A Nscale, grupo britânico dedicado a infraestruturas de suporte à inteligência artificial (IA), vai reforçar a sua presença em Portugal ao passar a ocupar integralmente o segundo edifício do centro de dados da Start Campus em Sines, onde serão instaladas dezenas de milhares de processadores Nvidia destinados a suportar operações da norte-americana Microsoft.
Em outubro, a Nscale já tinha comunicado um acordo para colocar no primeiro edifício do Start Campus 12.600 GPU (unidades de processamento gráfico) da Nvidia, orientadas para responder às necessidades de IA da Microsoft. Agora, a empresa - que conta com investidores como a Nvidia, a Nokia e a Dell, entre outros - anunciou um passo adicional de maior dimensão.
Segundo a Nscale, serão instalados 66 mil processadores da Nvidia, que serão entregues a partir do final de 2027, e que se irão somar aos 12.600 já anunciados, num entendimento que surge depois de iniciativas que a empresa já iniciou com a Microsoft na Noruega, no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Investimento adicional da Nscale no edifício 2 do Start Campus em Sines
No mesmo comunicado, a Nscale detalha que esta ampliação em Sines envolve €465 milhões no segundo edifício do centro de dados português, um bloco com 200 megawatts (MW) de potência, e ainda €230 milhões em infraestruturas partilhadas - onde se incluem, por exemplo, equipamentos de arrefecimento do centro de dados.
De acordo com informação recolhida pelo Expresso, o total de €695 milhões não integra o custo dos 66 mil processadores Nvidia Rubin, o que significa que o valor global associado a esta expansão será superior. A Nscale sublinha que estes investimentos “tornam este um dos projetos de infraestrutura de IA mais significativos da União Europeia e um dos maiores em Portugal até à data”.
Portugal como "porta de entrada estratégica" para a IA na Europa
No seu posicionamento, a Nscale sustenta que “a procura por infraestrutura de IA deverá aumentar significativamente até 2030”, mas refere que essa evolução continua “limitada pelo ritmo de fornecimento de energia e pela entrada em funcionamento de novas capacidades”. Ainda assim, o facto de a Start Campus já dispor de licenças para chegar a 1,2 gigawatts (GW) de potência instalada em Sines “oferece uma trajetória clara para responder a essa procura e posiciona Portugal como porta de entrada estratégica para a economia de IA europeia”.
O fundador da Nscale, Josh Payne, afirma no comunicado que “Consolidando uma base já comprovada, a capacidade alargada em Sines, Portugal cria um dos ambientes mais avançados da Europa para infraestrutura de IA de alta densidade”. Na mesma nota, o presidente executivo da Start Campus, Robert Dunn, acrescenta que “Sines é um dos principais destinos europeus para IA em grande escala”.
A expansão agora comunicada, relativa ao edifício 2 em Sines, deverá recorrer a processadores Rubin que, em conjunto com os computadores Vera, permitem processar mais dados por cada unidade de energia consumida quando comparados com os GPU da geração Blackwell (previstos para o primeiro edifício do complexo Start Campus). Esta maior eficiência ganha relevância num contexto de aceleração do uso de IA, que tem intensificado a pressão sobre as redes elétricas para suportarem o consumo de um número crescente de centros de dados.
Em novembro do ano passado, o presidente da Microsoft, Brad Smith, disse ao “Jornal de Negócios” que um dos maiores investimentos que a tecnológica está a realizar na Europa é em Portugal, onde poderá vir a aplicar €10 mil milhões em Sines.
De acordo com Brad Smith, a opção por Sines “é um reflexo de um imenso trabalho, da política energética seguida em Portugal, onde a energia é mais barata e há bom clima”. A isto, segundo o responsável, juntam-se as ligações de banda larga, que fazem de Portugal “um país muito importante e atraente na Europa para a construção deste tipo de centros de dados”.
Projeto para concluir em 2031
Tal como o Expresso noticiou em fevereiro, a obra do segundo edifício do Start Campus começou este ano e a conclusão está prevista para 2027. A empresa por detrás do centro de dados apontava que esse segundo bloco implicaria um investimento de €2 mil milhões, a assegurar através de uma combinação de capitais próprios e dívida. O projeto Start Campus contempla um total de seis edifícios, a concluir até 2031, com um investimento global superior a €8,5 mil milhões.
Criada em 2020 e detida pela norte-americana Davidson Kempner e pela britânica Pioneer Point Partners, a Start Campus escolheu terrenos adjacentes aos da antiga central a carvão da EDP em Sines para desenvolver o mega-centro de dados. A localização permite aproveitar a proximidade ao oceano para apoiar a refrigeração das infraestruturas e beneficia ainda do facto de o encerramento da central a carvão ter libertado parte da capacidade de utilização da rede elétrica no Sul do país.
Desde o início, a Start Campus definiu como meta construir um centro de dados compatível com alimentação por eletricidade renovável, tirando partido do potencial do Alentejo para produção solar. A este fornecimento somar-se-ia a compra de eletricidade à rede, protegida por soluções de redundância (incluindo geradores a gasóleo) para cenários de falha.
Operação Influencer e licenciamento do centro de dados em Sines
O licenciamento do centro de dados de Sines foi, recorde-se, um dos pontos centrais da investigação da Operação Influencer, que em novembro de 2023 desencadeou dezenas de buscas, incluindo no gabinete do então primeiro-ministro, António Costa. Nessa altura, o ministro das Infraestruturas, João Galamba, foi constituído arguido, com o Ministério Público a suspeitar das diligências atribuídas ao ex-governante para viabilizar e acelerar a concretização do investimento em Sines.
A própria Start Campus foi igualmente obrigada a prestar uma caução de €600 mil, que acabaria por recuperar em 2024, já depois de os acionistas terem indicado Robert Dunn para liderar a empresa, substituindo Afonso Salema, o gestor português que lançou a Start Campus e que, em 2023, também fora constituído arguido.
Apesar das suspeitas do Ministério Público, o avanço do centro de dados e o interesse de grandes empresas - como a Microsoft - na infraestrutura em construção em Sines não foram travados. E, na prática, os investidores da Start Campus têm continuado a financiar o projeto. O movimento mais recente ocorreu em fevereiro deste ano, quando a empresa emitiu mais €10 milhões em obrigações numa oferta particular, na sequência de outros financiamentos realizados em anos anteriores.
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