateau

Três pessoas discutem ao lado de equipamento de gravação em quarto com cama e grande janela.

Coreografar corpos e gestos; gerir posições, toques e distâncias; decidir que proximidade é aceitável. Numa longa-metragem ou numa série, uma cena de sexo é, por si só, um pequeno universo. Depois do movimento #MeToo, a velha lógica de “vale tudo” perdeu terreno e passou a existir uma função específica nas equipas: a coordenação de intimidade, criada para garantir um consentimento mais seguro e rigoroso. Há quem critique esta prática por a entender como uma espécie de nova censura.

Em Portugal, foi há cerca de ano e meio que começaram a aparecer profissionais dedicados a esta área. Aos poucos, realizadores e produtores têm vindo a integrar estes especialistas, que trabalham com formação própria. Para alguns, esta salvaguarda é útil tanto para quem filma como para quem interpreta: protege-se quem está atrás e à frente da câmara e reduzem-se situações desconfortáveis ou abusivas, com impacto na qualidade das cenas mais “quentes”. Cada vez mais, o sexo no cinema não tem de assentar na exploração oportunista dos corpos - em especial do corpo feminino - mesmo quando “elegância” e “bom gosto” se tornam conceitos discutíveis perante a opção pela autenticidade. E a intimidade não se limita ao sexo: inclui, por exemplo, uma personagem a amamentar, ou momentos de cuidado físico associados a fragilidade, dependência e vulnerabilidade.

Coordenação de intimidade: do consentimento à logística no plateau

Entre um beijo e um abraço existe um conjunto de necessidades criativas e práticas que estes profissionais passam a organizar. Quando um guião exige “beijo com língua”, coloca-se a questão: é possível sugerir isso sem o fazer literalmente? “Sim, e isso é lindo. Como? Com a capacidade de transpor do 3D para o 2D através do diretor de fotografia, ou seja, com truques de câmara. No fundo, como um coordenador de duplos faz quando um pontapé não atinge o outro ator. Tem a ver com a nossa incapacidade de ler a distância entre os dois corpos ou, nesse caso, entre duas bocas”, explica Helena Canhoto.

Teresa Olea Molina e a IntimAct em Portugal

Em Portugal, Teresa Olea Molina é um dos nomes pioneiros nesta especialidade. Atriz espanhola a viver no nosso país, trabalha para a IntimAct, empresa espanhola com sucursal em Lisboa - a IntimAct Portugal. Teresa acredita que esta atividade acrescentou um “olhar crítico” à forma como a ficção representa a sexualidade: “Chegámos a uma altura em que pode ser interessante encontrar outra perspetiva. Por exemplo, deixar de hipersexualizar uma violação. Infelizmente, ainda acontece muito algumas cenas de violência estarem hipersexualizadas. Agora, há uma opção de repensar certas coisas”.

Em Espanha - um mercado com indústria e onde esta coordenação já é praticamente incontornável - a IntimAct é responsável por inúmeras sequências em que se encena o desejo. Algumas já passaram por cá, de “Romaria”, de Carla Simón, atualmente em exibição, a “Os Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, também nas salas. Em breve, será possível ver em Portugal o primeiro filme nacional com coordenação de intimidade assinada por Teresa: “Não Resta Nada”, de André Godinho.

Helena Canhoto: formação no Canadá e resistência em Portugal

Helena Canhoto faz parte do mesmo conjunto de profissionais que está a introduzir a coordenação de intimidade no cinema e na televisão portugueses. Atriz portuguesa, regressou há cerca de um ano do Canadá, onde viveu nos últimos tempos e concluiu uma formação certificada nesta função. Diz ser, na prática, a primeira portuguesa a trabalhar no mercado com esta valência, embora continue a deparar-se com resistência por parte de produtores nacionais - segundo a própria, por não quererem acrescentar este custo aos orçamentos, à semelhança do que aconteceu, há alguns anos, com a figura dos diretores de elenco. Explica a escolha como um desafio e uma oportunidade: “Tomei essa decisão depois de fazer um workshop com a Stephanie Breton, uma coordenadora de intimidade muito conhecida no Canadá. Fiquei louca, no bom sentido, e pensei: nunca mais quero fazer uma cena de vulnerabilidade sem um coordenador! Como é que isto não veio para Portugal há mais anos?”

Questionada sobre o impacto de séries ou telenovelas em que trabalhou antes de emigrar, Helena emociona-se e admite: “tive situações que não foram nada agradáveis”. E deixa outra pergunta no ar: “Antes da coordenação de intimidade, como era possível sermos lançados para cenas de intimidade das quais não sabíamos nada?”

