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Comida lixo, açúcar e memória no cérebro: o que revela um novo estudo

Dois tabuleiros lado a lado, um com comida rápida e cérebro em modelo, outro com frutas e legumes variados.

Muita gente conhece bem a sensação que surge depois de uma fase de alimentação pouco saudável: excesso de comida lixo, bebidas açucaradas e petiscos a altas horas.

A seguir vem a promessa de “voltar a comer bem”. Em geral, assume-se que o corpo e o cérebro recuperam assim que se regressa a hábitos mais saudáveis.

Mas será assim tão simples? Um novo estudo indica que a resposta é mais complexa.

Os investigadores analisaram se a mudança de dietas pouco saudáveis para dietas saudáveis conseguiria reverter danos no cérebro associados ao consumo de comida lixo.

Os resultados mostraram melhorias em algumas funções cerebrais, sobretudo na memória, mas sem recuperação total. E o estudo apontou ainda um grande obstáculo: o açúcar.

A comida lixo afeta a memória

Há anos que a ciência sabe que os alimentos ultraprocessados podem prejudicar a saúde física. Dietas ricas em gordura e açúcar aumentam o risco de obesidade, doença cardíaca e diabetes tipo 2.

Agora, a atenção está cada vez mais centrada no cérebro.

Estudos em humanos indicam que quem consome mais alimentos ultraprocessados tende a apresentar pior memória e um declínio mais rápido das capacidades de pensamento.

Exames ao cérebro também relacionaram estas dietas com a redução do hipocampo, uma região essencial para a aprendizagem e a memória.

Em estudos com animais, os resultados vão na mesma direção. Quando os roedores são alimentados com dietas ricas em gordura e açúcar, a memória e a capacidade de aprendizagem deterioram-se.

Perante isto, os investigadores quiseram perceber se esses efeitos poderiam ser revertidos ao voltar a uma dieta saudável.

Como foi feito o estudo

A equipa de investigação analisou 27 estudos com roedores que seguiam um modelo semelhante.

Num primeiro momento, os animais receberam dietas pouco saudáveis, ricas em gordura, em açúcar, ou em ambos. Após várias semanas, os investigadores substituíram a comida lixo por alimentação saudável.

Depois, os animais realizaram testes que avaliavam memória, ansiedade, comportamentos semelhantes à depressão, motivação e níveis de atividade.

Para perceberem se havia apenas melhoria ou uma recuperação completa, os cientistas compararam os animais em recuperação com dois grupos: animais que continuaram a comer de forma pouco saudável e animais que sempre seguiram dietas saudáveis.

As dietas saudáveis ajudaram a memória

A melhoria mais nítida surgiu nos testes de memória. Os animais que passaram para dietas saudáveis tiveram melhor desempenho do que os que mantiveram a comida lixo.

“Os nossos resultados mostram que melhorar a qualidade da dieta beneficia a memória”, afirmou a Dra. Simone Rehn, autora principal do estudo, da University of Technology Sydney.

Isto é uma boa notícia, porque sugere que o cérebro consegue recuperar, pelo menos em parte, após um período de alimentação pouco saudável.

Ainda assim, a recuperação ficou aquém do ideal. Quando foram comparados com os animais que sempre comeram de forma saudável, os animais em recuperação continuaram a ter resultados inferiores.

“Mas essas melhorias foram incompletas”, disse a Dra. Rehn. “Mesmo após semanas com uma dieta saudável, a memória não voltou ao nível observado em animais que nunca tinham consumido uma dieta pouco saudável.”

Em termos simples, comer melhor ajudou o cérebro a recuperar, mas não apagou totalmente os efeitos anteriores.

Danos no centro da memória

Um dos testes de memória avaliados no estudo focou-se na memória espacial, isto é, a capacidade de recordar onde as coisas estão. Este tipo de memória depende fortemente do hipocampo.

O hipocampo é particularmente sensível a dietas pouco saudáveis, porque reage de forma intensa à inflamação e ao stress oxidativo no organismo.