Conversar é preciso

Para Teresa Olea Molina, o ponto de partida é simples e indispensável: conversar com os dois lados - realizador e intérpretes - e ensaiar tanto quanto possível. “É preciso perceber como é que um beijo pode ser dado, se vai ser com língua ou não, ou seja, que tipo de beijo o realizador quer. Depois, perguntamos aos atores se estão confortáveis com aquela ideia do realizador, se há algum limite. Aí decidem o que querem e o que não querem fazer. Se não o querem fazer ou se não têm certeza, vamos trabalhar para encontrar uma solução. Eu ofereço sempre uma data de ideias e todas as alternativas possíveis”, descreve. A coordenadora recorda ainda que, há alguns anos, ao preparar uma curta-metragem de escola que ia realizar, bloqueou quando chegou o momento de filmar uma cena sexual íntima; foi essa experiência que a levou a aprofundar a área onde hoje trabalha - e, de forma curiosa, também a perceber que aquele filme, afinal, não precisava desse momento.

Surge então outra dúvida: será que os coordenadores de intimidade e os respetivos honorários fazem disparar o orçamento de uma produção? Para além de garantirem segurança no plateau, podem também evitar derrapagens no tempo de rodagem se uma atriz ou um ator estiver a demorar mais por falta de preparação - ainda que seja necessário ensaiar para fixar a coreografia de forma clara. Helena Canhoto defende que os seus serviços não são, por si, um custo desproporcionado, mas sublinha a existência de despesas com peças de resguardo, adereços destinados a proteger as zonas genitais, como adesivos vaginais, próteses e outros elementos: “infelizmente, tenta-se poupar dinheiro e já tive de coreografar uma cena de sexo simulado em apenas meia hora antes de ser filmada.”

“É possível simular um beijo de língua com truques de câmara, como quando um pontapé não atinge o outro ator”

Helena Canhoto
Coordenadora de intimidade

A presença de uma coordenadora de intimidade pode ainda fazer com que o que é filmado pareça menos inverosímil - ou até mais sedutor. Não é por acaso que Alicia Vikander terá referido, na edição de 2023 de Cannes, ter sido um alívio “O Jogo da Rainha”, de Karim Aïnouz, ter contado com coordenação de intimidade nas sequências ousadas com Jude Law.

E o tema não se esgota na imagem: fala-se, antes de mais, de saúde mental e proteção emocional dos intérpretes. Teresa e Helena convergem nesse ponto. “Há uma série de vetores que esta função toca. Na IntimAct temos assessoria LGBT+ e referente a integração racial e étnica com profissionais específicos, bem como uma psicóloga que pode ir às filmagens e que é também coordenadora de intimidade”, sublinha Teresa.

Mesmo com a relutância que ainda se sente no meio português, é pouco provável que as questões de intimidade no cinema voltem a gerar pesadelos como “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci. A coordenação de intimidade não funciona como uma polícia no plateau; pretende, isso sim, ser um instrumento de conforto para todos.

O sexo no cinema ainda é o que era?

Em Portugal, um dos maiores fenómenos de bilheteira dos últimos tempos foi o frágil filme de Paul Feig, “A Criada”, com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried - um êxito que também se verificou a nível mundial. O sexo, percebe-se, continua a vender, mesmo que hoje a proibição se aplique sobretudo ao chamado “olhar masculino” - em “A Criada”, a objetificação do corpo de Sydney Sweeney é suavizada pela mensagem de exposição à masculinidade tóxica e por um efeito deliberadamente kitsch.

Ainda que o cinema português seja “virgem” nestas coordenações, vale a pena pensar na forma como Ivo M. Ferreira encena momentos íntimos em “Projecto Global”. As cenas com Jani Zhao, Rodrigo Tomás e José Pimentão não têm nada de gratuito: servem a narrativa e são cinema. Num registo diferente, o cinema português atinge um erotismo ousado nas cenas de cama entre Joana Barradas, Cristóvão Campos e Ângelo Rodrigues em “Cherchez La Femme”, o filme póstumo de António da Cunha Telles. A matriz literária do sexo neste conto de amizade assenta também numa ideia de ternura e de glorificação do corpo feminino. Será que o sexo no cinema português ainda pode gerar debate? Curiosamente, este é um objeto cinematográfico onde o essencial reside no pudor da palavra.

No cinema de autor visto em salas especializadas e em festivais, o sexo tende a ser cada vez menos decorativo e mais real - frequentemente filmado com uma perceção de explícito. É como se a lição de Lars Von Trier em “Os Idiotas”, “Ninfomaníaca” e “Anticristo” tivesse deixado marcas, em parte por ter imposto a necessidade de recorrer a atores pornográficos como duplos nos planos mais fechados. Trata-se, no fundo, de aceitar que, em ficção, o cinema de qualidade não deve regressar ao mecanismo de tapar o corpo com o lençol.


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