Os cientistas consideram que isso pode explicar por que razão os problemas de memória surgem com frequência após longos períodos de maus hábitos alimentares.

Também pode ajudar a entender por que é que o hipocampo apresentou alguma melhoria quando a dieta voltou a ser mais saudável.

O açúcar causou problemas maiores

Uma das conclusões mais relevantes envolveu o açúcar.

Os investigadores observaram que os animais a recuperar de dietas ricas em gordura mostraram melhorias mais claras na memória. Já os que recuperavam de dietas ricas em açúcar quase não evidenciaram melhorias.

“Observámos melhorias mais claras da memória quando dietas ricas em gordura foram substituídas por alimentação saudável”, disse a Dra. Rehn.

“Mas as dietas com muito açúcar adicionado, incluindo dietas ricas em gordura e açúcar, mostraram pouca evidência de recuperação. Isto sugere que o açúcar pode ser um fator-chave a limitar a recuperação da memória.”

Este resultado está em linha com estudos anteriores em humanos que associaram bebidas açucaradas a pior saúde cognitiva. É possível que o açúcar tenha efeitos mais prolongados no cérebro do que se pensava.

Mais tempo de dano, maior recuperação

O estudo encontrou ainda algo inesperado.

Por vezes, os animais que passaram mais tempo a comer de forma pouco saudável apresentaram melhorias maiores depois de mudarem para dietas saudáveis.

Os investigadores consideram que isto pode acontecer simplesmente porque esses animais partiam de um estado pior, tendo por isso mais margem para melhorar.

Ainda assim, o resultado sugere que o cérebro pode continuar a responder a hábitos mais saudáveis mesmo após um longo período de má alimentação - o que dá alguma esperança.

Humor e saúde mental

Embora a memória tenha melhorado, as alterações emocionais foram menos animadoras.

O estudo encontrou pouca evidência de que a mudança para dietas saudáveis melhorasse a ansiedade, os comportamentos semelhantes à depressão, a motivação ou os níveis de atividade.

Os investigadores apontam uma possível explicação: retirar comida lixo altamente recompensadora pode, por si só, gerar stress, compensando parte dos benefícios de uma alimentação melhor.

Os autores notaram também que menos estudos se concentraram no humor, pelo que ainda são necessárias investigações mais robustas.

O que isto significa para as pessoas

Os estudos em animais não permitem prever de forma perfeita o que acontecerá em humanos, mas continuam a oferecer pistas relevantes.

Os investigadores referiram que, nestes trabalhos, os períodos de alimentação pouco saudável foram muitas vezes mais longos do que os períodos de recuperação. Assim, é possível que os animais simplesmente não tenham tido tempo suficiente para recuperar por completo.

“Nos humanos, as mudanças na dieta costumam ocorrer ao mesmo tempo que alterações no exercício, no humor e nas rotinas diárias, o que torna muito difícil separar o efeito da dieta, por si só, no funcionamento cerebral”, explicou o Dr. Mike Kendig, autor sénior do estudo.

Esta investigação traz boas notícias e também um aviso.

A boa notícia é que uma alimentação mais saudável pode melhorar a memória e apoiar a recuperação do cérebro. Mesmo após hábitos menos saudáveis, o cérebro mantém alguma capacidade de adaptação.

O aviso é que a recuperação pode não ser total, especialmente após dietas ricas em açúcar adicionado.

Os danos cerebrais podem persistir

“Existe uma crença comum de que os efeitos da alimentação pouco saudável são facilmente reversíveis”, afirmou o Dr. Kendig.

“Estes resultados sugerem que, pelo menos para a memória, o cenário pode ser mais complicado, sobretudo quando as dietas têm muito açúcar adicionado.”

Os dados apontam para a importância de proteger a saúde do cérebro desde cedo, porque pode ser mais eficaz do que tentar reparar danos mais tarde.

A alimentação saudável continua a contar. O cérebro consegue recuperar até certo ponto. Mas a ciência indica que os efeitos da comida lixo podem durar mais do que muitas pessoas esperam.

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